Foto: Fernando Ocazione
O audiovisual brasileiro vive transformação silenciosa. Se antes bastava chegar preparado para um teste presencial, hoje boa parte das oportunidades começa muito antes do encontro com diretores de elenco. O self tape se tornou porta de entrada para novelas, séries e filmes, exigindo que o ator domine não apenas a interpretação, mas também iluminação, enquadramento, captação de som, caracterização e apresentação profissional.
Foi observando essa mudança que o agente artístico Marcus Montenegro e o ator, dramaturgo e diretor André Arteche criaram Arte On, livro que reúne cem monólogos inéditos acompanhados por orientações de estudo voltadas especificamente para quem precisa gravar testes de elenco. Em entrevista ao Pittaplay, os dois explicam como o mercado mudou, analisam a formação dos novos atores e refletem sobre o futuro da profissão.
Quando o mercado mudou, o ator também precisou mudar
Para Marcus, o nascimento do projeto está diretamente ligado à revolução provocada pelo streaming e pela popularização dos testes gravados: “Com a chegada do streaming, o volume de self tapes aumentou muito, o que começou a exigir muito dos atores conhecimento não só da parte artística, de decorar o texto e interpretar, mas também conhecimento técnico, se preocupar com luz, se preocupar com o som, com o cenário, com a caracterização.”
Segundo ele, a democratização das plataformas de escalação ampliou as oportunidades, mas também aumentou a concorrência e a necessidade de apresentar materiais tecnicamente mais consistentes: “O mercado também passou a utilizar muito mais as plataformas de escalação de elenco, analisando o material dos atores. A democratização da escalação aumentou muito e o processo de pesquisa cada vez ficou maior. Isso exigia também que os atores aprendessem cada vez mais a entregar material de qualidade.”
Foi dessa necessidade que surgiu o livro: “Arte On visa melhorar a qualidade do material de trabalho dos atores. Eu e o André trouxemos um projeto inédito, que são textos inéditos. Cada ator que grava seu monólogo tem um conteúdo somente dele. Esse conteúdo nunca vai se repetir na boca de outro ator.”
Mais do que novos monólogos, um novo jeito de estudá-los
Se Marcus identificou uma lacuna no mercado, André Arteche procurou preencher outra: a ausência de orientação artística para trabalhar esses textos. Ele conta que o livro nasceu da experiência que gostaria de ter vivido durante sua formação.
“Como ator e estudante de teatro, eu sempre senti necessidade de entrar em contato com bons textos para registro de material, principalmente para audiovisual. O Arte On visa colaborar com esse segmento apresentando um diferencial, que é um plano de estudo em relação aos monólogos.”
Cada texto é acompanhado por uma análise que ajuda o ator a compreender melhor sua construção dramática: “Assim, o ator recebe o monólogo e também recebe uma orientação para o estudo em relação àquele texto.”
Renovar um mercado saturado
Além da qualidade artística, Marcus também enxergava outro problema: a repetição dos mesmos monólogos utilizados por diferentes atores: “A principal proposta do livro é renovar os monólogos disponíveis no mercado. Existia uma reclamação muito grande de que os atores sempre gravavam os mesmos textos. Havia uma saturação.”
Segundo ele, esse é apenas o primeiro volume de um projeto pensado para crescer: “A ideia é que venham novos livros do Arte On, sempre renovando o material disponível no mercado.”
Para André, o desafio também estava em criar personagens capazes de oferecer boas possibilidades de interpretação sem perder o vínculo com situações reconhecíveis pelo público: “A dificuldade é trazer temáticas diferentes, mas ao mesmo tempo observar o cotidiano. O trânsito, por exemplo, pode gerar situações engraçadas ou dramáticas. Cada momento do dia a dia, se for bem observado, contém potencial para uma boa história.”
Um bom ator começa por um bom conflito

Durante a escrita dos cem monólogos, André buscou construir personagens movidos por conflitos claros: “O que os atores devem buscar nos textos para registro de trabalho são personagens que tenham bons conflitos. Um conflito se dá por um objetivo que enfrenta um obstáculo. Dessa não resolução nasce uma boa cena, seja ela de humor ou de drama.”
Entre todos os textos, um ganhou significado especial para o autor: “É a história de uma mulher que está no carro com o namorado quando ele começa uma perseguição a um motociclista. O motociclista desce da moto, aponta uma arma e ela percebe que a filha está no banco de trás. Ali ela tem um insight sobre a pessoa com quem vive.”
Depois de mostrar o texto para algumas pessoas, André percebeu que ele ultrapassava a função artística: “Aquilo me despertou a sensação de que aqueles textos também tinham uma utilidade social.”
Talento encanta. Estudo sustenta uma carreira
Ao longo de quatro décadas acompanhando artistas, Marcus afirma que ainda observa erros recorrentes em novos atores: “A questão da dicção e da falta de organicidade ainda aparece muito. Os grandes atores têm muita propriedade artística. Os novos ainda precisam amadurecer para entregar um material de mais qualidade.”
Ele também acredita que muitos testes falham porque o ator não compreende exatamente o que está sendo pedido: “Às vezes é não saber ler o que está sendo proposto e apresentar uma proposta distante daquilo que foi solicitado.”
Para ele, talento continua sendo o ponto de partida, mas não basta: “O primeiro passo sempre é o talento e a vocação, é o que nos encanta. Mas o ator disponível, preparado e estudioso transforma sua carreira em algo muito mais consistente e longevo.”
A formação mudou?
Ao comparar gerações, Marcus acredita que os jovens artistas vivem um momento diferente da formação de décadas atrás: “A geração de hoje é muito mais rasa e tem muito menos compreensão do passado. O processo de análise de texto, conhecimento e estudo era muito mais profundo.”
Ele faz questão de ressaltar, porém, que isso não significa falta de talento: “Temos uma geração maravilhosa, extremamente talentosa, mas que precisa aprofundar cada vez mais o processo de formação.”
É justamente esse o objetivo de outros projetos que desenvolve paralelamente: “O projeto Ser Artista vive nessa intenção de trabalhar a cabeça desses jovens atores para que se inspirem nos grandes artistas, não só na forma de atuar, mas também na forma de conduzir suas carreiras.”
Uma parceria construída pelo mesmo olhar

Ao falar sobre o processo de criação, Marcus afirma que praticamente não houve divergências entre ele e André: “O André pensa muito parecido comigo. As propostas artísticas são sempre coerentes com aquilo que acredito ser o melhor para oferecer aos atores.”
Segundo ele, essa sintonia explica por que a parceria se expandiu para diferentes áreas: “Temos cursos, roteiros de filmes, dois livros… porque temos o mesmo olhar artístico.”
André também vê essa complementaridade como um dos pilares do projeto: “A busca sempre foi construir algo consistente artisticamente e, ao mesmo tempo, comunicativo para quem vai utilizar esse material profissionalmente.”
O legado de quem vive os bastidores
Depois de quarenta anos acompanhando carreiras de artistas, Marcus diz que escrever livros representa uma forma de preservar essa experiência: “Fico muito satisfeito em poder deixar um legado dos meus anos de carreira convivendo com grandes atores, tudo documentado e servindo de referência para a formação de novos profissionais.”
Ele lembra ainda que o podcast Ser Artista já passou a ser utilizado em pesquisas acadêmicas: “Isso me orgulha muito. Acho que os livros também estão cumprindo essa função de ajudar na formação e na educação dos atores.”
Para André, a escrita também se tornou um caminho natural: “O primeiro texto que escrevi para teatro teve revisão do Ariano Suassuna. Aquilo foi um sinal de que existia um caminho a ser desenvolvido.”
Hoje, ele divide sua atuação entre diferentes funções artísticas: “Escrevo, dirijo, atuo, faço trilha sonora. Gosto de trabalhar a arte em todas as suas formas. Mas sou ator e sempre serei ator. É um trabalho que nunca quero deixar de fazer.”
Mais do que reunir cem novos monólogos, Arte On nasce como reflexo do mercado que mudou profundamente. E, na visão de Marcus Montenegro e André Arteche, acompanhar essa transformação exige muito mais do que talento. Exige preparo, estudo, observação e disposição para continuar aprendendo ao longo de toda a carreira.
