Foto: divulgação
Em um futuro no qual as pessoas podem viver eternamente, a morte deixa de ser uma consequência inevitável e passa a ser uma escolha registrada em cartório. Em Cartório das Almas, longa dirigido por Leo Bello, Laura (Gabriela Correa), uma mulher de 126 anos, trabalha no local responsável por registrar os motivos de quem decide abrir mão da vida eterna. Impedida por contrato de fazer a mesma escolha, ela começa a questionar a própria existência ao conhecer as histórias de quem procura o lugar.
A premissa da ficção científica brasileira abre espaço para reflexões sobre a vida, a liberdade e o direito de decidir sobre o próprio destino. Em vez de apostar em grandes acontecimentos, o filme constrói sua narrativa a partir da rotina de Laura, dos encontros no cartório e das mudanças sutis que surgem a cada atendimento.
A fotografia de Pedro Maffei e a direção de arte de Maíra Carvalho transformam espaços cotidianos em um universo distópico, no qual a sensação de estranhamento nasce da familiaridade dos ambientes. Os cenários, as cores e a maneira como os personagens ocupam esses espaços ajudam a construir um mundo em que a longevidade não representa necessariamente uma conquista.
A solidão está presente nos silêncios, nos cenários e nos segundos que parecem demorar mais do que o habitual. Enquanto alguns ambientes reforçam a sensação de aprisionamento, a natureza surge como um espaço de liberdade, criando um contraste importante para a experiência da protagonista.
Gabriela Correa dá vida a Laura, uma mulher que, apesar de seus 126 anos, permanece presa a uma rotina da qual parece não conseguir escapar. A atriz trabalha bem as sutilezas da personagem, transmitindo a preocupação que se acumula ao longo da narrativa, a atenção dedicada a cada pessoa que passa pelo cartório e o cansaço de quem segue cumprindo suas obrigações sem necessariamente encontrar sentido nelas.
Os diálogos contidos e as cenas que parecem se interromper antes de oferecer todas as respostas dão ao longa uma sensibilidade particular. A narrativa exige atenção aos detalhes e nem sempre conduz o espectador por caminhos convencionais. É nesse ritmo que Cartório das Almas encontra espaço para desenvolver suas questões em uma abordagem contemplativa e menos movimentada.
Um dos aspectos mais instigantes do filme está na maneira como a morte é apresentada. Em uma sociedade na qual viver por tempo indeterminado se tornou possível, continuar existindo deixa de ser uma obrigação incontestável. A decisão de interromper a própria longevidade ganha outros significados, para além das concepções habituais sobre o fim da vida.
Essa inversão também aparece na composição visual. O branco, frequentemente associado à paz e à tranquilidade, assume contornos de aprisionamento, enquanto o preto se aproxima da serenidade. O contraste reforça a ideia de que, naquele universo, o fim pode representar uma possibilidade de libertação e até mesmo de felicidade.
Mais do que imaginar uma sociedade capaz de controlar o envelhecimento, Cartório das Almas propõe uma reflexão sobre o que faz alguém querer continuar vivendo. A ficção científica de Leo Bello encontra força nessa pergunta, sem precisar oferecer respostas fáceis. Ao transformar uma decisão existencial em um procedimento burocrático, o filme convida o público a reconsiderar certezas que, fora daquela realidade, costumam parecer inquestionáveis.
Confira o trailer:
O longa estreia em 29 de outubro nos cinemas.

Jornalista apaixonada por boas histórias. Entre filmes, séries, livros e espetáculos, está sempre em busca de narrativas que mereçam ser compartilhadas.
