Vicktor Castelbra transforma anjos em espelhos da natureza humana

Escrevendo desde os nove anos, Vicktor Castelbra transforma fantasia, mistério e referências ao cristianismo em histórias que discutem identidade, pertencimento e a complexidade das relações humanas.

Em O Segredo dos Anjos, Vicktor Castelbra leva o leitor para uma guerra entre céu e terra, cercada por seres celestiais, mistérios e segredos antigos. Mas, para o autor, a fantasia nunca foi o verdadeiro centro da história. O que realmente o interessa é discutir questões profundamente humanas como identidade, pertencimento, luto, aceitação e as contradições que habitam cada pessoa. Em entrevista ao Pittaplay, ele explica como construiu esse universo e revela por que acredita que até os anjos carregam luz e sombra.

O ponto de partida da narrativa é Thales, jovem que sempre se sentiu deslocado do mundo em que vivia. Após a morte misteriosa dos pais, ele descobre pertencer a antiga linhagem celestial e passa a enfrentar guerra que coloca em risco o destino do céu e da terra. Para Vicktor, porém, o maior conflito da história não está nas batalhas, mas nos segredos.

“Acredito que um segredo tem o poder de transformar uma pessoa, principalmente quando se trata de segredo obscuro. Em O Segredo dos Anjos, esse conflito move toda a narrativa: o protagonista é impedido de ser quem realmente é por causa de segredos que não lhe pertencem. No fim, a história revela que até mesmo os anjos carregam um lado sombrio. Afinal, ninguém é feito apenas de luz”, afirma.

O Segredo dos Anjos acompanha Thales, um jovem que descobre pertencer a uma antiga linhagem celestial e precisa enfrentar segredos capazes de mudar o destino entre o céu e a Terra.
O Segredo dos Anjos acompanha Thales, um jovem que descobre pertencer a uma antiga linhagem celestial e precisa enfrentar segredos capazes de mudar o destino entre o céu e a Terra.

Embora Thales seja um ser celestial, Vicktor explica que sua construção nasceu de conflitos compartilhados por qualquer pessoa: “Um dos maiores triunfos desse personagem está justamente em suas camadas. Embora ele seja um anjo, sua humanidade permanece intacta. Tudo o que o atravessa está ligado à inquietação, identidade, luto e pertencimento. Suas asas representam a possibilidade da liberdade, mas elas, por si só, não o libertam. A verdadeira liberdade só surge quando ele aceita quem é. Afinal, aceitação é o que, de fato, nos permite voar”, destaca.

Essa perspectiva também aparece na maneira como o autor escolheu representar os anjos. Em vez de figuras perfeitas e inalcançáveis, eles carregam dúvidas, conflitos e imperfeições: “O que mais me interessou foi justamente questionar essa imagem idealizada, mostrando que até os anjos podem carregar um lado sombrio. A dualidade entre luz e sombra é uma constante da existência, e nenhum ser está completamente imune a ela. É justamente isso que os torna mais humanos e mais fascinantes”, explica.

Fantasia, romance, mistério e referências ao cristianismo convivem naturalmente na obra. Segundo Vicktor, essa mistura permite construir uma narrativa mais profunda do que uma simples disputa entre bem e mal.

“Em O Segredo dos Anjos, luz e sombra não são apenas forças opostas, mas emoções que coexistem e moldam os personagens. É essa dança entre o divino e o humano, entre a pureza e a imperfeição, que conduz a história para além da fantasia e a aproxima da experiência humana.”

Durante o processo de escrita, um personagem acabou transformando completamente os planos do autor. Alastor Verita surgiu inicialmente como um antagonista, mas cresceu a ponto de modificar toda a estrutura da narrativa: “Quanto mais eu o conhecia, mais entendia que suas motivações eram muito maiores do que eu havia planejado inicialmente. Isso me obrigou a revisitar todo o universo que já tinha criado. No fim, Alastor não apenas transformou a história, como também me transformou como escritor”, revela, antes de deixar uma provocação aos futuros leitores: “Os olhos verdes são a maior mentira que os leitores vão encontrar.”

Autor de O Segredo dos Anjos, Vicktor Castelbra acredita que a fantasia não afasta o leitor da realidade. Pelo contrário: aproxima de temas como medo, amor, perda, esperança e coragem.
Autor de O Segredo dos Anjos, Vicktor Castelbra acredita que a fantasia não afasta o leitor da realidade. Pelo contrário: aproxima de temas como medo, amor, perda, esperança e coragem.

Escrevendo desde os nove anos, quando criava histórias com irmãos e primos, Vicktor acredita que a essência de seu processo criativo permanece a mesma, ainda que sua escrita tenha amadurecido: “Continuo escrevendo para encontrar magia no mundo, mas hoje sei que ela também habita as nossas dores, os nossos conflitos e as nossas transformações”, afirma.

Essa paixão pelas histórias também explica sua relação com novelas e cinema. Além de publicar livros, o autor já desenvolveu argumentos de folhetins para televisão e admite que escreve pensando visualmente: “Enquanto escrevo, consigo imaginar as cenas sendo filmadas, os enquadramentos, a iluminação, o ritmo e até o silêncio entre os personagens. No fim, acredito que escrever é justamente equilibrar essas duas coisas: emocionar por meio da mensagem e envolver o leitor criando um mundo que ele consiga enxergar, sentir e viver.”

Para ele, a literatura e a televisão caminham por caminhos diferentes, mas complementares. Enquanto a novela ensina sobre ritmo, diálogos e construção dramática, os livros permitem mergulhar na interioridade dos personagens e explorar ambiguidades que a imagem nem sempre consegue traduzir.

Ao contrário da ideia de que a fantasia serve apenas para escapar da realidade, Vicktor acredita que ela pode aproximar o leitor das questões mais profundas da existência: “Ao falar de mundos imaginários, acabamos revelando verdades muito concretas sobre medo, amor, perda, esperança e coragem. No fim, a fantasia não nos afasta do ser humano; ela nos aproxima ainda mais daquilo que somos.”

Talvez seja essa a inquietação que acompanha toda a sua obra. Questionado sobre qual pergunta continua tentando responder por meio da literatura, o escritor não cita anjos nem batalhas celestiais.

“A pergunta que continua me acompanhando é: até onde o ser humano pode ir? Independentemente do universo que eu crie, estou sempre tentando compreender os nossos limites, os nossos sonhos e o que ainda somos capazes de nos tornar. No fundo, escrevo porque acredito que sempre existe algo além daquilo que já conhecemos, e a literatura é uma forma de continuar procurando essa resposta.”

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