Foto: Caio Oviedo
Acidente. Tragédia. Mortos. Feridos. Desaparecidos. Vítimas fatais. As palavras chegam todos os dias. Estão na televisão, nas redes sociais, nos portais de notícias, nos vídeos que aparecem entre uma publicação e outra. A gente lê, assiste, comenta e segue.
Até a próxima tragédia e depois a próxima. Em algum momento, o horror virou parte da nossa rotina e é nesse lugar desconfortável que “Proibido para Menores de 18 Anos”, com texto e atuação de Felipe Hintze e direção e texto de Nicolas Ahnert, encontra sua força. A pergunta que atravessa o espetáculo é perturbadora porque não permite uma resposta confortável: o que a exposição contínua à violência faz com a nossa capacidade de sentir?
A peça não quer apenas falar sobre essa banalização, mas fazer o público experimentá-la e provoca horror. Chamar o que acontece durante os 60 minutos de apresentação de horror não é diminuir o espetáculo, mas reconhecer sua potência. O horror também pode ser uma experiência estética: desde a tragédia, a arte encontra no medo, na repulsa e no desconforto maneiras de afetar quem assiste. Aristóteles já pensava o teatro a partir da capacidade de mobilizar emoções como medo e piedade; séculos depois, Julia Kristeva encontraria no abjeto essa estranha relação entre aquilo que nos repele e, ao mesmo tempo, nos fascina. É exatamente nesse território que a peça se instala. Felipe Hintze e Nicolas Ahnert horrorizaram o público para devolver ao horror aquilo que a repetição cotidiana parece ter lhe roubado: a capacidade de nos afetar. Se fora do teatro já conseguimos olhar para mortos, acidentes e tragédias e simplesmente deslizar a tela, ali dentro desviar os olhos volta a ser uma necessidade.
Felipe coloca no texto os elementos que depois terá de enfrentar como ator. Eis uma das potências de escrever aquilo que se vai atuar: ele sabe exatamente até onde pretende levar seu personagem e entra em cena disposto a levá-lo ainda mais longe.
No início, encontramos um trabalhador de lan house aparentemente comum. Um homem que consome notícias sobre tragédias como qualquer outra pessoa. Até pegar um ônibus para a faculdade e presenciar um acidente de carro.
Há um corpo sem vida e ensanguentado. Ele olha e alguma coisa acontece. O impacto que poderia provocar repulsa, medo ou tristeza começa a se transformar em outra coisa. O horror exerce fascínio. A morte desperta uma curiosidade que cresce, contamina e ganha contornos cada vez mais difíceis de explicar.
A partir daí, o espetáculo entra em terrenos que não oferecem qualquer segurança ao espectador e é importante deixar claro que não é qualquer pessoa capaz de compreender todas as camadas que o espetáculo joga para quem assiste. O personagem se torna obcecado pelo homem que morreu, invade suas redes sociais e começa a se aproximar da companheira dele. O contato evolui para uma relação afetiva e, principalmente, sexual. Mas não basta ocupar o espaço deixado pelo morto.
Ele quer ser o morto, quer incorporá-lo e experimentar aquilo que imagina que ele experimentava. Mais do que isso, o protagonista quer reproduzir sensações, provocar dor, provocar medo e encontra prazer nesse deslocamento de identidade em que desejo, violência e morte passam a ocupar o mesmo lugar.
É aí que “Proibido para Menores de 18 Anos” se torna verdadeiramente sufocante e o Teatro Estúdio, por sua característica intimista, potencializa essa sensação. Não existe distância suficiente entre palco e plateia para escapar do que acontece. O horror está perto. Perto demais. É uma peça adulta em todos os sentidos. Tão adulta que os próprios adultos saem atônitos.
Quando é preciso respirar

Felipe não apenas atua. Ele sente em cena para obrigar o público a sentir também. Seu trabalho físico acompanha a deterioração desse homem sem transformar o personagem em uma figura distante ou simplesmente monstruosa e essa é uma das escolhas mais incômodas do espetáculo: antes de tudo aquilo, ele parecia comum.
Essa proximidade torna tudo pior porque seria muito mais fácil assistir ao horror se ele viesse de alguém que pudéssemos identificar imediatamente como um monstro. Mas não vem. Em determinado momento, quando a peça já parece ter retirado quase todo o ar da sala, surge um respiro e o público gargalha de verdade.
A reação é reveladora porque não funciona apenas como humor. É quase uma necessidade física e prova que depois de tanta tensão, é preciso respirar e a peça entende isso, assim como Felipe. O riso não desfaz o horror construído até ali. Pelo contrário: permite que o espectador recupere o fôlego necessário para continuar olhando.
A violência que aprendemos a consumir
O começo do espetáculo é também a chave para compreender seu final. Aquelas notícias sobre acidentes, mortes, feridos e desaparecidos não estão ali apenas para apresentar um ambiente. Elas dizem respeito a nós.
Quantas tragédias consumimos hoje? Quantos vídeos de acidentes apareceram diante dos nossos olhos sem que tivéssemos procurado por eles? Quantas imagens violentas assistimos até o fim? E quantas vezes seguimos rolando a tela segundos depois?
Existe violência enorme na possibilidade de transformar a morte do outro em conteúdo. Mais assustadora ainda é a facilidade com que podemos nos acostumar a ela. “Proibido para Menores de 18 Anos” radicaliza essa discussão ao aproximar violência e erotização. Seu protagonista atravessa uma fronteira extrema, mas o espetáculo não precisa que o público se reconheça literalmente nele, mas que reconheça o mecanismo.
Olhar.
Consumir.
Acostumar-se.
Querer olhar novamente.
É nessa sequência que a provocação deixa o palco e chega à plateia.
Aplausos de socorro
No final da peça, quando as luzes se apagam indicando o fim, os aplausos celebram, ams também parecem pedir socorro. Existe um instante em que o público precisa compreender o que acabou de assistir. Os aplausos carregam agradecimento pelo trabalho de Felipe Hintze, mas também choque, desconforto e uma espécie de alívio por poder finalmente sair daquele universo.
O público deixa o teatro abalado e esse incômodo não é um efeito colateral da peça. É a peça. Felipe Hintze e Nicolas Ahnert constroem experiência que não procura tornar a violência palatável para facilitar sua discussão. Fazem justamente o contrário. Levam o espectador para perto dela até que olhar se torne difícil.
E, quando finalmente devolvem esse espectador para a rua, deixam percepção ainda mais perturbadora: o horror que parecia tão absurdo dentro do teatro está todos os dias na palma da nossa mão. A diferença é que aprendemos a deslizar o dedo e seguir em frente.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
