Foto: divulgação
O fim da escala 6×1 é um debate que mobiliza trabalhadores, parlamentares e sindicatos. E nessa temática, o curta-metragem Me desculpa Nathan propõe mostrar os prejuízos da escala 6×1 para trabalhadores.
Thamires é uma mãe negra, solo e periférica que tenta equilibrar trabalho, sobrevivência e maternidade, pagando um preço alto pela falta de tempo.
Com direção de Kauã Pereira, o curta aposta na naturalidade para atingir o espectador de forma direta, sem abrir mão da sensibilidade.
O Pittaplay conversou com a protagonista Isabele Brum sobre a experiência de interpretar Thamires.
A atriz, que estreia no audiovisual, comenta nunca ter vivido a exaustiva rotina da escala 6×1, mas viver a Thamires a surpreendeu principalmente pela sensação de viver em looping: “Parecia que, durante as gravações, eu não saía nunca do mercado e do trem. E ver as “Thamires” da vida real, trabalhando, voltando pras suas casas, com um corpo exausto, um olhar cansado, também me impactou muito”.
As gravações foram feitas em espaços públicos e supermercados, por isso, Isabele conseguiu ver de perto a rotina de pessoas que não têm tempo para si.
Com insônia durante o período das gravações, Isabele aproveitou a própria experiência para complementar a atuação. “Foi um pouco tenso, minha memória e concentração estavam bem comprometidas. Mas como eu já tinha estudado o texto antes da crise de insônia começar, decidi confiar em mim.”
A atriz afirma que acabou perdendo o medo de errar. “Eu só entreguei pra Deus e senti o momento presente. Digo medo, porque foi minha estreia no audiovisual. Aí aceitei a vulnerabilidade e atuei/vivi lado a lado com ela.”
Isabele comenta que a cena mais marcante para ela é quando Thamires acorda tarde, perde a hora de buscar o filho e ele a questiona: “É um soco no estômago, né? Ouvir uma criança, morrendo de saudade da mãe, perguntando quando ela vai chegar, enquanto essa mãe está exausta por causa do trabalho e mal consegue ver o próprio filho, é triste demais.”

Foto: divulgação
Retratar o sofrimento sem perder a humanidade
Para além da rotina exaustiva de Thamires, Isabele encontrou força para encarar o outro lado da personagem: “Fiquei pensando em quem é a Thamires. Ela é mãe solo, trabalha na escala 6×1, mas é uma mulher, uma mulher negra, uma jovem, que tem seus desejos, seus sonhos. Será que ela precisou interromper os estudos? Será que ela não gosta de sair pra dançar? Será que ela não planeja as férias com o filho? Essa mulher é mais que sofrimento, é afeto, é caminho, é luta, é amor.”
Isabele conta que, de alguma maneira, a sua forma de enxergar o trabalho mudou após viver a personagem. A atriz aprendeu a não se cobrar tanto por não dar conta de tudo.
Quando a arte amplia o debate
O filme está disponível no Youtube e seu alcance ampliou o debate chamando a atenção de personalidades políticas como Erika Hilton. Além disso, nas redes sociais outras personalidades compartilharam o projeto de maneira espontânea: Sonia Guajajara, Leci Brandão, Luiz Antonio Simas e Chico Felitti. Professores por todo o Brasil também têm procurado a equipe para exibir o curta em sala de aula.
Ao ser questionada sobre a repercussão, Isabele relembra a força da arte: “A arte põe fogo, denuncia, abre debates, fomenta discussões e sacode a poeira. ‘Me Desculpa Nathan’ tem uma linguagem simples, está disponível de forma gratuita e isso ajuda a aproximar mais as pessoas da temática. Quero que esse filme possa somar pelo fim na escala 6×1.”
A Thamires representa milhares de mulheres brasileiras e, nesse contexto, Isabele conta o que espera que essas mães sintam: “espero que sintam que existe alguém olhando para elas. Que não estão abandonadas e presas nos seus loopings, sozinhas. Que existe um espaço de escuta e que dá visibilidade a luta delas. É muito ruim chegar no fim do dia e sentir que não tem ninguém pra lutar junto. Acho que o filme chega nesse lugar. Não é um encontro confortável, mas é de escuta.”
Se pudesse resumir “Me Desculpa Nathan” em uma mensagem, a atriz afirma: “O filme é a realidade do Brasil. Realidade das mães solos, das mulheres negras e das trabalhadoras que vivem a escala 6×1. Uma dose de 10 minutos da realidade.”
Em pouco mais de dez minutos, Me Desculpa Nathan transforma um debate político em uma história profundamente humana. O curta evidencia que a discussão sobre a escala 6×1 vai muito além das jornadas de trabalho: trata-se do tempo perdido com a família, do direito ao descanso e da dignidade dos trabalhadores.
Para assistir o curta de maneira gratuita, basta acessar o Youtube.
