Foto: Reprodução/Globoplay
A descoberta da sexualidade de Felipe em Quem Ama Cuida está acontecendo antes no corpo do que nas palavras. Pietro Antonelli entendeu esse caminho e vem construindo o personagem a partir daquilo que Felipe ainda não consegue nomear, mas já sente quando Mau Mau se aproxima. A voz muda, o nervosismo aparece, o olhar demora um pouco mais e o sorriso denuncia uma felicidade cuja origem ele ainda tenta compreender.
Walcyr Carrasco e Claudia Souto conduzem esse arco pela descoberta, permitindo que Felipe experimente cada sentimento antes de encontrar definição para ele. Sua amizade com Mau Mau, interpretado por João Victor Gonçalves, ganhou intimidade aos poucos. Vieram as conversas, as mensagens, a dança, os convites para comer pizza e ir ao cinema, os desabafos e uma vontade cada vez mais evidente de estar perto. Quando um diz ao outro que aquela companhia lhe faz bem, o texto verbaliza somente uma parte do que a cena já vinha contando.
É nesse espaço entre sentir e entender que Pietro encontra seu melhor material de trabalho. Felipe gagueja diante de Mau Mau, demonstra nervosismo e tem pequenas alterações na voz. A composição corporal acompanha esse desconcerto sem antecipar para o personagem uma resposta que o público já começa a perceber. Pietro trabalha com a diferença entre aquilo que Felipe sabe sobre si e aquilo que seu corpo começa a descobrir, fazendo da contracena com João Victor um processo contínuo de reconhecimento.
O abraço entre os dois exibido na sexta-feira (18 de setembro) concentra toda essa construção. Felipe se entrega ao afeto e, durante alguns segundos, parece confortável demais naquele lugar para questioná-lo. O abraço é apertado, demorado e correspondido. Existe felicidade evidente na expressão de Pietro enquanto Felipe permanece junto de Mau Mau.
Até que alguma coisa muda e Pietro altera a expressão durante o próprio abraço e faz caber naquela passagem uma descoberta inteira. Felipe percebe que sentiu algo diferente e imediatamente tenta compreender o que acabou de acontecer. O ator traduz fisicamente aquilo que costuma escapar às palavras quando alguém sente o coração acelerar e as famosas borboletas no estômago pela primeira vez. O rosto registra prazer, surpresa e dúvida quase simultaneamente, como se a consciência demorasse alguns segundos para alcançar aquilo que o corpo já entendeu.
E quantos quases cabem em um segundo? Felipe parece atravessar vários deles naquele abraço. Quase entende. Quase admite. Quase pergunta. Quase permanece ali sem medo do significado daquele conforto. Pietro sustenta esses “quases” sem transformar a descoberta em uma revelação antecipada, respeitando o tempo emocional do personagem.
A conversa posterior com Carol acrescenta outra peça ao arco. Questionado pela irmã sobre a proximidade com Mau Mau, Felipe responde que sabe que o amigo é gay, mas afirma que ele próprio não é. Carol provoca o irmão, diz que está de olho e vai embora. Felipe retorna ao sofá pensativo, acompanhado por um sorriso que contradiz qualquer certeza absoluta naquele momento.
A fala também merece ser entendida dentro do ponto da história em que Felipe se encontra. A novela ainda não definiu como ele compreenderá sua sexualidade. Ele pode descobrir que é gay, bissexual ou encontrar outra forma de se reconhecer. Antecipar esse rótulo retiraria literalmente o que existe de interessante no percurso: Felipe está descobrindo.
Pietro Antonelli aproveita essa indefinição para construir um personagem que pensa enquanto sente. Seu trabalho de contracena com João Victor transforma cada aproximação em avanço dramático porque os dois estabelecem escuta muito afinada. Um olhar encontra resposta no outro, um sorriso modifica a reação seguinte e os abraços carregam informaçcões que o diálogo ainda não pode entregar.
Felipe ainda consegue dizer à irmã que “não é gay” porque as palavras permanecem alguns passos atrás de tudo o que seu corpo vem experimentando. Pietro é inteligente para compreender essa distância com precisão. Enquanto Felipe procura uma explicação, sua interpretação permite que o público acompanhe o sentimento nascendo.
A descoberta está nos quases e Pietro vem fazendo cada um deles aparecer.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
