Glaura Lacerda faz sua estreia na televisão em Três Graças. Gisleyne não pede licença para existir. Ela tem timing impreciso e humanidade que não se organiza para caber em rótulo. E é por conta disso que o público começa a prestar atenção: quando a comicidade deixa de ser função e passa a ser consequência.
Esse deslocamento não acontece por acaso, tudo é fruto da potência de Glaura em cena e está na base da construção: “O humor sempre esteve presente, claro, mas desde o início eu sentia nela traços muito humanos: vontade de pertencer, necessidade de afeto, ingenuidade, contradições e sensibilidade que aparece em momentos importantes da trama”, afirma.
E quando a atriz aponta para as cenas com Dona Josefa, o que se revela não é apenas cumplicidade dramatúrgica, mas memória compartilhada: “As cenas com Arlete Salles evidenciam isso de forma muito bonita, porque ali existe cumplicidade entre as duas. Muita gente se identifica ou gostaria de ter patroa generosa, acolhedora, como a Dona Josefa, que até divide uma cervejinha. Fico muito feliz ao ler comentários de pessoas lembrando de chefes e patroas legais que tiveram na vida, porque isso mostra como a novela também desperta memórias afetivas”.
Mas a personagem não se sustenta apenas na leveza. Há ruptura e ela é silenciosa. Quando encontra a aliança de Célio e decide levar a notícia à família, Gisleyne reorganiza sua própria lógica: “Foi momento marcante. Mesmo havendo, num primeiro momento, aproximação com certo flerte com o porteiro [Rivaldo, papel de Augusto Madeira], ela sabe separar as coisas quando a situação exige seriedade. Ali, o que aparece é o respeito dela pela dor daquela família e a capacidade de reconhecer a gravidade do momento”. A cena não pede riso. Pede pausa. E ali, a personagem se reposiciona diante do olhar do público: “Talvez, o público vá percebendo essas camadas aos poucos, mas, para mim, elas sempre fizeram parte da construção da personagem”.
Quando o humor deixa de ser função e vira consequência dramática
Essa consciência de camada não vem da televisão, mas do corpo treinado para reagir ao instante. O repertório de teatro e improviso não aparece como recurso visível, mas como estrutura invisível que sustenta a cena: “Conheci técnicas que me ajudam, racional e emocionalmente, a me adaptar às propostas da direção, ao parceiro de cena e ao ritmo da gravação, sempre a serviço da história”. E há uma palavra que guia essa travessia: presença: “Para mim, a construção de personagem passa, sim, por estudo e elaboração de argumentos, mas, no set de filmagem, tudo pode mudar a qualquer momento. O diretor pode propor algo completamente diferente do que você preparou e é aí que a escuta e a presença se tornam fundamentais”.
A lógica é clara: personagem não é rigidez. É resposta: “Se o ator está fechado na própria ideia, fica difícil abrir mão da sua ‘verdade’ para jogar com a cena. O improviso me ensinou justamente isso: renunciar ao controle, estar disponível para o outro e para o instante. No set, muitas vezes, é o improviso que permite que a cena aconteça de forma viva”. E é essa disponibilidade que permite a Gisleyne respirar para além da referência inicial.
Da memória afetiva à autonomia da personagem

Foto: @nanda.araujo.fotografia
Porque a origem é íntima. Mas o resultado já não pertence mais à memória: “Minha mãe foi referência afetiva muito importante, espécie de semente para a Gisleyne, mas nunca molde fechado. É no encontro com o texto, com os parceiros de cena, com a direção e com as circunstâncias da trama, que a personagem passa a responder por si”. E quando isso acontece, algo muda na relação entre atriz e criação: “Daí, vejo a Gisleyne me surpreendendo com caminhos próprios, reações que já são dela e não da referência inicial. Esse é um dos momentos mais bonitos da criação: quando a personagem ganha autonomia e começa a respirar sozinha, apesar de, obviamente, sempre carregar o repertório e referências do artista”.
O erro que aproxima: Gisleyne e a vulnerabilidade da fala
Respirar sozinha implica errar em cena e, no caso de Gisleyne, errar na fala. A ausência de filtro deixa de ser gag e se transforma em espelho: “Acredito que as duas coisas caminham juntas. Esse traço aproxima o público, porque quase todo mundo já viveu algo parecido: falou no impulso, percebeu tarde demais o impacto de uma frase ou saiu de uma situação pensando ‘eu poderia ter dito diferente’”. O riso, então, não nasce da caricatura, mas do reconhecimento: “Gisleyne torna visível, de forma bem-humorada, uma vulnerabilidade muito humana. Ao mesmo tempo, isso revela como comunicação e convivência passam não só pelo que se diz, mas por timing, escuta e sensibilidade ao outro”.
Nova dinâmica em cena: o impacto da entrada no núcleo de Rivaldo

E quando essa personagem começa a circular por outros núcleos, Glaura diz que o efeito é inevitável: novas relações exigem novas respostas. A entrada no entorno de Rivaldo não é virada forçada, mas deslocamento natural: “Vejo como expansão muito orgânica da personagem. A essência da Gisleyne continua a mesma, afetiva, espontânea, imprevisível, mas quando ela passa a circular em outros núcleos e provocar novas reações, a função narrativa naturalmente se amplia e abre mar de possibilidades”.
A pergunta surge dentro da própria narrativa: “Gisleyne vai ficar com o Rivaldo? Há espaço para desenvolver uma relação afetiva entre Alaíde [papel de Juliana Alves], Rivaldo e Gisleyne? Como tudo isso impactaria um tema tão delicado relacionado à criação do filho do porteiro?” E a resposta, curiosamente, não vem como resposta: “Enfim, tudo pode acontecer, inclusive, nada!”
Triângulo amoroso? O jogo que Gisleyne nem percebe que está jogando

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Essa indefinição não enfraquece a personagem, pelo contrário: fortalece. Porque Gisleyne não joga. Ela vive: “Ela não age por malícia nem calcula posições dentro de jogo afetivo. É personagem que se coloca disponível para os encontros e para as possibilidades amorosas, não é à toa que ela tem quatro filhos”. E é exatamente essa ausência de cálculo que pode tornar qualquer triângulo mais instável: “Em reta final de novela, sempre podem surgir movimentações, surpresas e novas dinâmicas. Sobre a possibilidade de triângulo amoroso, diria que não seria nada mal acompanhar isso”. Mas o ponto central permanece: “O que torna tudo mais interessante é justamente o fato de a Gisleyne viver os afetos de forma espontânea, sem enxergar necessariamente o desenho completo do que acontece ao redor, muito menos com má-fé ou intenção de prejudicar alguém. Vamos ver o que o futuro e o desfecho da trama nos reserva. Continuo na torcida”.
Neurociência, comportamento e escolhas que fogem do óbvio
Esse olhar para o comportamento não é intuitivo. É estudado: “O engajamento lúdico na aprendizagem não entra na minha atuação como técnica externa ou adjacente. Foram anos de estudo e desenvolvimento de metodologia que, hoje, é inerente a mim, como ser humano, portanto, atravessa e se manifesta em todas as minhas criações artísticas”. O resultado aparece na escolha. Nunca na explicação: “Gosto da forma que esse estudo amplia a minha observação e a compreensão de que comportamento humano não é simples ou linear. Em cena, isso me ajuda a buscar escolhas menos óbvias e mais verdadeiras”. E é nesse intervalo entre humor e desconforto que a personagem encontra seu território: “Personagens que transitam entre o humor e o desconforto me interessam justamente porque a vida também é assim: muitas vezes a gente ri e se constrange ao mesmo tempo. Dessa forma, os estudos da neurociência complementam a arte que entrego e aprofundam a humanidade que levo para a Gisleyne”.
Repertório de vida: o que não se aprende apenas na técnica

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Essa humanidade não nasce apenas da técnica ou do estudo. Ela vem de percurso e de tudo que não parecia parte do plano: “Cada experiência, por menor que pareça aos olhos de fora, ajuda a formar o profissional e a pessoa que estamos nos tornando”. E há recusa clara em hierarquizar trajetórias: “Nunca acreditei em esperar ‘o momento grande’ para me dedicar de verdade. A construção é diária. Sempre procurei entregar o melhor em cada trabalho, fosse distribuindo folhetos ou fazendo cabeção em festa infantil como se fosse o maior papel do mundo”.
O repertório, então, não se compra, se acumula: “Vejo tudo isso como formação, não como ‘antes de alguma coisa’. Cada trabalho me colocou em contato com pessoas, ritmos, pressões e realidades diferentes. Isso fomenta elementos fundamentais para construir qualquer personagem: amplia a escuta, a empatia, a capacidade de observar o comportamento humano e, principalmente, o seu repertório, o qual não pode ser copiado por ninguém, nem por um super robô de I.A… é só seu”.
E quando esse repertório encontra a técnica, algo se expande: “A técnica sempre será essencial para a construção de uma personagem, claro, mas ela ganha outra profundidade quando encontra a vida real e o seu repertório”.
Visibilidade não é ponto de partida: a atriz que não trata TV como chegada
A chegada à televisão não altera a essência de Glaura, apenas amplia o alcance: “Recebo esse momento com gratidão, mas procuro lembrar sempre que a visibilidade é consequência, não a origem do trabalho”. O eixo permanece no encontro: “A essência da artista que sou foi construída nos palcos, nas salas de aula, no encontro direto com as pessoas. Isso não desaparece quando a exposição aumenta, pelo contrário, com mais pessoas olhando, há mais expectativas e mais responsabilidade sobre o que você representa”.
E há recusa clara em transformar trajetória em escada: “Ainda assim, não vejo o teatro e os meus processos educacionais como ‘escada’ para a televisão, e sim como diferentes formas de exercer minha vocação: servir à arte”. O movimento continua: “Por isso, nunca parei de investir tempo e recursos para fomentar meus projetos no teatro e desenvolvimento humano, consequentemente, assim que acabar a novela, vem mais coisa boa por aí”.
Entre a comédia, o drama e o humano: o futuro que ainda está em construção

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O futuro, aliás, não aparece como plano fechado, aparece como campo aberto: “Mais do que um tipo específico de personagem, me interessa viver personagens que provoquem reflexão, afeto e reconhecimento no público”. E há deslocamento de território em curso: “Às vezes, penso que a comédia sempre foi meu lugar de conforto nos palcos. Portanto, gostaria de explorar minha linguagem de humor também nas telas de cinema, TV e streaming. Acredito que é uma área que jogo com leveza e pode funcionar muito bem no audiovisual”. Mas o desejo não para aí: “No teatro, seria interessante navegar por águas que me elevam e me desafiam como artista, como um drama, com narrativas mais ‘pesadas’ e profundidade psicológica; ou até mesmo um musical. Nesse sentido, pretendo voltar com as aulas de canto e expressão corporal, são ferramentas da arte que eu não aceito ficar muito tempo longe”.
E fora da cena, a construção continua em outro formato, mas com o mesmo princípio: comportamento: “Em relação ao meu trabalho na área de desenvolvimento humano, sigo entusiasmada. A recente atualização da Norma Regulamentadora 1, por exemplo, reforça a obrigação de as empresas olharem para fatores psicossociais e para a saúde mental de seus colaboradores, movimento necessário e alinhado a tendências globais”.
O método encontra o mercado: “Nesse contexto, acredito que a combinação entre arte, neurociência e gamificação (método E.L.A.) vai atender a maior demanda do mercado por ferramentas práticas que apoiam processos de comunicação, liderança e cultura organizacional de forma mais humana e preventiva”.Gisleyne, então, deixa de ser apenas personagem. Vira ponto de encontro entre repertório, escuta e risco. E, enquanto a reta final de Três Graças se aproxima, permanece a pergunta que a própria atriz sustenta sem responder: até onde essa mulher que não calcula vai chegar?
