Foto: Reprodução/Wulff Audiovisual
Existe tentativa de estabelecer regras para a novela vertical enquanto o próprio formato ainda descobre tudo o que pode ser. Capítulos curtos, conflitos acelerados, ganchos constantes e poucos minutos para conquistar um público acostumado a deslizar o dedo pela tela. Pólvora começa entendendo essa linguagem e termina fazendo algo mais interessante: confia tanto na história que está contando que se permite romper com ela.
Produzida pela WULFF Audiovisual e lançada em 24 de agosto, a novela chega ao fim de seus 40 capítulos demonstrando que o audiovisual vertical brasileiro pode crescer sem precisar abandonar dramaturgia, construção de personagens ou cuidado técnico. Pólvora sabe provocar o próximo clique, mas entende que manter alguém assistindo depende de algo maior do que um gancho colocado nos segundos finais.
No centro dessa engrenagem estão Enzo e Gabriel, interpretados por Rone Wulff e Samuel Montemor. Desde o primeiro encontro, os atores estabelecem química que ultrapassa a atração entre os personagens. Existe sintonia na troca de olhares, na ocupação do espaço e na maneira como um reage ao outro. Enzo e Gabriel parecem ter encontrado em Rone e Samuel os corpos necessários para que a relação se torne tão sedutora quanto incômoda.
Quando amor, posse e controle começam a ocupar o mesmo espaço
Pólvora brinca com o público porque transforma nossa relação com Enzo em parte do jogo. Durante os 40 capítulos, é possível odiá-lo, desconfiar dele e, em alguns momentos, procurar compreender de onde surgem suas atitudes. A novela permite essa contradição sem aliviar a responsabilidade do personagem pela violência que provoca.
Rone constrói Enzo a partir de emoções que parecem sempre próximas de transbordar. Ciúme, obsessão, desejo, insegurança e necessidade de controle se misturam até tornar difícil separar aquilo que ele chama de amor daquilo que utiliza para aprisionar Gabriel. Suas atitudes permitem classificá-lo como o vilão da história, mas a interpretação encontra um homem perturbadoramente humano por trás dessa função dramática.
É isso que torna Enzo tão fácil de odiar. Sua violência emocional nasce dentro de sentimentos reconhecíveis e cresce até transformá-los em instrumentos de controle. O microdrama entende que humanizar um personagem abusivo significa compreender sua construção sem absolver aquilo que ele faz.
Gabriel também recebe espaço suficiente para existir além da relação. Samuel constrói um protagonista com razões para permanecer, hesitar e demorar a perceber a dimensão daquilo que vive. Seu arco encontra força na dificuldade de reconhecer como prisão uma relação que também contém sentimentos verdadeiros.
Esse é um dos acertos de Pólvora. Gabriel ama Enzo, e esse amor participa do mecanismo que dificulta sua saída. Aos poucos, a intensidade que poderia ser confundida com paixão revela dependência, posse e medo. Samuel faz o público desejar que Gabriel consiga romper esse ciclo enquanto permite compreender por que sair dele pode ser tão difícil.
Um elenco que sustenta o mundo ao redor de Enzo e Gabriel
A relação dos protagonistas ocupa o centro da novela, mas os personagens secundários ajudam a impedir que a narrativa se feche apenas sobre o casal.
Stella Vandalete encontra alguns dos momentos dramáticos mais fortes da produção. Em cenas que exigem mudanças rápidas de emoção, consegue fazer raiva, frustração e choro coexistirem sem perder o domínio da interpretação. Marcos Nascimento, Duda Bandeira, Jonas Albuquerque, Gabryel Assaf e Jefferson Machado também aproveitam suas entradas e ampliam o universo construído ao redor dos protagonistas.
Essa presença dos personagens secundários é especialmente importante em uma produção vertical. Com pouco tempo disponível em cada capítulo, qualquer personagem que entra em cena precisa cumprir uma função dramática clara. Pólvora administra bem essas aparições e mantém o foco em Enzo e Gabriel sem esvaziar quem circula ao redor deles.
O gancho funciona porque existe história antes dele
A reta final deixa ainda mais evidente o domínio que Pólvora desenvolveu sobre sua própria narrativa. Os capítulos ganham intensidade, as revelações se acumulam e os conflitos chegam ao ponto de explosão esperado desde o início, mas a novela preparou o terreno para que essa catarse tenha peso.
O gancho aqui cumpre sua função mais básica e, ao mesmo tempo, mais difícil: faz querer assistir ao próximo capítulo porque algo construído anteriormente precisa continuar.
Essa diferença importa. A linguagem vertical pode facilmente cair na armadilha de fabricar uma surpresa a cada poucos minutos apenas para impedir que o espectador abandone o vídeo. Pólvora amarra seus ganchos ao desenvolvimento da história e o final de um capítulo desperta curiosidade e os primeiros minutos do seguinte entregam consequência, mantendo a engrenagem funcionando.
O roteiro assinado por Rone Wulff tem responsabilidade direta nisso. Os diálogos acompanham a escalada emocional dos personagens e permitem que informações, conflitos e mudanças na relação sejam incorporados à narrativa sem transformar cada capítulo apenas em preparação para uma virada. E Rone ainda aposta alto, sem medo de arriscar nas pausas dramáticas. É raro nas novidades do vertical encontrar capítulos com pausas tão longas, com momento pro público ver a reação e expressão do personagem diante de algum acontecimento. Rone faz esta jogada de risco no roteiro e reforça na direção. Funcionou.
Rone Wulff assume várias frentes sem perder Enzo pelo caminho
O trabalho de Rone chama atenção também pelo acúmulo de funções, completamente natural em produções independentes. Além de interpretar Enzo, ele assina roteiro e direção e seria fácil uma dessas áreas enfraquecer diante das outras, principalmente porque seu personagem exige presença constante e construção emocional progressivamente mais intensa.
Isso não acontece. Conhecer o roteiro por dentro favorece a maneira como Rone conduz Enzo e, ao mesmo tempo, organiza o universo que existe ao redor dele e é claramente possível notar uma unidade entre aquilo que o personagem sente, a maneira como a cena é conduzida e o ponto em que cada conflito precisa chegar.
Na fotografia e na arte, trabalho que divide com Jonas Albuquerque, Pólvora também demonstra atenção ao suspense que deseja provocar. Cores, contrastes, cenários, figurinos e maquiagem participam da atmosfera. A produção conhece suas possibilidades e trabalha dentro delas com segurança. O resultado visual faz cada escolha parecer pertencente ao mesmo universo.
É possível perceber empenho em cada frame, algo particularmente importante para um formato que muitas vezes ainda precisa enfrentar a ideia equivocada de que vertical significa necessariamente uma produção menor ou tecnicamente menos ambiciosa. Aqui, inclusive, outra jogada bem feita do criador, apostar forte nos cenários e fazendo com que o público se sentisse parte daquele apartamento onde muita coisa acontece, depois do quarto e assim por diante.
Quando a história deixa de obedecer ao relógio
O gesto mais interessante de Pólvora aparece quando a novela decide desafiar uma das convenções que vêm sendo associadas ao formato: a necessidade de manter todos os capítulos abaixo de três minutos.
Os episódios iniciais trabalham próximos dessa duração e conforme o público conhece Enzo, Gabriel e o universo da trama, os capítulos crescem. A reta final abandona a rigidez do cronômetro e o último episódio chega a ultrapassar sete minutos.
Tudo flui porque a duração acompanha a necessidade da dramaturgia e Rone confiou que, depois de dezenas de capítulos, aquela história havia conquistado o direito de pedir mais tempo ao espectador. A aposta encontra resposta em uma reta final na qual os minutos deixam de ser percebidos como obstáculo. A atenção está nas consequências das escolhas de Enzo e Gabriel.
Esse movimento aponta para uma discussão importante sobre o futuro das novelas verticais brasileiras. O formato da tela estabelece uma linguagem, mas não precisa estabelecer sozinho o tamanho de uma história. Se o público permanece porque quer descobrir o que acontece, o tempo passa a responder à dramaturgia.
E Pólvora chega ao capítulo 40 sabendo exatamente disso. Sua cena pós-créditos encerra o arco que precisava ser encerrado enquanto preserva uma ferida capaz de voltar a sangrar. A primeira temporada encontra seu desfecho e, ao mesmo tempo, deixa uma possibilidade irresistível para continuar. Depois de transformar amor em controle, desejo em dependência e paixão em prisão, Enzo e Gabriel ainda carregam consequências demais para desaparecer quando a tela escurece.
Pólvora começou obedecendo às dimensões de uma tela vertical. Quarenta capítulos depois, termina provando que uma história bem construída pode ser muito maior do que ela.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
