Nem todo monstro nasce nas sombras, alguns vestem poder, falam com calma e chamam o próprio preconceito de razão.
E é justamente com essas características que nasce um homem inquietante nas mãos de Murilo Benício.
Ferette não precisa se impor pelo volume, mas pela presença. Ele ocupa o espaço com frieza que paralisa, como se cada gesto fosse calculado milimetricamente para manter o mundo ao seu redor sob controle.
O personagem reúne todos os arquétipos clássicos do antagonista: é estratégico, manipulador, poderoso e absolutamente intolerante ao erro, principalmente quando esse erro vem de quem deveria seguir suas regras. Quando algo foge do seu domínio, Ferette não negocia: ele elimina. E Murilo entende que o perigo está justamente na ausência de explosão. Seu olhar firme, a fala precisa e a postura rígida constroem um homem que não precisa levantar a voz para ser temido.
Mas há camada ainda mais perturbadora nessa construção. Ferette não é apenas um vilão de ficção, ele ecoa comportamentos muito reais. O preconceito direcionado à filha, Lorena, ao rejeitar sua sexualidade, revela uma mentalidade estrutural, dolorosamente reconhecível. Na cena em que a expulsa de casa, Murilo conduz tudo com frieza cortante. Não há histeria, não há arrependimento, apenas a convicção cruel de quem acredita estar certo. É uma sequência sufocante, que encontra força justamente na contenção.
Ao mesmo tempo, o ator revela inteligência ao explorar nuances menos óbvias. Em cena com Arminda, de Grazi Massafera, surge sarcasmo quase elegante, humor ácido que quebra a rigidez e amplia a complexidade do personagem. Esse contraste torna Ferette ainda mais perigoso: ele não é linear, não é previsível.
Ferette é um personagem bem escrito por Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva. Mas é Murilo quem o faz pulsar. E pulsar, aqui, significa incomodar, provocar, ferir. Porque alguns vilões a gente esquece. Outros, como Ferette, convivem com a gente.
Foto: Estevam Avellar/Globo




