Miguel Falabella encontra em Kasper Damatta um personagem que não apenas atravessa a narrativa de Três Graças, ele a tensiona, a distorce e a eleva a um território mais denso.
A obsessão pela escultura deixa de ser um simples recurso dramático e passa a funcionar como vício silencioso, daqueles que corroem por dentro enquanto o mundo ainda parece intacto por fora. E Falabella compreende isso com precisão.
Kasper sabe exatamente o que está fazendo. Ele conhece a misticidade que envolve a estátua, reconhece o rastro de destruição que ela carrega, percebe que está se perdendo e, ainda assim, insiste. Há entrega consciente ao abismo que o ator constrói com camadas muito bem definidas.
Não há exagero, não há descontrole gratuito. Há um homem em conflito permanente consigo mesmo, e isso transparece no olhar, nas pausas, na forma como ele respira cada fala.
O rompimento com João Rubens ganha peso justamente por isso. Existe amor, e não é pouco. É um sentimento sólido, verdadeiro, que torna tudo mais doloroso. Kasper não abandona esse amor por falta dele, mas porque é incapaz de resistir à força que a escultura exerce. É um embate interno que Falabella traduz com maturidade, evitando qualquer caminho fácil. O sofrimento não é dito, ele escapa.
A cena de quinta-feira (26 de março) é mais uma prova disso. Ao conversar com as Três Graças e adormecer aos pés da obra, Kasper atinge estado de completo descontrole. Ali, realidade e obsessão se confundem, e o ator sustenta esse limite com impressionante domínio.
O texto de Aguinaldo Silva, Zé Dassilva e Virgílio Silva é bem amarrado, mas é na interpretação de Miguel que ele ganha corpo e pulsação. Kasper deixa de ser apenas um homem obcecado e se torna alguém consciente da própria ruína e incapaz de detê-la.
Foto: Globo/Victor Pollak




