Foto: Lilabi Fotografia
Maytê Piragibe começou a trabalhar ainda criança, construiu longa trajetória como atriz na televisão e, com o passar dos anos, ampliou sua atuação para outros espaços do audiovisual. Produção, curadoria e apresentação passaram a fazer parte de uma carreira que hoje permite a ela observar a indústria dos dois lados da câmera. É dessa experiência que nasce defesa recorrente durante sua conversa com o Pittaplay: mulheres precisam participar também das decisões que determinam quais histórias chegam ao público.
A discussão está no centro de Criativas, projeto apresentado e conduzido por Maytê no Canal Like!, dedicado ao protagonismo feminino no audiovisual. Para ela, ocupar a tela representa apenas uma parte de transformação que envolve autoria, liderança e participação nas etapas em que uma produção começa a ganhar forma.
“Tem esse movimento de diversas atrizes, principalmente americanas, mas também britânicas, cansadas nos seus espaços de só correr atrás de bons papéis, ser aprovada, passar no teste, correr atrás de direitos autorais. E aí vem esse movimento de pegar simplesmente a rédea da carreira: qual é a história que eu quero contar?”, afirma.
Da frente das câmeras para a mesa de criação
Maytê acompanhou essa mudança na própria trajetória. Depois de anos trabalhando como atriz contratada, passou a desenvolver projetos e conhecer outras etapas da realização audiovisual. Entre eles está Mise En Scène: A Artesania do Artista, documentário disponível no Globoplay dedicado ao processo criativo dos atores.
Essa experiência também alterou sua percepção sobre aquilo que significa ter poder dentro da indústria. Para Maytê, a transformação acontece quando mulheres conseguem participar das decisões criativas, coordenar áreas, produzir e utilizar o espaço conquistado para abrir oportunidades a outras profissionais.
O movimento exige colaboração em um mercado no qual a falta de investimento frequentemente transforma colegas em concorrentes. Maytê reconhece essa dificuldade sem idealizar o ambiente e defende a construção de redes profissionais capazes de romper essa lógica: “Esteja perto de mulheres e pessoas que, numa mesa de grandes oportunidades, vão citar o seu nome.”
A frase resume uma ideia que acompanha boa parte da entrevista. Conquistar uma cadeira importa, mas Maytê também está interessada no que cada profissional consegue fazer depois de ocupá-la.
“Faltam microfones para essas mulheres”

A televisão brasileira oferece exemplos históricos de mulheres responsáveis por histórias que atravessaram gerações. Durante a conversa, nomes como Janete Clair, Glória Perez, Rosane Svartman e Amora Mautner ajudam a discutir uma contradição que Maytê ainda percebe na indústria: a presença feminina na criação conviveu durante muito tempo com estruturas de liderança predominantemente masculinas.
Para ela, ampliar o reconhecimento passa também pelas condições oferecidas antes que uma obra chegue às premiações. Mais mulheres dirigindo, escrevendo, protagonizando, produzindo e ocupando cargos de decisão aumentam as possibilidades de reconhecimento em todas as etapas seguintes.
Ao falar sobre mulheres que assumem posições de comando, Maytê chama atenção ainda para a maneira como a personalidade feminina pode ser julgada quando vem acompanhada de autoridade. Uma diretora exigente ou uma executiva segura das próprias decisões pode receber classificações diferentes das destinadas a homens que exercem funções semelhantes: “Faltam microfones para essas mulheres e a gente silenciar para ouvir elas e dar aplausos para elas sem julgá-las”, defende.
Envelhecer também virou uma escolha profissional
A conversa sobre espaço feminino chega inevitavelmente à idade. Aos 42 anos, Maytê questiona a pressão estética dirigida às mulheres que trabalham diante das câmeras e conta ter escolhido um caminho distante de procedimentos que paralisem suas expressões: “Não tenho botox, eu não tenho harmonização e eu não tenho nada”, afirma.
A decisão ganha outro significado quando colocada diante de seu trabalho como atriz. Maytê questiona a cobrança por um rosto permanentemente jovem em uma profissão que depende da expressão para comunicar emoções.
Rever novelas do começo da carreira também mudou a forma como observa a própria idade. Ao retornar a trabalhos realizados aos 17, 18 e 20 e poucos anos, percebeu o tamanho da cobrança que colocava sobre si naquele período. Agora, associa envelhecer a maior domínio profissional e à possibilidade de interpretar mulheres com experiências mais complexas.
Essa percepção vem acompanhada de uma cobrança à dramaturgia brasileira. Maytê gostaria de encontrar mais ousadia na maneira como personagens femininas acima dos 40 são escritas, principalmente quando entram em cena desejo, sexualidade e autonomia: “A idade da loba torna muito mais interessante, acho que a gente precisa investigar mais dentro do Brasil, da dramaturgia brasileira. Acho que ainda está um pouco raso. Tem que dar mais ousadia para essa mulher dos seus 40 mais.”
Inteligência artificial exige estudo, segundo Maytê
Enquanto discute transformações profissionais, Maytê também olha para uma tecnologia que começa a interferir diretamente no processo criativo. Sua relação com a inteligência artificial passa pela curiosidade e pelo aprendizado. Ela defende que artistas estudem as ferramentas disponíveis, compreendam suas possibilidades e estejam atentos à proteção da propriedade intelectual. Em sua visão, o avanço tecnológico exige preparação para que o profissional continue tendo domínio sobre aquilo que cria.
Essa defesa convive com uma certeza construída por décadas trabalhando com arte: a experiência coletiva ainda possui uma força própria. O encontro entre público e artistas no teatro, no cinema ou em outras manifestações presenciais permanece ligado a uma dimensão humana que Maytê considera insubstituível.
Quando o algoritmo começa a decidir pela arte
É no fim da entrevista que Maytê direciona sua crítica com maior força à estrutura atual da indústria. Ela diz perceber uma crise criativa e cobra maior autonomia para diretores, roteiristas e demais profissionais responsáveis pela construção artística de uma obra.
Sua preocupação aparece quando decisões passam a responder prioritariamente a números, alcance e algoritmos. Maytê cita inclusive escalações influenciadas pela popularidade nas redes sociais e questiona situações em que profissionais responsáveis pelo investimento interferem diretamente em escolhas que deveriam considerar as necessidades criativas de cada projeto.
A atriz reconhece a importância do retorno financeiro, da distribuição e das estratégias capazes de levar uma produção ao público. Sua crítica está na perda de autonomia de quem conhece a obra por dentro: “Não dá para um executivo, ou acionista, investidor, patrocinador, interferir numa obra criativa por causa de um algoritmo”, afirma.
Pouco depois, quando a conversa chega à transformação da arte em números, Maytê sintetiza sua posição em três palavras: “Não é commodity.”
Depois de uma carreira construída diante das câmeras e ampliada para produção, apresentação e curadoria, Maytê olha para o audiovisual interessada em quem recebe a oportunidade de criar e, principalmente, em quem possui liberdade para transformar uma ideia em obra. Criativas nasce dentro dessa discussão, dando espaço às mulheres que já estão fazendo esse movimento.
Para Maytê, o próximo avanço depende de permitir que mais delas deixem de esperar por uma oportunidade e participem da escolha daquilo que o público verá. Porque estar diante da câmera garante visibilidade. Sentar à mesa onde as histórias começam a ser decididas muda quem também pode contá-las.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
