Alexandre David atravessa “Coração Acelerado” como quem entende que alguns personagens não precisam ocupar o centro da cena para sustentar emocionalmente uma história inteira. Em meio aos conflitos da trama, o ator encontrou em Cláudio um homem que acolhe, escuta e protege, alguém que transforma a casa em abrigo e o afeto em linguagem silenciosa. É justamente nessa delicadeza que ele constrói um dos personagens mais humanos da novela.
Em entrevista à coluna Cena Aberta, do portal Pittaplay, Alexandre falou sobre o processo de construção do personagem, a preparação para o sotaque goiano, o desafio de equilibrar humor e sensibilidade, além das diferenças radicais entre o Cláudio e o detetive Batista, vivido por ele em “Rio Connection”. Ao longo da conversa, o ator também refletiu sobre os 40 anos de carreira, o teatro como espaço sagrado e o desejo de continuar encontrando humanidade através da arte.
“Como qualquer trabalho de dramaturgia, a gente parte do texto”, explica Alexandre ao comentar a criação do Cláudio. Segundo ele, o personagem nasce da escuta e da observação do outro: “Penso primeiro em ouvir os atores e entrar de uma maneira não impositiva, de uma maneira que some para a cena, que eu possa somar alguma informação.”
Nas cenas com Walmir, personagem de Antônio Calloni, Alexandre conta que encontrou um tom quase paternal: “Presto muita atenção no que ele fala para reagir. Tem muito carinho, muita atenção. Vejo que ele é personagem que está um pouco perdido, então tento dar tom mais paternal, de amizade também, de cuidado”.
Esse cuidado aparece até nos pequenos gestos: “Meu personagem sempre oferece refeição para ele, se ele está mal, se ele precisa relaxar”, comenta. E é justamente nesses detalhes cotidianos que Alexandre enxerga a verdadeira função do Cláudio dentro da narrativa: “Cláudio é bem mais do que um cozinheiro”, afirma. “Na verdade, ele é o coração dessa casa mesmo”.
“O homem que transforma a casa em abrigo”

O ator explica que, ao longo da novela, foi percebendo que o personagem ocupa um lugar emocional muito maior do que inicialmente imaginava. “Quando os patrões, o João Raul, a Agrado, ou quando o Walmir, as visitas, têm algum problema, alguma coisa, ele está de olho. Ele quer ajudar, quer acalmar, acarinhar, seja com a comida, seja dizendo que está tudo bem”.
Alexandre define Claudio como espécie de “lugar seguro” para os demais personagens da trama: “A casa sendo guardada por ele serve como um lugar para o público acompanhar onde os personagens podem falar o que pensam sem problema nenhum. Eles sabem que ali é um lugar seguro”.
“O cuidado com o sotaque e a alma de Goiás”
O sotaque também exigiu atenção especial durante a preparação. Mineiro, Alexandre conta que precisou trabalhar nuances específicas da prosódia goiana para não cair em exageros ou caricaturas: “Tivemos aulas de prosódia com a professora Íris Gomes. Como sou mineiro, acaba sendo um sotaque mais próximo, mas tive que alongar mais, pensar num descampado, como é Goiás. Isso afeta também no jeito de falar”, explica.
Para ele, a geografia interfere diretamente na construção humana de quem vive nesses lugares. “Tudo influencia na alma das pessoas que moram nesses lugares. Em Minas ou em Goiás, a geografia é muito importante”.
Alexandre reforça que o trabalho foi feito com extremo respeito: “A gente quer que as pessoas do lugar gostem. Foi feito com muito carinho e muito respeito”.
“Do afeto de Cláudio à violência de Batista”

Se em “Coração Acelerado” Alexandre habita um personagem acolhedor e afetivo, em “Rio Connection” o ator viveu exatamente o oposto: o detetive Batista, marcado pela rigidez e pela violência: “A diferença realmente é o ambiente, o que está em volta”, analisa. “No Rio Connection, não tem momento para brincar. O diretor Mauro Lima passava por mim antes de gravar e falava: ‘Não ria. Esse cara não ri.’”
Ele relembra que Batista foi construído quase pela ausência de leveza: “Você pode ver que não tem momento que eu esteja rindo. Posso dar um sorrisinho leve, irônico, mas não é um cara que deixa as pessoas confortáveis”.
Já Cláudio nasce justamente da ideia oposta. “Ele quer que todo mundo seja feliz, confortável, de barriguinha cheia, relaxado”, define.
Essa diferença também impacta diretamente na energia das cenas: “Batista causa tensão. Quanto mais tensão ele causar nas pessoas, mais poder ele tem. Já o Cláudio recebe, alimenta e conforta”. Conhecido também pelo talento para a comédia, Alexandre vê em Cláudio uma oportunidade diferente de explorar esse humor, agora mais maduro e contido.
“Está sendo legal porque é uma comédia um pouco mais elegante”, comenta. “É um cara da minha idade para cima, então imagino toda uma experiência de vida dele para construir isso”. Ele compara com personagens mais expansivos do passado, como o guarda-costas medroso de Cheias de Charme: “Agora eu sinto que o Cláudio tem um outro jeito de ser e estar em cena”.
Segundo Alexandre, o humor do personagem nasce muito mais da convivência e da observação do que do exagero. “É um equilíbrio entre humor e experiência de vida”.
“Quatro décadas vivendo personagens e defendendo a arte”
Em 2026, Alexandre David completa 40 anos de carreira. Ao olhar para trás, o ator diz que o maior desafio continua sendo permanecer na profissão sem perder a alegria: “O desafio é continuar sendo ator”, afirma. “Não é uma profissão fácil”.
A resposta vira quase uma reflexão íntima sobre arte, resistência e humanidade: “Todo dia é uma estratégia diferente que eu tenho que ter. Construir positividade, fé, alegria no coração”. Alexandre acredita profundamente no poder transformador da arte: “Eu realmente acho que a arte salva almas”, diz. “Ela faz você se encontrar com você mesmo, com a sua alma, com a sua criança interior”.
O teatro como alimento e reencontro

O teatro, aliás, segue ocupando um espaço central nessa trajetória. No segundo semestre, ele retorna aos palcos com “Pequenos Trabalhos para Velhos Palhaços”, espetáculo que considera um dos mais importantes de sua carreira: “É uma peça que fala da profissão do artista”, explica. “Mostra artistas envelhecendo, desempregados, tentando sobreviver”.
O texto, que Alexandre conheceu no Festival de Avignon, na França, acompanha sua trajetória há anos. “Entrei em contato com o autor, Matei Vișniec, e foi a primeira vez que ele foi montado no Brasil”.
O ator afirma que revisitar esse trabalho agora faz ainda mais sentido: “A gente amadureceu junto. Temos um pacto de fazer essa peça até ficar bem velhinhos”. Ao falar sobre a diferença entre teatro e televisão, Alexandre encontra uma definição que talvez resuma toda a sua relação com a profissão.
“O teatro é o alimento do ator”, afirma. Enquanto a televisão exige velocidade e precisão imediata, o palco oferece tempo: “No teatro você aprofunda a obra cada vez mais. Cada apresentação é diferente”. Na TV, segundo ele, tudo acontece num ritmo quase vertiginoso: “Você já tem que chegar pronto”.
Ainda assim, Alexandre valoriza profundamente os encontros proporcionados pela televisão: “Contracenar com Antônio Calloni, ouvir as histórias do Marcos Caruso, trocar ideias com Isabelle Drummond… A TV é um lugar de encontro muito importante”.
E encerra resumindo o sentimento de estar em cena em uma grande produção: “É tipo entrar para a Seleção Brasileira. Tem que entrar preparado e jogar bem”.
