O primeiro livro de Letícia Borghi nasceu em momento de sobrevivência. O segundo surge de uma autora que já compreende melhor o próprio ofício e decide transformar a literatura em profissão. Entre Nunca Antes no Interior e Iolanda, há mudança de perspectiva que vai além do gênero literário. Se o romance de estreia foi escrito durante a pandemia e em meio à depressão, o novo suspense psicológico representa amadurecimento da escritora, que hoje entende com mais clareza o lugar que deseja ocupar na literatura.
Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Letícia fala sobre seu processo criativo, o fascínio pelas pequenas cidades, a construção de personagens que desafiam julgamentos morais e a escolha de abordar violência, culpa, repressão e obsessão como motores de suas histórias.
Uma escritora que nasceu da necessidade de escrever
Ao olhar para a própria trajetória, Letícia identifica uma transformação significativa entre seus dois livros: “Senti amadurecimento muito grande. Escrevi Nunca Antes durante a pandemia e com depressão avassaladora. Escrever meu primeiro livro (finalmente) foi o que me salvou. Não fui com a intenção de criar um best-seller, e sim de me salvar, no seu sentido mais literal.”
Ela explica que Iolanda marca outro momento da carreira: “Iolanda surge do ‘eu’ entendendo um pouquinho mais do mercado, do processo de escrita e da vontade de ser autora como profissão, além de um hobby.”
O interior continua sendo o cenário das suas histórias
Apesar das diferenças entre os romances, existe elemento que permanece constante em sua literatura: o interior paulista: “Como sou do interior paulista, sempre imaginei coisas acontecendo na minha cidade ou em cidades vizinhas. Além disso, a atmosfera interiorana e a mística de ‘todos se conhecerem’ me fascinam muito em um suspense.”
Ao falar sobre aquilo que considera sua assinatura literária, ela confirma que esse universo continua sendo parte essencial da sua escrita: “Cidade de interior. Tudo o que envolve a rotina, as dificuldades e as coisas boas também. Tenho muito amor e orgulho do interior onde nasci e cresci. Gosto de ouvir as pessoas de outros interiores comparando ou trazendo como é por lá. Além disso, ver pessoas de cidade grande se surpreendendo com coisas daqui me diverte.”
A violência nasce da indignação

Temas como violência, culpa, repressão e obsessão aparecem com frequência em seus livros. Segundo a autora, essa escolha nasce de uma inquietação pessoal: “Esses temas sempre me deixaram muito indignada, e o sentimento de não poder fazer nada me tira o sono. Falar só por falar, ou postar na internet, me parecia que não ia resolver. Então tomei esse tema para escrever meus livros, me expressar e, de alguma forma, tocar as pessoas. Mesmo que seja pelo choque.”
Essa mesma motivação aparece na construção de Iolanda, personagem que atravessa anos de repressão antes de reagir: Muito do que Iolanda vive na trama são histórias que ouvi aqui e acolá. Pessoas que conheci pessoalmente, minha própria história e coisas que vejo nos noticiários que me revoltam e muito.”
Um livro começa com uma pergunta
O processo criativo da autora parte sempre de uma hipótese: “Meu processo começa com uma ideia: ‘E se tivesse um serial killer aqui em Assis?’, ‘E se a assassina fosse uma bela, recatada e do lar?’.”
A partir daí, a história ganha forma: “Faço anotações em um grupo comigo mesma no WhatsApp, compro um caderninho para rascunhos e frases que fixaram na minha cabeça e que quero, de alguma forma, encaixar na história. Estudo muito, ainda mais Iolanda, que se passa na década de 60. Depois separo o que quero que aconteça em cada capítulo para servir de guia.”
Ela reconhece que o processo também inclui pausas: “Claro que no meio do caminho tenho bloqueios, fico um tempo sem nem olhar para a história, desisto e retomo. Mas, no fim, dá tudo certo.”
Personagens que desafiam julgamentos
Ao construir Iolanda, Letícia não buscou criar heroína ou antagonista: “Gosto de pensar que as pessoas não são ‘preto no branco’. Existe seu lado bom, seu lado sofredor e sua maneira de resolver as coisas.”
Segundo ela, a personagem percebe que não conseguirá mudar sua realidade pelos caminhos convencionais: “Iolanda percebeu que não conseguiria o que queria conversando, pedindo ou comprovando sua capacidade e, por isso, fez o que fez. Daí fica a critério e a vivência do leitor enxergar a sua própria Iolanda.”
Essa lógica também aparece na relação entre libertação e violência presente no romance: “Poderia ser uma história de superação, mas queria dar prazer para mim mesma e para os meus leitores, daqueles que temos no nosso íntimo, de ver quem oprime se ferrando com gosto.”
Escrever também exige limites

Entre todas as cenas do livro, uma exigiu cuidado especial: “Pensei duas vezes antes de seguir com uma cena de estupro.”
Ela explica por quê: “Quis incluí-la pois é justamente um tabu falar sobre esse assunto. As pessoas que sofrem precisam se sentir acolhidas para falar sobre, receber sua justiça e superar. Quem não viveu precisa entender a importância de acolher sem julgamentos e auxiliar no que for preciso.”
O mergulho emocional na narrativa também exigiu atenção com a própria saúde: “Durante o processo me mantive em terapia e deixava o livro de lado quando me sentia mal. Apesar de ser uma história inventada, há muita verdade em tudo.”
O sofrimento de Iolanda nasceu de experiências reais
A sensação constante de sufocamento presente no romance foi construída a partir de experiências pessoais: “Eu tinha listado todo o sofrimento que Iolanda viveria na história. Mas também me coloquei em um momento da minha vida muito difícil.”
Ela explica o sentimento que procurou transportar para a personagem: “Muitos de nós temos essa fase em que parece que nada dá certo. Foi justamente esse sentimento de sufoco que escrevi. Como se não houvesse esperança, não importasse o que fizesse.”
Para ambientar a narrativa nos anos 60, Letícia pesquisou acontecimentos históricos, assistiu filmes, leu livros produzidos na época e buscou referências sobre comportamento e psicologia: “O que mais me surpreendeu foi que muitos pensamentos acerca da mulher continuam os mesmíssimos.”
Construir pessoas é mais difícil do que criar mistérios
Embora escreva suspense psicológico, Letícia acredita que o maior desafio não está em elaborar crimes ou enigmas: “Construir personagens coerentes é bem difícil.”
Para ela, a observação das pessoas faz diferença nesse processo: “O segredo é conhecer muitas pessoas para não criar um personagem raso e clichê. Vida social ajuda, acredite se quiser.”
Mesmo planejando previamente o destino dos personagens, a autora admite que a escrita continua aberta às mudanças: “Na grande maioria das vezes, já imagino o que vai acontecer. Mas sempre surge alguma ideia no meio do caminho que eu pondero se devo modificar ou não.”
Literatura para provocar reflexão
Ao final da entrevista, Letícia resume uma das reflexões centrais de Iolanda: “Normalmente o opressor atua ‘por baixo dos panos’ e tem uma postura respeitável perante a sociedade. Quando o oprimido chega ao seu limite e age, é visto como uma pessoa ruim.”
É justamente essa inversão que ela procura discutir em sua literatura: “É difícil, muitas vezes, comprovar que isso se deu por conta de tudo o que ele viveu.”
Em Iolanda, o suspense psicológico deixa de ser apenas uma ferramenta para criar mistério. Ele se transforma em um caminho para discutir culpa, violência, silêncio e as marcas deixadas por anos de opressão, convidando o leitor a questionar não apenas quem cometeu determinado ato, mas também tudo aquilo que levou alguém a chegar até ele.
