Foto: Ricardo Bufolin
O crescimento das produções em formato vertical não está mudando apenas a maneira como o público consome novelas. Também está transformando o trabalho de quem está diante das câmeras. Em “O Acerto de Contas das Gêmeas Trocadas”, nova novelinha Original Globoplay, Gabriel Stauffer interpreta Hugo, herdeiro de uma companhia aérea que acaba envolvido na troca de identidade entre as protagonistas. Mas, para o ator, o maior desafio da produção não estava apenas no personagem. Estava na linguagem.
Em entrevista ao Pittaplay, Gabriel explicou que atuar para obra criada exclusivamente para o celular exige mudanças profundas no ritmo, na construção das cenas e até na forma de respirar durante uma interpretação: “Cada mídia pede seu tipo de atuação. Acho que um bom ator é aquele que sabe dançar conforme a música. Esse formato vertical é novo, as cenas são muito mais curtas, tudo acontece muito rápido e o ator tem que responder com rapidez. Os sentimentos, as intenções e emoções se dão de forma diferente. O tempo muda, a respiração muda, o jogo cênico também. Foi desafio nivelar a intensidade da atuação com esse consumo imediato do espectador no celular. Mas eu gosto de poder transitar por entre essas (e outras) formas de atuar.”
Segundo Gabriel, a própria composição da imagem altera a interpretação. Enquanto cinema e televisão costumam explorar cenários e enquadramentos mais abertos, a tela vertical aproxima o rosto do espectador e desloca boa parte da narrativa para as expressões do ator: “A forma de interpretar no teatro, na televisão, no cinema e, agora, no celular são diferentes. Agora, na tela vertical, quase não vemos cenário, ou ambientação. Toda a trama passa pela fala e pelo rosto do ator, que está tomando a tela inteira. Planos mais fechados, diálogos diretos. Foi desafiador e divertido.”
Embora considere que a linguagem ainda esteja sendo construída no Brasil, Gabriel acredita que a essência do trabalho do ator permanece a mesma, independentemente do formato: “Estamos todos entendendo a melhor forma de fazer. Mas o jogo cênico é sempre o mesmo, estar ali, contando uma história com outros atores. A fé cênica, a escuta, os conflitos se dão da mesma maneira. Claro que numa novela a gente fica nove meses fazendo, numa vertical são duas semanas. Tudo acontece de forma muito rápida. Os tempos de descoberta são mais curtos, temos que ter atenção nelas já nas primeiras leituras.”

Foto: Julia Lego.
Essa velocidade também interfere na construção emocional das cenas. Enquanto o cinema costuma permitir silêncios prolongados e narrativa mais contemplativa, o microdrama precisa condensar emoções em poucos segundos. Outro ponto levantado por Gabriel é o risco de o melodrama perder naturalidade em um formato tão acelerado. Para ele, a única maneira de evitar exageros é manter a verdade das interpretações e construir um trabalho coletivo sólido: “Fazendo com verdade. Contando com um olhar de bom gosto de quem está olhando de fora, jogando com outros bons atores, tendo diálogo amplo e criativo com a direção. Tudo isso conta para um resultado satisfatório. E acho que tivemos tudo isso em O Acerto de Contas.”
Com episódios curtos e consumo pensado para pessoas que muitas vezes assistem durante deslocamentos ou pequenos intervalos da rotina, conquistar a atenção do público logo nos primeiros segundos se torna parte da própria narrativa. “Quem está assistindo geralmente está indo de um ponto a outro da cidade, com outras coisas acontecendo ao redor, tem que ser fisgado antes mesmo de clicar. Por isso, acredito eu, que até os títulos já ‘expliquem’ bastante do que se trata a trama. Quem começa a assistir já está curioso e, em um minuto ou dois, muita coisa pode acontecer. Os ganchos de um capítulo para o outro são sempre bem pensados justamente para dar essa vontade de ver o próximo, e o próximo e o próximo. Gustavo Reiz soube fazer isso com maestria.”
Para o ator, a popularização das novelas verticais representa mais do que um novo formato de distribuição. É também uma oportunidade para que atores descubram novas possibilidades de atuação, adaptando sua linguagem sem abrir mão daquilo que considera essencial em qualquer interpretação: a verdade da cena.
