Consequências Paralelas transforma viagem no tempo em um jogo de tensão e descobertas

Consequências Paralelas transforma viagem no tempo em um jogo de tensão e descobertas

Foto: divulgação

Viagens no tempo e realidades alternativas são exploradas pelo cinema há décadas. De Volta Para o Futuro (1985) transformou o tema em aventura e comédia, Interestelar (2014) levou a discussão para uma ficção científica mais filosófica, enquanto Vingadores: Ultimato (2019) mostrou como diferentes linhas temporais podem interferir diretamente no destino dos personagens.

Agora, o cinema brasileiro também entra nessa viagem. O Pittaplay assistiu a Consequências Paralelas na pré-estreia realizada na terça-feira, 6 de outubro, em São Paulo, e encontrou um filme que compreende suas possibilidades: três atores, um único cenário e uma máquina do tempo são suficientes para construir 1h20 de tensão.

O longa parte de uma premissa aparentemente simples e faz dela um jogo progressivamente mais complexo. Max, Pedro e Bruna encontram uma improvável máquina do tempo e decidem testá-la por curiosidade. A brincadeira muda quando Pedro passa, de maneira súbita e aparentemente inexplicável, a tentar matar Max.

Sem compreender o que provocou aquela mudança, Max começa a retornar alguns segundos no tempo. Cada tentativa de sobreviver modifica alguma coisa, apresenta uma nova informação e coloca os três diante de outras possibilidades para uma história que parecia já conhecida e é nesse mecanismo que Consequências Paralelas encontra sua principal força.

A repetição não cansa, instiga

Repetir uma mesma situação tantas vezes poderia rapidamente esgotar o filme. Mas o roteiro e direção de Gabriel França e CD Vallada fazem o contrário. Cada retorno acrescenta uma informação, modifica a percepção sobre um personagem ou muda a maneira como Max tenta enfrentar aquilo que está acontecendo.

O espectador retorna ao mesmo momento, mas nunca exatamente à mesma situação. Por isso, Consequências Paralelas exige atenção. Um diálogo, uma reação e até aquilo que inicialmente parece banal podem adquirir outro significado minutos depois. O filme convida o público a reorganizar constantemente aquilo que acredita ter entendido.

A escolha de filmar em ordem cronológica também interfere diretamente no resultado. Existe um desgaste progressivo nos corpos dos atores que acompanha a deterioração emocional dos personagens. Max, Pedro e Bruna vão perdendo o controle, a segurança e a própria capacidade de compreender completamente a realidade ao redor deles.

A sanidade parece se desidratar diante da câmera e o mais interessante é saber que os próprios intérpretes atravessaram as filmagens acompanhando essa progressão. O cansaço deixa de ser somente uma informação prevista pelo roteiro e encontra correspondência na experiência acumulada durante as gravações.

Atuações que carregam o peso das realidades

O longa não depende de grandes efeitos visuais para mostrar viagens temporais e suas consequências. São as reações, os corpos e principalmente os olhares dos atores que ajudam a diferenciar aquilo que cada nova possibilidade provoca.

Carol Macedo é brilhante e a dualidade de Bruna faz o público desconfiar constantemente do quanto ela sabe e do quanto ainda pretende descobrir. A atriz preserva essa ambiguidade sem antecipar facilmente as intenções da personagem.

Felipe Hintze sustenta grande parte da urgência do filme. Seu desespero e cansaço constroem um Max que tenta sobreviver ao mesmo tempo em que procura compreender por que aquilo está acontecendo. A repetição pesa fisicamente sobre o personagem e Hintze permite que esse desgaste permaneça visível.

João Fenerich é um dos grandes destaques. Pedro carrega uma dor que desperta a vontade de compreendê-lo mesmo quando suas atitudes parecem difíceis de justificar. No olhar, no choro e na transformação progressiva do personagem, o ator sugere que existe sempre alguma coisa além da realidade que acabamos de conhecer.

Os três estão completamente entregues ao jogo proposto pelo roteiro e essa entrega é fundamental porque, sem ela, o mecanismo temporal seria apenas um exercício narrativo. São eles que fazem cada retorno carregar consequências emocionais.

Pedro (João Fenerich), Max (Felipe Hintze) e Bruna (Carol Macedo) em cena de Consequências Paralelas.
Pedro (João Fenerich), Max (Felipe Hintze) e Bruna (Carol Macedo) em cena de Consequências Paralelas.
Foto: divulgação

Um único espaço, possibilidades infinitas

Filmar 1h20 de ficção científica integralmente dentro de um único cenário é uma escolha arriscada. Mais difícil ainda é impedir que o público comece a sentir as paredes desse espaço antes dos próprios personagens.

Gabriel França e CD Vallada transformam essa limitação em identidade e a direção está completamente comprometida com aquilo que o roteiro exige. É nitidamente possível ver a segurança para fazer suspense, prolongar situações e ousar dentro de um espaço fisicamente restrito. Quando o filme liga o botão da tensão, praticamente não o desliga mais.

E a poltrona deixa de ser somente um objeto. A máquina do tempo ocupa o centro daquele universo até adquirir uma presença quase equivalente à dos personagens. A direção entende sua importância e organiza enquadramentos, movimentos e relações espaciais ao redor dela sem abandonar a sensação de confinamento.

A influência teatral aparece naturalmente. Em vários momentos, Consequências Paralelas parece uma peça sendo encenada para a tela grande, principalmente pela maneira como os atores ocupam o espaço e como pequenas alterações de posição ou comportamento mudam completamente uma situação.

Mas a câmera impede que essa característica transforme o filme em teatro simplesmente registrado. O enquadramento seleciona, esconde e aproxima. A direção usa o espaço limitado para aumentar a sensação de aprisionamento.

A iluminação também participa dessa construção. As realidades não dependem de mudanças óbvias de cores ou alterações radicais na fotografia. Em determinados momentos, uma luz sobreposta aos atores modifica discretamente a percepção daquele ambiente e amplia o suspense. É um recurso que trabalha para a narrativa sem disputar atenção com ela.

O filme termina, mas as teorias continuam

Existe uma medida interessante para avaliar uma história construída sobre mistérios: observar o que acontece quando ela termina.

Na saída da pré-estreia de Consequências Paralelas, em São Paulo, a sessão continuava nas conversas. Teorias começaram a surgir, interpretações eram confrontadas, aparentes contradições ganhavam explicações diferentes e detalhes vistos minutos antes voltavam à discussão.

Isso importa e um filme que se propõe a construir um quebra-cabeça não precisa entregar ao espectador uma experiência que termina junto com os créditos. Quando diferentes pessoas saem da sala tentando reorganizar aquilo que acabaram de assistir, a narrativa conseguiu permanecer em movimento mesmo depois que a tela apagou.

Consequências Paralelas provoca exatamente esse efeito. É como prender a respiração na primeira viagem no tempo e só conseguir soltá-la quando os créditos começam a subir e ainda assim alguma coisa permanece.

O desejo de rever o filme nasce daí e existe ainda algo importante em reconhecer a dimensão dessa produção dentro do cinema brasileiro. Se um longa de ficção científica realizado integralmente em um cenário, sustentado por três atores e disposto a brincar dessa maneira com tempo, suspense e percepção chegasse ao Brasil como uma produção estrangeira, provavelmente seria celebrado por sua ousadia.

Consequências Paralelas é brasileiro. É cinema nacional feito por artistas dispostos a experimentar, assumir riscos e confiar que uma boa ideia não precisa necessariamente de uma produção gigantesca para se tornar cinematograficamente ambiciosa.

Gabriel França e CD Vallada colocam três atores diante de uma poltrona e perguntam quantas histórias podem existir dentro daquele espaço. A resposta aparece durante 1h20: tantas quanto as escolhas forem capazes de criar e quando Consequências Paralelas termina, surge uma última vontade bastante coerente com tudo aquilo que acabamos de assistir: voltar no tempo e começar outra vez.

Consequências Paralelas, distribuído pela O2Play, estreia com exclusividade nos cinemas CineSystem em 15 de outubro.

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