Tem algo estranho e bonito quando o silêncio de uma plateia não é vazio, mas carregado. É quando ninguém se mexe, ninguém reage de imediato, porque ainda está tentando entender o que sentiu. A Hora do Boi nasce exatamente nesse intervalo: no tempo em que o espetáculo termina, mas o impacto ainda não..
Em cena, Vandré Silveira não apenas interpreta um homem, um boi e uma entidade de luz. Ele sustenta, sozinho, um campo de tensão, dor, delicadeza e reflexão que fala sobre os animais, mas também sobre nós, sobre a brutalidade que naturalizamos, o afeto que desprezamos e a urgência de reaprender a olhar para o outro.
Em entrevista à coluna Cena Aberta, o ator falou sobre a temporada do espetáculo em São Paulo, a resposta intensa do público, o processo de composição dos três personagens e o momento simbólico em que vive seus 25 anos de carreira. E, ao longo da conversa, ficou evidente que A Hora do Boi não nasceu como um projeto qualquer. Nasceu como necessidade. Como ferida. Como fé na arte capaz de tocar um ponto vital do ser humano.
Vandré fala que a urgência de contar essa história sempre esteve no centro da criação. Idealizador do argumento do espetáculo, ele concebeu os três personagens: Seu Francisco, Chico Boi e São Francisco, antes de convidar Daniela Pereira de Carvalho para desenvolver a dramaturgia. Mais do que levar ao palco a relação entre um homem e um animal, o desejo era falar do afeto como potência transformadora. Também havia ali uma homenagem íntima a São Francisco de Assis, figura com a qual o ator diz manter forte conexão espiritual e afetiva.

Essa conexão não é abstrata. Ela atravessa a vida prática, a espiritualidade e a sensibilidade do artista. Umbandista, criado em formação católica, tutor de animais e profundamente tocado pela forma como os humanos se colocam no topo de uma hierarquia violenta, Vandré enxerga o espetáculo como reação a esse olhar antropocêntrico que transforma outras espécies em algo menor, subjugado, utilitário. Para ele, há urgência real em perceber que a vida não existe apenas para servir ao homem. Existe em coletivo, em interdependência e, sobretudo, em respeito.
Mas reduzir A Hora do Boi a uma peça “sobre direitos animais” seria pouco. O próprio ator amplia essa leitura ao comentar observação feita por um crítico: o espetáculo também fala de engrenagem capitalista que transforma o animal em proteína e o homem em ferramenta descartável. Nesse sistema, Seu Francisco e o boi Chico são esmagados por estrutura opressora em que só o afeto aparece como possibilidade de salvação. É nesse ponto que a peça sai da denúncia literal e alcança dimensão mais funda: ela trata daquilo que o lucro, a pressa e a brutalidade tentam esmagar todos os dias.
A construção dos personagens de ‘A Hora do Boi’ e o poder do monólogo

Se o tema já é denso, a forma de levá-lo à cena exige ainda mais precisão. Vandré vive três personagens no mesmo espetáculo e rejeita qualquer leitura superficial sobre essa composição. Para ele, não se trata apenas de “trabalho corporal”, como muitas vezes se resume. Trata-se de construção de personagem em toda a sua complexidade: física, vocal, emocional, mental e espiritual. Seu Francisco tem registro marcado pelo peso da vida, da obediência e da dureza do campo. Chico, ao contrário do que seria esperado, surge como um boi poeta, atravessado por sensibilidade, emoção e literatura. Já São Francisco rompe a quarta parede e assume o papel de narrador, como quem conduz o público pela travessia daquela dor.
É bonito perceber como Vandré fala dessa arquitetura cênica sem vaidade e com profunda consciência do ofício. Ele próprio define o trabalho como construção que vai além do físico: “Cada personagem tem uma partitura de pensamento e de coração”, diz.
A expressão ajuda a entender a delicadeza do processo. Não são figuras separadas por truques ou excessos. São presenças que se revelam em pequenos gestos, uma respiração, uma inclinação da coluna, uma mudança de olhar. No espaço intimista do Ágora Teatro, onde a montagem está em cartaz em São Paulo até 26 de abril, essa sutileza ganha ainda mais força. O público vê de perto. E, justamente por isso, sente mais.
Ao falar sobre o desafio do monólogo, Vandré toca num ponto essencial: embora esteja sozinho em cena, ele nunca está só: “Essa troca acontece com o público, e é maravilhoso”, afirma. É com a plateia que o jogo se estabelece, que a energia circula, que a história se completa. Em um teatro pequeno, de apenas 50 lugares, essa relação se intensifica: “A proximidade deixa tudo mais potente”, resume. Para ele, o monólogo não é resistência, mas comunhão: “Estou ali a serviço daquela história, trazendo o espectador junto comigo, no corpo, na mente, no coração e no espírito”.
O teatro como arte do encontro e instrumento de transformação

Talvez por isso sua defesa do teatro soe tão firme. Para Vandré, o palco segue sendo território insubstituível: “O teatro é a arte do presencial. Isso é imbatível”, diz. Em tempos de excesso de telas e dispersão, ele insiste na força do encontro direto, da respiração compartilhada, da energia que atravessa ator e plateia. E é justamente desse encontro que vêm os retornos que mais o tocam: pessoas que saem em silêncio, que precisam de tempo para processar, que continuam pensando dias depois: “Se ficou na cabeça, se provocou alguma reflexão, ele cumpriu a função dele”.
Entrega, emoção e presença: os desafios de Vandré Silveira em cena

Foto: Lorena Zschaber
Essa transformação, no entanto, tem custo emocional alto. Vandré deixa claro que o desgaste de A Hora do Boi não é apenas físico. É íntimo: “Preciso me disponibilizar inteiro, corpo, mente, coração e espírito, para que aquela história me atravesse de verdade”, explica.
Não se trata de representação no sentido frio da palavra. É entrega: “Se não me atravessa, não chega no espectador”. Talvez resida aí a força mais comovente do seu trabalho: ele não se protege da história. Ele entra nela. E, ao entrar, convida o público a fazer o mesmo.
Mesmo quando fala dos imprevistos do palco, o ator revela entendimento bonito do teatro como arte viva. Um branco no texto, uma palavra trocada, um problema técnico, nada disso interrompe a experiência: “Você não pode parar. Você segue. Como na vida”, diz. E é justamente esse risco que mantém o espetáculo pulsando. Tudo pode ser incorporado, reinventado, absorvido pela cena.
25 anos de carreira: Vandré Silveira e a força do teatro em sua trajetória artística

Chegar a esse entendimento tem relação direta com o tempo. Ao completar 25 anos de carreira, Vandré reconhece que o principal ganho da maturidade é a presença: “Hoje, o que importa é estar inteiro, em diálogo com o outro”, afirma. O ator do início, movido pela ansiedade de acertar, já não existe mais. Em seu lugar, há alguém que aprendeu a escutar, a se disponibilizar, a se colocar em comunhão: “Me coloco muito melhor em cena do que na vida”, admite, com honestidade desarmada.
Homem de teatro, como ele próprio se define, Vandré vê no palco sua base artística e pessoal: “O teatro é meu farol, é um caminho de cura e de clareza”, resume. Mesmo atravessando televisão e cinema, nunca deixou de estar em cena. E isso ajuda a entender por que A Hora do Boi carrega tanta verdade: há trabalhos que se fazem com técnica. Outros, com convicção.
A Hora do Boi e a reflexão sobre empatia, violência e humanidade

Ao comentar o mundo contemporâneo, Vandré volta a um tema que atravessa toda a entrevista: a dificuldade crescente de olhar para o outro: “A gente está com muita dificuldade de escutar, de olhar para o outro”, afirma. Ele fala sobre o discurso de ódio, a crueldade banalizada, a falta de empatia que se espalha com naturalidade: “Se a gente faz isso com os nossos semelhantes, imagina com os outros seres que julgamos inferiores”.
É por isso que o espetáculo parte do afeto. Porque o afeto é reconhecível por todos. E, a partir dele, a peça desmonta certezas, expõe contradições e provoca reflexão. Não apenas sobre os animais, mas sobre o próprio comportamento humano: “O que a gente tem feito com as outras espécies é um horror. A gente precisa acordar”.
É nessa chave que A Hora do Boi amplia seu alcance. Não fala apenas de crueldade, mas de machismo, exploração, desumanização. Tudo está ali para lançar luz sobre uma sociedade que insiste em desvalorizar vidas. O espetáculo não pede apenas emoção. Pede consciência.
Quando questionado sobre o que gostaria que permanecesse no público depois da sessão, Vandré responde com simplicidade e precisão: “O amor é a força mais poderosa do universo”.
Próximos projetos de Vandré Silveira no teatro, cinema e audiovisual

Depois da temporada em São Paulo, o espetáculo segue para Belo Horizonte, em agosto. No audiovisual, Vandré também se prepara para novos trabalhos, como Nosso Lar 3 e Emmanuel, onde interpreta Paulo de Tarso. Mas, diante de tudo, fica a sensação de que A Hora do Boi ocupa lugar especial em sua trajetória. Não apenas pelo que representa artisticamente, mas pelo que insiste em lembrar: ainda é possível ser tocado. Ainda é possível mudar.




