Foto: Jamille Queiroz
Gugu ainda está descobrindo quem é, mas já precisa enfrentar um mundo que parece ter decidido quem ele deveria ser. Há quem tente limitar seus gestos, suas vontades e até a maneira como expressa a própria felicidade. Na contramão dessas imposições, existe Dilma. É no amor da avó que o menino encontra a segurança necessária para continuar sendo quem é. Em Feito Pipa, Allan Deberton transforma essa relação em experiência profundamente sensível, mostrando como o acolhimento pode oferecer a uma criança algo que o preconceito insiste em lhe tirar: a liberdade de existir sem medo e sem precisar da autorização de ninguém.
O que torna essa relação tão emocionante está na maneira como Gugu (Yuri Gomes) e Dilma (Teca Pereira) demonstram o que sentem um pelo outro. A direção encontra significado na proximidade dos corpos, na troca de olhares, nos gestos de cuidado e até nos momentos em que nenhuma palavra precisa ser dita. Existe intimidade construída pela convivência, pela preocupação e pelo desejo de permanecer juntos. Gugu encontra na avó alguém que o ama por inteiro, enquanto Dilma recebe do neto um afeto igualmente generoso. Allan permite que o público acompanhe essa reciprocidade de perto, até compreender que, para aquele menino, o amor da avó também representa a possibilidade de voar.
E é impossível atravessar essa história sem pensar em quantas pessoas passaram a infância procurando exatamente esse lugar.
André Araújo escreve sobre sentimentos que nem sempre cabem nas palavras
O roteiro de André Araújo é um dos grandes responsáveis pela força emocional de Feito Pipa. Existe sensibilidade na escolha de cada palavra e, principalmente, na compreensão de que um diálogo precisa carregar intenções que ultrapassam aquilo que está sendo dito.
André constrói personagens que se revelam por suas relações. Cada conversa parece nascer de um sentimento anterior, de alguma coisa que já existia antes de a câmera começar a acompanhar aquelas vidas. Por isso, os diálogos encontram naturalidade tão importante para a narrativa. As palavras carregam afeto, medo, frustração, desejo e necessidade profunda de pertencimento.
Há diferença entre escrever declaração de amor e construir uma cena na qual o público consiga sentir esse amor sem que ninguém precise anunciá-lo. O roteiro compreende essa diferença.
A estrutura narrativa também demonstra segurança. Os conflitos são apresentados de maneira a permitir que a relação entre Gugu e Dilma permaneça como centro emocional da história. O filme encontra potência na direção e nas atuações, mas é na escrita que essa potência começa a ganhar dimensão. André estabelece as condições para que cada gesto tenha significado e cada silêncio encontre seu lugar.
O texto possui qualidade especialmente bonita: respeita a inteligência emocional do espectador. Permite que uma palavra aparentemente simples carregue uma vida inteira de sentimentos. E, quando a história exige dor, essa dor nasce das relações construídas, sem precisar transformar cada sofrimento em explicação.
Allan Deberton encontra o amor nos detalhes
A direção de Allan Deberton compreende a delicadeza do material que tem nas mãos. Seu trabalho parece guiado por pergunta que atravessa toda a narrativa: como fazer o público sentir aquilo que Gugu sente?
A resposta está na maneira como o diretor organiza o universo do personagem. As cores, o figurino, a trilha sonora, os enquadramentos e a disposição dos atores em cena participam da construção desse sentimento. Há intenção na forma como os corpos ocupam os espaços e como a câmera se aproxima deles. Allan entende que a relação entre avó e neto pode ser revelada tanto por um diálogo quanto pela distância entre dois rostos.
A sensibilidade da direção está nessa capacidade de reconhecer o valor dramático dos pequenos acontecimentos. Quando o cinema decide observar um gesto, ele também decide o que considera importante e Allan escolhe olhar para o afeto, para a maneira como Gugu encontra segurança na presença da avó e na forma como Dilma se torna um lugar de acolhimento diante de um mundo que insiste em impor limites ao menino.
O resultado é uma experiência em que a linguagem audiovisual acompanha a emoção sem precisar explicá-la constantemente e é possível ver harmonia evidente entre roteiro e direção. André escreve com delicadeza e Allan encontra os recursos cinematográficos necessários para dar corpo a essa delicadeza. O sentimento que nasce no texto atravessa os movimentos de câmera, alcança os atores e chega ao público com força que parece crescer porque não precisa ser excessiva.
É direção que consegue provar o quanto o amor pode ser cinematográfico.
Teca Pereira transforma o olhar de uma avó em declaração de amor

Teca Pereira, como Dilma, realiza um trabalho marcado pela capacidade de transformar um gesto quase imperceptível em algo gigantesco.
Sua interpretação parece atravessar os limites da palavra e a atriz constrói o amor da avó pelo neto com consciência corporal extraordinária. A maneira como olha para Gugu, como se movimenta e como reage à presença dele revela personagem que encontra naquele menino parte fundamental de sua própria existência.
Teca entende que o corpo também conta histórias e percebemos isso quando um plano mais aberto mostra como sua postura comunica a relação que Dilma estabelece com o espaço e com o neto. Quando a câmera se aproxima, os movimentos do rosto assumem expressividade ainda maior. No close e no superclose, os olhos parecem concentrar tudo aquilo que a personagem sente e que nenhuma frase conseguiria traduzir completamente.
O que o público vê é a ternura profundamente humana na interpretação. Dilma ama Gugu com a naturalidade de quem reconhece naquele menino alguém que merece ser feliz e Teca faz desse sentimento a matéria-prima de sua atuação. Cada gesto parece guardar memória, preocupação e vontade de proteger.
É impossível observar seu trabalho sem pensar nas avós que fizeram da própria presença uma forma de abrigo. Mulheres que, muitas vezes, ofereceram aos netos compreensão que o restante da família não conseguiu oferecer. Mulheres que aprenderam a reconhecer a tristeza de uma criança antes mesmo de ela conseguir explicar o motivo.
Quer descobrir como o cinema pode traduzir o amor de uma avó pelo neto? Assista a Teca Pereira como Dilma porque tem respostas que só um olhar consegue oferecer.
Yuri Gomes dá a Gugu a coragem de existir
Yuri Gomes encontra em Gugu um personagem que exige muito mais do que espontaneidade infantil. Seu trabalho precisa sustentar o entusiasmo de uma criança que deseja viver livremente e, ao mesmo tempo, a dor de descobrir que o mundo nem sempre recebe essa liberdade com carinho.
Gugu enfrenta a crueldade no ambiente escolar e é doloroso essa dimensão da história porque a escola deveria ser um dos primeiros espaços de descoberta e pertencimento. Para muitas crianças queer, entretanto, pode se transformar no lugar onde começam a aprender o significado da vergonha, do medo e da rejeição. Antes mesmo de compreenderem completamente quem são, já encontram pessoas dispostas a dizer quem não deveriam ser.
O filme reconhece essa violência, mas Gugu carrega força que ultrapassa as ofensas que recebe, com vontade de viver que resiste às tentativas de enquadrá-lo em expectativas alheias. Yuri compreende essa mistura de vulnerabilidade e coragem, oferecendo ao personagem a emoção que nasce tanto de suas fragilidades quanto de sua capacidade de continuar sendo ele mesmo.
O mais bonito, porém, está na relação com Dilma e de como Gugu também deseja cuidar da avó. O amor que recebe desperta nele a necessidade igualmente intensa de proteger. Essa reciprocidade transforma a relação dos dois em algo ainda mais profundo. O menino que encontra abrigo nos braços da avó também quer ser abrigo para ela.
Yuri consegue transmitir esse sentimento com entrega que merece atenção, pois ele interpreta Gugu com a energia da infância, mas carrega emoções que muitas vezes parecem grandes demais para alguém tão pequeno e essa a grandeza da interpretação permite que Gugu seja criança, com tudo o que isso representa, mesmo quando precisa enfrentar dores que nenhuma criança deveria conhecer.
É um trabalho que tem potencial para marcar a trajetória do jovem ator.
Lázaro Ramos encontra a complexidade de um pai incapaz de aceitar o filho

O personagem de Lázaro Ramos representa uma das faces mais dolorosas da narrativa: a incapacidade de um pai de reconhecer o próprio filho para além das expectativas que construiu sobre ele.
Este homem é frustrado e deseja um filho que corresponda à sua ideia de masculinidade, que se comporte de determinada maneira, que abandone aquilo que considera inadequado. A dança e a maquiagem, expressões da liberdade de Gugu, tornam-se motivos de conflito.
A cada tentativa de controlar o menino, o pai revela mais sobre suas próprias limitações e Lázaro constrói essa dureza sem transformar o personagem em figura distante da realidade. Pelo contrário, o desconforto nasce da possibilidade de reconhecer naquele homem atitudes que continuam presentes em tantas famílias.
É um pai que parece incapaz de compreender que amar um filho também exige abandonar a fantasia sobre quem ele deveria ser.
A interpretação trabalha com a frustração, a rigidez e uma dificuldade profunda de lidar com aquilo que escapa ao seu controle. Lázaro encontra humanidade na composição sem suavizar a violência emocional das atitudes do personagem e essa escolha torna sua presença incômoda e dramaticamente importante.
O público observa um homem que exige do filho a masculinidade que ele próprio parece viver como prisão. Sua incapacidade de aceitar Gugu revela o quanto determinadas concepções de masculinidade podem comprometer a relação de um pai com a própria criança.
Lázaro l oferece complexidade a esse conflitos sua atuação desperta indignação, mas também permite perceber as contradições que sustentam aquele comportamento.
O amor também precisa ser vivido enquanto há tempo

Tem uma pergunta que permanece depois de Feito Pipa: quantas vezes deixamos de demonstrar amor porque acreditamos que ainda teremos tempo?
Tempo para abraçar, para compreender, para dizer que alguém pode ser exatamente quem é. Tempo para abandonar o orgulho, desfazer uma mágoa, aceitar uma diferença.
O filme encontra sua maior força nessa urgência afetiva e a relação entre Gugu e Dilma faz pensar no amor como escolha cotidiana. Amar alguém exige presença, atenção aos detalhes, perceber quando o outro precisa de proteção e, sobretudo, reconhecer que ninguém deveria precisar diminuir a própria existência para merecer carinho.
É profundamente poético como tudo isso está posto na imagem de uma pipa. Ela precisa de vento para subir, mas também precisa encontrar espaço para atravessar o céu. Quando alguém tenta impedir seu movimento, aquilo que deveria representar liberdade se transforma em prisão.
Gugu também deseja voar. Deseja dançar, experimentar, descobrir o mundo e existir sem precisar pedir desculpas por aquilo que o torna único e diante de tantas forças que tentam mantê-lo preso ao chão, encontra na avó alguém que reconhece a beleza de vê-lo alcançar o céu.
É nessa relação que Feito Pipa encontra sua essência. O filme nos convida a pensar sobre as pessoas que nos permitiram ser livres e sobre aquelas que, por medo ou preconceito, tentaram cortar nossas asas. Faz lembrar de quem nos acolheu quando o mundo parecia grande demais e provoca reflexão ainda mais importante: que tipo de presença estamos sendo na vida de quem amamos?
André Araújo escreve história atravessada por sentimentos. Allan Deberton transforma esses sentimentos em cinema. Teca Pereira, Yuri Gomes e Lázaro Ramos oferecem rostos, corpos e emoções a personagens que representam conflitos profundamente humanos.
O resultado é uma obra que merece atenção pela delicadeza de sua construção e pela potência de suas interpretações. Uma história com força para alcançar públicos muito além daqueles que se reconhecerão diretamente na trajetória de Gugu.
Feito Pipa é para quem ama. Para quem já precisou encontrar coragem para ser quem é. Para quem recebeu o amor de uma avó como um presente que nenhuma outra pessoa conseguiria oferecer. Para quem ainda precisa aprender que aceitar alguém também significa permitir que essa pessoa seja feliz à sua maneira.
Feito Pipa é, principalmente, para quem compreende que a vida acontece agora, porque uma das maiores demonstrações de amor é segurar a linha com cuidado, reconhecer a direção do vento e encontrar coragem para deixar quem amamos voar, mesmo quando o céu parece grande demais.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
