Lima Duarte aos 96: o ator que ajudou a inventar a televisão brasileira e nunca deixou de engrandecê-la

Lima Duarte completa 96 anos: os papéis que fizeram história na televisão. Foto: Globo

Há artistas que chegam quando tudo já está pronto. Encontram palco, linguagem, público e reconhecimento esperando por eles. Lima Duarte não. Ele nasceu antes de tudo isso existir e ajudou a construir cada uma dessas camadas. Neste 29 de março, ao completar 96 anos, ele não celebra apenas mais um aniversário, ele reafirma um lugar que não pode ser ocupado por mais ninguém: o de quem ajudou a inventar a televisão brasileira.

Nascido Ariclenes Venâncio Martins, no interior de Minas Gerais, Lima começou no rádio fazendo de tudo. Carregava, montava, organizava, sonorizava e, pouco a pouco, passou a dar voz. Antes de ser ator, foi estrutura. Antes de ser reconhecido, foi essencial. E talvez seja justamente por isso que sua atuação nunca parece superficial: ele entende a engrenagem da arte, não apenas o brilho dela.

Quando a televisão brasileira nasceu, Lima não assistiu, ele participou. Esteve ali, no momento em que tudo ainda era tentativa, risco e descoberta. E essa origem moldou sua trajetória inteira. Ele não é fruto da TV. Ele é parte da sua fundação. E entender isso é o primeiro passo para compreender por que Lima Duarte não é apenas um grande ator. Ele é uma referência histórica viva.


O ator que nunca se acomodou e por isso atravessou gerações

Entre a fé e a morte, Lima Duarte construiu um dos personagens mais paradoxais da televisão. Zeca Diabo não era apenas um matador, era um homem em conflito com a própria alma. Foto: Divulgação/Globo

Se existe algo que define Lima Duarte ao longo dessas décadas é sua capacidade de nunca se repetir. Ele nunca aceitou ser reduzido a um tipo, a um estilo ou a uma zona confortável. Cada personagem é um novo território, um novo corpo, uma nova forma de existir. E essa inquietação é o que sustenta sua longevidade artística com tanta potência.

Zeca Diabo, em O Bem-Amado, é talvez um dos primeiros grandes marcos dessa construção. Um matador contratado que não quer matar, um homem de fé preso a uma missão violenta. Lima constrói essa contradição sem didatismo, sem explicações excessivas. Ele deixa que o olhar, a postura e a voz façam o trabalho. E quando percebemos, já acreditamos naquele homem antes mesmo de compreendê-lo por completo.

E é justamente quando o público se acostuma com essa densidade que Lima vira a chave e muda completamente de registro. Ele não se acomoda no sucesso. Ele o usa como impulso para ir além. E é aí que surge um dos personagens mais emblemáticos da história da televisão brasileira.


O exagero que vira linguagem e não caricatura

Sinhozinho Malta, em Roque Santeiro, poderia facilmente cair no exagero vazio. O figurino carregado, os bordões, o poder ostentado em cada gesto, tudo apontava para uma caricatura. Mas Lima Duarte entende algo fundamental: exagero também pode ser precisão. E transforma cada elemento em parte orgânica do personagem.

Ele domina o ritmo, o tempo, o peso de cada fala. O famoso “Tô certo ou tô errado?” não é apenas um bordão, mas extensão do ego, do poder e da teatralidade daquele homem. Lima não interpreta Sinhozinho. Ele o organiza. Ele dá estrutura ao caos. E por isso o personagem atravessa o tempo não como memória, mas como presença viva na cultura popular.

Mas o que realmente impressiona vem depois. Porque, ao invés de repetir a fórmula do sucesso, Lima decide fazer o oposto. E prova que sua grandeza não está no impacto imediato, mas na capacidade de reinventar sua própria forma de atuar.


O silêncio que constrói e emociona

Quando Lima Duarte silencia, o Brasil escuta. Sassá Mutema nasce simples, quase invisível, e cresce diante dos olhos do público com uma verdade que não se força, se constrói. Foto: Divulgação/Globo

Sassá Mutema, em O Salvador da Pátria, é um exercício de depuração. Um homem simples, quase invisível socialmente, que vai se transformando diante dos olhos do público. Aqui, Lima retira tudo o que poderia chamar atenção de forma fácil. Não há excesso, não há espetáculo. Há construção.

Cada gesto é contido, cada palavra parece pensada, cada evolução é sentida com cuidado. Sassá não cresce de forma abrupta. Ele amadurece. E Lima conduz essa trajetória com sensibilidade que poucos atores alcançam. É trabalho que exige paciência, do ator e do público e justamente por isso se torna tão poderoso.

Nesse ponto da carreira, já não há dúvida: Lima Duarte não depende do personagem para brilhar. Ele é quem dá dimensão ao personagem. E quando o tempo avança, ele prova que essa força não diminui , ela se transforma.


O tempo como matéria-prima

Em Da Cor do Pecado, como Afonso Lambertini, Lima trabalha a rigidez de um homem que construiu tudo ao redor, mas falhou internamente. E é no contato com o afeto que ele desmonta essa estrutura. Não de forma brusca, mas gradual, quase imperceptível. Ele deixa que a humanidade surja como quem quebra um gelo antigo, com cuidado e precisão.

Já em Caminho das Índias, com Shankar, Lima atinge um lugar ainda mais complexo: o da atuação sustentada pela presença. Não há necessidade de grandes movimentos. Ele atua com o olhar, com o silêncio, com a escuta. E isso exige um domínio técnico que poucos possuem. É o tipo de interpretação que não se impõe, ela envolve.

Nesta novela de 2009, escrita por Glória Perez, Lima tinha comportamento bem quieto, mas monstruoso. Seu Shankar era construído em camadas, com muitos olhares e no último capítulo uma cena memorável ao lado de Laura Cardoso e Tony Ramos. Foi emoção pura. Coisa que só ator grande sabe fazer.

Em O Outro Lado do Paraíso, como Josafá, ele reafirma outra verdade rara: envelhecer em cena não é perder força, é ganhar profundidade. O personagem carrega dor, amor, dignidade e resistência. E Lima entrega tudo isso sem recorrer a fórmulas. Ele vive. E quando vive, o público acompanha.


Aos 96, ainda em movimento

Em 2024, durante o filme A Fúria. Em cena com Daniel Filho, entrega personagem duro, incômodo, quase sufocante no longa que chegou aos cinemas em 2026. Foto: Divulgação/A Fúria.

A Fúria, que chega ao grande público neste momento em que Lima completa 96 anos, é mais do que um novo trabalho. É uma reafirmação. Salatiel é um personagem duro, desconfortável, carregado de camadas. E Lima não tenta suavizar nada. Ele mergulha.

Há algo quase simbólico em ver um ator com essa trajetória ainda disposto a arriscar. Ainda disposto a tensionar, provocar e incomodar. Ele não atua como quem revisita o passado. Atua como quem ainda tem algo a dizer. E isso, talvez, seja o maior diferencial de sua carreira.

Lima Duarte não virou memória. Ele continua sendo presente. E enquanto ele está em cena, a história continua sendo escrita.


Os números e o que está além deles

São 44 indicações e 29 vitórias ao longo de uma carreira que atravessa décadas. Prêmios importantes, nacionais e internacionais, reconhecimentos em televisão, cinema, direção e trajetória. Uma coleção que, por si só, já impressionaria qualquer artista.

Entre os principais reconhecimentos, estão conquistas no Troféu Imprensa, na APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), no Prêmio Roquette Pinto, além de vitórias em festivais como Gramado, Havana e Brasília. No cinema internacional, recebeu menção em Cannes e indicações em Veneza, enquanto no Brasil foi constantemente celebrado tanto pela televisão quanto pelo cinema. Mais do que uma coleção de troféus, esses prêmios revelam algo maior: o reconhecimento contínuo de um artista que nunca deixou de evoluir e que transformou excelência em rotina.

Mas, no caso de Lima Duarte, os números são apenas um detalhe. Porque o que ele construiu vai além de troféus. Está no imaginário coletivo, nas frases repetidas, nos personagens revisitados, nas emoções que atravessam gerações. Está na memória afetiva de um país inteiro.

Ele não acumulou apenas prêmios. Ele acumulou significado. E isso não se contabiliza — se sente.


O que fica e o que permanece

A presença que atravessa décadas sem perder a força. Lima Duarte não ocupa a cena, ele a transforma. Aos 96 anos, segue sendo sinônimo de entrega, verdade e grandeza na atuação brasileira. Foto: Divulgação/Globo

Chegar aos 96 anos com essa vitalidade artística não é apenas resistência. É compromisso com o ofício. Lima Duarte não atua por hábito. Ele atua por necessidade. Porque entende que estar em cena é uma forma de continuar existindo com intensidade.

Ele não interpreta personagens. Ele constrói vidas. Não entrega performances. Entrega verdade. E talvez seja por isso que falar sobre ele nunca parece suficiente. Sempre falta algo, porque Lima é maior do que qualquer tentativa de síntese.

Neste aniversário, o que celebramos não é apenas um ator. Celebramos uma história que continua acontecendo. Celebramos alguém que ajudou a construir a televisão brasileira e que, até hoje, continua lembrando a todos nós o que significa, de fato, ser ator.

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