Foto: Sérgio Baia
Conversar com Lucas Queiroga sobre Ciço, de A Nobreza do Amor, rapidamente deixa de ser apenas conversa sobre a novela. A entrevista atravessa a música, a poesia, o Nordeste, a cultura popular e chega a palavra que aparece repetidas vezes durante quase uma hora de conversa: vocação.
Para o ator, a relação vivida entre Ciço e Mundica, personagem de Samantha Jones, representa muito mais do que um novo arco dramático na trama das seis. É a oportunidade de mostrar um personagem que se recusa a aceitar que seu destino já esteja escrito: “Ciço não nasceu para cortar cana. Ele quer descobrir quem é através da música. Tenho muita identificação com isso porque também precisei entender qual era o meu caminho.”
Antes de viver da arte, Lucas formou-se em Engenharia Ambiental, abriu empresa e trabalhou na profissão. O reconhecimento, no entanto, só veio quando decidiu abandonar uma carreira estável para seguir aquilo que realmente fazia sentido: “Achava um ofício lindo, colaborativo, mas não estava no meu coração. Quando me descobri artista e me entreguei para isso, as coisas começaram a acontecer muito rapidamente.”
Segundo ele, essa experiência pessoal acabou encontrando eco no próprio Ciço, personagem que insiste em sonhar quando todos ao redor parecem enxergar apenas o trabalho pesado no engenho: “A arte está aí para provocar. O público precisa ser fisgado pela história e se perguntar: ‘O que isso tem a dizer para mim?’. Ciço tem muita mensagem para passar.”

Foto: Arquivo Pessoal/Lucas Queiroga
O encontro de dois desencontrados
Ao comentar a aproximação entre Ciço e Mundica, Lucas relembra definição feita por um espectador nas redes sociais que nunca mais saiu de sua cabeça: “Alguém escreveu que eles eram ‘o encontro dos desencontrados’. Achei muito bonito.”
Para ele, os dois compartilham algo essencial: carregam perguntas sobre as próprias origens e encontram um no outro a liberdade para sonhar. Foi nesse momento da novela que Lucas sentiu necessidade de mudar sua própria composição: “Quando esse romance surgiu, senti vontade de tirar o chapéu, desconstruir um pouco aquela casca mais cômica e permitir que Ciço sentisse mais.”
A comicidade, explica o ator, nunca foi apenas um recurso para fazer rir. Era também uma forma de sobrevivência: “Ciço é espirituoso porque essa espontaneidade também salva. É criatividade. É sobrevivência.”
Quando o personagem encontra o artista
Não é difícil perceber por que Lucas fala de Ciço com tanta intimidade. Os dois compartilham muito mais do que a paixão pela música. Poeta, compositor e músico, o ator conta que precisou aprender sanfona especialmente para a novela, um dos maiores desafios de sua carreira até agora: “Foi uma grande saga. Nunca tinha tocado sanfona. São praticamente três instrumentos em um.”
Ao mesmo tempo, admite que parte da sua poesia acabou atravessando o personagem: “Meu lado poeta busca espaço dentro do personagem quando cabe um refrão, uma repetição, uma tirada. Essa espontaneidade também vem muito da minha origem.”
Essa troca aconteceu também nos bastidores. Lucas revela que diretores e autores deram liberdade para improvisos e chegaram a adaptar falas ao perceberem sua relação com a poesia nordestina: “Foi maravilhoso trabalhar assim. Quando você solta um pouco a rédea do ator, ele entrega o melhor que tem.”
A alegria também é resistência
Ao longo da entrevista, Lucas retorna diversas vezes à importância de representar a cultura nordestina sem reduzi-la a um estereótipo. Para ele, preservar sotaques, expressões populares e modos de falar também é uma forma de preservar memória: “Nossa linguagem explica quem somos.”
O ator conta que frequentemente sugere pequenas adaptações nas falas para aproximá-las do vocabulário que ouviu dos avós, sempre respeitando a época retratada pela novela: “Estou falando para o Brasil inteiro. Justamente por isso quero mostrar que, dentro desse Brasil, existe gente que fala assim.”
Mais do que representar uma região, Lucas acredita que Ciço ajuda a lembrar que a arte popular sempre existiu muito antes de ganhar reconhecimento nacional: “Em 1920 [ano em que a novela se passa] ainda não existia Luiz Gonzaga. Ciço representa todos aqueles artistas que vieram antes dele e que abriram caminho para quem conseguiu mostrar essa cultura para o país.”

Foto: Arquivo Pessoal/Lucas Queiroga
Um personagem que fala sobre coragem
Quando pergunto como gostaria que Ciço fosse lembrado daqui a alguns anos, Lucas demora pouco para responder. Mais do que o humor ou o romance, espera que permaneça a mensagem: “Quero que as pessoas sintam que seguir o coração é o melhor caminho.”
É essa ideia que também encerra nossa conversa. Sem que eu pedisse, Lucas responde recitando um trecho de sua própria poesia:
“Nunca é tarde. Muito tempo no escuro, é claro que o olho arde. Vá, vá. Que a decisão acalma. Esqueça o brilho do colar, busque o brilho do olhar. Seu melhor look é seu coração e sua alma. Prisão é você não viver sua vocação. Então fuja desse Alcatraz e aprecie a ida sem precisar voltar, sem gradear a vida. Você quer viver ou quer durar? Você quer viver ou quer durar? Você quer viver ou quer durar? Tentar se entender ilumina sua vida. Só vai.”
Esse recorte explica não apenas quem é Lucas Queiroga, mas também por que Ciço emociona tanto. Porque, por trás da sanfona, do humor e do romance, existe alguém que continua acreditando que viver só faz sentido quando se tem coragem de seguir aquilo para o qual se nasceu.
Fotos da novela: Arquivo Pessoal/Lucas Queiroga
Fotos de estúdio: Sérgio Baia
