Lucas Becerra fala sobre ‘Aquilo que eu não disse’ e o poder dos afetos no teatro

Lucas Becerra vive Fernando em Aquilo que eu não disse, espetáculo que transforma silêncios, memórias e afetos em uma experiência intimista construída a partir do universo de Caio Fernando Abreu.

O espetáculo protagonizado por Lucas Becerra e Giovanna Tortorello, Aquilo que eu não disse, abre espaço para que o público encontre a própria história. A montagem que tem dramaturgia e direção de Henrique Sanchez inspirada no universo literário de Caio Fernando Abreu. Em cena, Fernando retorna para casa carregando silêncios, memórias e sentimentos nunca verbalizados, conduzindo uma narrativa sobre identidade, relações familiares e permanência.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Lucas Becerra disse que o encontro com esse universo começou antes mesmo da peça existir: “O que mais me chamou atenção foi perceber como Caio Fernando Abreu constrói suas crônicas de uma forma muito teatral. Ele dá muitos detalhes, cria imagens muito fortes e ajuda a gente a embarcar naquela história.”

O ator conta que conheceu esse material durante o processo de criação de um espetáculo anterior, quando Henrique Sanchez apresentou a crônica Linda, que coisa horrível. O impacto foi imediato.

“Me encantei tanto por aquele universo que comecei a insistir para que ele construísse uma dramaturgia original a partir daquilo, para que pudéssemos falar sobre nossas próprias questões identitárias.”

Esse desejo também encontrou outro caminho importante: “Existia desejo meu de trabalhar com a Giovanna Tortorello, com quem já havia dividido cena em outro espetáculo. Foi um encontro de desejos e essa criação também acabou se tornando uma forma de celebrar os 15 anos do Impacto Agasias Grupo de Teatro.”

Quando o ator também empresta sua própria história

Ao construir Fernando, Lucas percebeu que a personagem não nascia apenas do texto. Ela também carregava experiências vividas por toda a equipe criativa: “O processo foi muito intenso e transformador. Trata-se de equipe criativa 100% formada por pessoas LGBTQIAPN+ contando uma história que também nasce desse lugar.”

Segundo ele, essa característica transformou a criação em um processo coletivo: “Fernando é um homem gay, e as questões que atravessam sua existência inevitavelmente também atravessam as nossas. Nós também emprestamos nossas vivências, nossos medos, nossos afetos e nossas próprias histórias para a construção dessa personagem. Nossa verdade está ali, presente, pulsando em cena.”

Para o ator, esse é um dos maiores privilégios do teatro de grupo: “Construímos obra coletivamente, em que as experiências de vida de cada pessoa acabam deixando marcas profundas naquilo que é contado ao público.”

O legado de Caio Fernando Abreu

Lucas Becerra fala sobre Aquilo que eu não disse, espetáculo protagonizado ao lado de Giovanna Tortorello. O ator aborda a influência de Caio Fernando Abreu, o processo de criação, os afetos e a potência transformadora do teatro.
Lucas Becerra fala sobre Aquilo que eu não disse, espetáculo protagonizado ao lado de Giovanna Tortorello. O ator aborda a influência de Caio Fernando Abreu, o processo de criação, os afetos e a potência transformadora do teatro. Foto: Divulgação.

A influência de Caio Fernando Abreu ultrapassa a adaptação de seu universo literário. Lucas revela existir uma coincidência que sempre o acompanha durante esse trabalho: “Caio morreu em fevereiro de 1996 e eu nasci em março de 1996.”

A partir desse encontro simbólico, surgiu responsabilidade pessoal: “De alguma forma, sinto como se recebesse esse bastão e tivesse a responsabilidade de continuar essa caminhada, de seguir contando histórias sobre nossos afetos, nossas dores, nossos amores e nossas existências.”

Como homem pansexual, ele afirma buscar esse caminho com respeito: “Não me comparando a uma trajetória tão grandiosa, mas entendendo que existe uma estrada aberta por tantas pessoas antes de nós. Como se eu pegasse um bastão arco-íris e seguisse com ele.”

Quando o silêncio também atua

Para criar Fernando, Lucas Becerra desenvolveu uma identidade sensorial para o personagem, utilizando memória olfativa, presença corporal e escuta como ferramentas centrais da atuação. Foto: Divulgação.
Para criar Fernando, Lucas Becerra desenvolveu uma identidade sensorial para o personagem, utilizando memória olfativa, presença corporal e escuta como ferramentas centrais da atuação. Foto: Divulgação.

Ao longo da peça, Fernando nem sempre encontra palavras para expressar seus conflitos. Para Lucas, isso exige um trabalho que vai muito além dos diálogos: “O Fernando é personagem muito grande, muito complexo.”

Ele explica que a escuta passa a ser parte fundamental da atuação: “Muitas vezes, enquanto o outro personagem está dizendo algo, o nosso corpo também está respondendo.”

A montagem acontece em uma casa, para cerca de vinte espectadores por sessão, o que amplia ainda mais essa experiência: “Há momentos que chamamos de suspensão, em que o silêncio fala mais do que a palavra. Antes mesmo de qualquer palavra ser dita, a narrativa já começou.”

Nesse espaço intimista, o ator acredita que tudo comunica: “A arquitetura do espaço, os objetos, o corpo dos atores e a relação construída com o público contam essa história.”

O personagem também tem cheiro

Durante o processo de criação, Lucas desenvolveu um método particular para acessar cada personagem: “Costumo sempre procurar um cheiro para cada personagem.”

Para Fernando, essa memória sensorial foi construída a partir da própria casa onde o espetáculo acontece: “Além de trocar o perfume que uso no meu dia a dia, busquei criar uma identidade olfativa que dialogasse com o universo da casa. Existe naturalmente o cheiro de uma casa mais antiga, de cozinha, de cotidiano, mas eu também acrescento o cheiro de cigarro e de café, elementos que fazem parte da relação entre Fernando e sua mãe.”

Como o público acompanha a peça muito próximo dos atores, esses detalhes também fazem parte da experiência: “É um recurso que me ajuda a entrar nesse estado de presença e amplia a experiência sensorial de quem compartilha aquela história conosco.”

A presença que nenhuma tela reproduz

Lucas Becerra protagoniza Aquilo que eu não disse, espetáculo dirigido por Henrique Sanchez que convida o público a refletir sobre tudo aquilo que permanece guardado quando os afetos deixam de ser verbalizados. Foto: Divulgação.
Lucas Becerra protagoniza Aquilo que eu não disse, espetáculo dirigido por Henrique Sanchez que convida o público a refletir sobre tudo aquilo que permanece guardado quando os afetos deixam de ser verbalizados. Foto: Divulgação.

Com passagens pelo cinema, streaming, teatro e teatro musical, Lucas acredita que cada linguagem possui sua potência. Ainda assim, nenhuma substitui aquilo que o palco oferece: “Costumo dizer que o teatro me salva todas as vezes.”

O ator explica que viver a mesma história nunca significa repeti-la: “No audiovisual gravamos uma cena e ela pode ser reproduzida milhares de vezes da mesma forma. No teatro não. A cada apresentação ela nunca acontece exatamente igual.”

Por isso, cada sessão representa um novo encontro: “Nunca sei exatamente como aquela noite será, mas o nosso compromisso é sempre o mesmo: estar inteiro em cena e fazer com que essa história encontre quem precisa encontrá-la.”

Dizer hoje aquilo que não pode esperar

Para Lucas, a arte continua sendo ferramenta capaz de transformar pessoas: “Ela tem a capacidade de provocar questionamentos, abrir caminhos e permitir que alguém veja o mundo através do olhar do outro.”

Ao final de cada apresentação, porém, existe um desejo ainda mais simples: “Espero que as pessoas saiam do espetáculo mais presentes, mais conectadas consigo mesmas e com as relações que constroem ao longo da vida.”

Depois de viver Fernando, essa reflexão também passou a fazer parte de sua rotina: “Com Aquilo que eu não disse, o nosso desejo é justamente esse: que as pessoas tenham menos medo dos encontros, que se permitam amar, criar vínculos, viver novas relações e estar verdadeiramente no presente.”

Para o ator, essa é a principal mensagem da montagem: “No fim das contas, talvez seja isso que a peça nos lembre: viver tudo o que é possível viver, abraçar mais, estar mais perto de quem amamos e tentar amenizar, enquanto há tempo, a saudade que um dia inevitavelmente vai chegar.”

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