Há livros que nascem de uma ideia. Outros, de uma urgência. Beatriz – Uma existência de mulher, de Catarina Setubal de Rezende, parece surgir de lugar ainda mais delicado: da tentativa quase impossível de conversar com alguém depois do silêncio definitivo. Não como quem procura respostas, mas como quem tenta reorganizar os ecos que uma ausência deixou espalhados pela casa, pelas fotografias e, principalmente, pela linguagem.
A história começa com reencontro material. Cento e vinte e duas cartas guardadas depois da morte do pai da autora reaparecem como espécie de arqueologia afetiva. Eram correspondências trocadas entre Beatriz e Antônio Rezende nos anos 1950, ainda antes do casamento, quando ela dividia os dias entre São Paulo, os estudos em sociologia, os conflitos familiares e o desejo quase físico de liberdade. O que Catarina encontrou ali não foi apenas acervo íntimo. Encontrou uma mulher em movimento.
“Tudo começou com um achado”, conta a autora, em entrevista à coluna Por Trás das Páginas, do Pittaplay: “Achei que valia a pena publicar as cartas dela porque tínhamos vivido muito pouco juntas e eu gostaria de saber mais sobre ela. Também pensando nos meus irmãos, que conviveram ainda menos”. Antes da bioficção, veio Cartas da Mamãe, publicado pela mesma editora. Foi a partir da leitura desse material que surgiu o impulso para transformar memória em literatura.
Quando a memória deixa de ser arquivo e vira literatura

Mas o livro nunca se limita ao gesto documental. Catarina entende cedo que toda reconstrução também é invenção. Não porque falsifique a realidade, mas porque a própria literatura reorganiza os afetos para que eles sobrevivam na narrativa: “Toda a construção desse personagem patriarcal, seus pensamentos e diálogos foram imaginados a partir da indignação nas cartas que ela escrevia ao meu pai”, revela. O pai autoritário que atravessa o livro nasce menos da fidelidade factual do que da tensão emocional presente nas correspondências.
Escrever também é correr o risco da própria verdade
Existe honestidade quase invisível na maneira como Catarina fala sobre os limites dessa exposição. Em vez de esconder o risco emocional da escrita, ela o incorpora ao próprio tecido do livro. As cartas que escreveu para a mãe entre os 17 e os 20 anos foram reproduzidas integralmente. Nenhuma delas havia sido lida antes.
“Sem dúvida, me super expus”, admite. “Esse é o risco pessoal na literatura. Mas procurei revelar os sentimentos na sua total intensidade. São intensos, mas verdadeiros. Acho que a literatura não trai nunca. Revela”.
Essa frase ajuda a entender o centro nervoso de Beatriz – Uma existência de mulher. O livro não trabalha a memória como santificação. Trabalha como fratura. Catarina não tenta preservar a mãe dentro de moldura perfeita. Ela prefere encarar as contradições, os silêncios e até os episódios que poderiam ter sido apagados por pudor.
“Para escrever é preciso ter coragem”, diz. “Há episódio que não me engrandece. Quase suprimi, mas deixei. O dever do ofício é esse: não mentir a si mesma”.
A narrativa atravessa décadas, acompanha movimentos sociais, mergulha no ambiente universitário da Juventude Universitária Católica e reconstrói um Brasil inquieto dos anos 1950 e 1960. Ainda assim, o motor do livro continua sendo a ausência. Catarina entende que o contexto histórico não serve apenas como pano de fundo. Serve também como respiro.

Foto: Luiza Baraúna
“Recuperar os fatos históricos e o contexto social e cultural daquela época me pareceram um recurso útil para dar um respiro ao leitor, situar a história no seu tempo e provocar a empatia de quem conviveu ou sentiu na própria vida as consequências daqueles fatos históricos”.
Na segunda metade do romance, a autora traz algo ainda mais delicado quando desloca o eixo narrativo e insere suas próprias cartas de luto. O livro deixa de observar Beatriz apenas como personagem histórica e passa a tocar diretamente a dor da filha que ficou.
“Na pesquisa pelo material para escrever o livro, eu precisava falar dela, mas também do que se passou comigo com a perda”, explica. “Nada mais contundente do que revelar os meus sentimentos nas minhas próprias cartas, no calor daqueles momentos”.
A tecnologia como tentativa de permanência
O gesto mais arriscado do livro está justamente aí: transformar o luto em linguagem sem higienizá-lo. E então surge a Inteligência Artificial. Não como espetáculo tecnológico, mas como ferramenta narrativa para devolver corpo a alguém interrompido pelo tempo. Catarina usa a IA para reconstruir cenários, pensamentos e até possíveis reações de Beatriz décadas depois de sua morte. O recurso poderia soar artificial em mãos menos cuidadosas. Aqui, funciona como continuação da busca emocional da autora.
“Foi muito importante e impactante porque a I.A. deu carne, pensamentos e sentimentos à Beatriz, que excedem a simples leitura de suas cartas. Ela se concretizou e reviveu, para pensar e falar no momento atual”.
A fala impressiona porque desloca a tecnologia do campo da novidade para o campo da saudade. A IA não aparece no livro para impressionar o leitor. Surge como tentativa desesperada de permanência.

Ao longo da conversa, Catarina também reconhece que o processo alterou sua própria percepção sobre a mãe. A veneração filial deu lugar a algo mais complexo e mais humano: “Somente agora, como mulher, como mãe e como escritora, passei a entendê-la, me entender melhor e a outras mulheres, presas na mesma teia social castradora”.
Talvez seja justamente isso que transforme Beatriz – Uma existência de mulher em algo maior do que uma homenagem familiar. O livro começa tentando recuperar uma mãe específica, mas termina olhando para experiência coletiva feminina marcada por perdas, renúncias e sobrevivência emocional.
“Escrever foi um reencontro e escuta interior”, define Catarina. “O meu universo se ampliou. Tive empatia com dores que não são apenas minhas”. No fim, o lançamento que ocorreu em 8 de maio parece representar um segundo desprendimento. Depois de atravessar arquivos, lembranças e fantasmas íntimos, a autora agora entrega essa história ao olhar de desconhecidos.
“O que espero é que as pessoas entendam que há dores comuns, mas que, apesar delas, podemos seguir adiante com empatia e solidariedade”. É uma frase simples. E justamente por isso permanece ecoando depois da última página.
