Na terceira temporada de Os Outros, do Globoplay, Docy Moreira entrega em Domingas uma presença rara: dessas que chegam em silêncio, ocupam a cena e permanecem ecoando mesmo depois do corte final. Ela é, sem dúvidas, uma das grandes surpresas da temporada.
Domingas surge marcada por tragédias, cercada por seus animais e habitando um mundo próprio, onde o afeto ainda encontra abrigo em meio às ruínas. É uma mulher que enterrou sentimentos para seguir respirando. Ao falar sobre o processo de construção, Docy revela que o encontro com essa dor exigiu profundidade real: “Pode ser que no primeiro encontro com essas cenas tenha acessado dores minhas, mas a história da personagem já é o bastante. São muitas tragédias. Foi intenso, pediu aprofundamento das relações entre nós atores”, conta. O resultado dessa entrega aparece em cena: Domingas nunca soa inventada, apenas vivida.
Quando a natureza acolhe o que o mundo rejeita

Se a personagem guarda dureza no olhar, também carrega delicadeza nas mãos. Sua ligação com os animais funciona como refúgio, fé e continuidade. Docy entende essa dimensão como uma resposta ao próprio fracasso humano em se reconhecer parte do mundo natural: “Tenho muita pena de nossa civilização que separou a si mesma da natureza. Essa separação é a segregação que causa toda a incompreensão e intolerâncias que Os Outros aborda tão bem”, afirma. A frase ilumina não apenas Domingas, mas o coração temático da série: a incapacidade de conviver. Tudo isso, graças ao brilhante e potente texto de Lucas Paraizo e da direção artística primorosa que está nas mãos de Luisa Lima.
Para alcançar essa mulher áspera e ferida, a atriz buscou referências em obras que também encaram o desconforto sem filtros. Cita o filme As Bestas e o livro Sobre os Ossos dos Mortos como caminhos criativos: “Na estética, na dureza estética proposta nessas obras. O filme literalmente mostra a aridez das relações e o livro descreve com riqueza.” Não por acaso, Domingas carrega essa mesma aridez: é personagem de terreno seco por fora e tempestade por dentro.
A maternidade vivida por ela também escapa dos retratos simplistas. A relação conturbada com o filho Diego, personagem de Adanilo, é atravessada por abandono emocional, traumas e afetos mal resolvidos. Ao ser questionada se Domingas é fruto da dor ou autora das próprias escolhas, Docy responde com a lucidez de quem compreende a complexidade humana: “Somos criatura ou criadores das circunstâncias que vivemos? As duas alternativas são verdadeiras”. Em poucas palavras, desmonta julgamentos fáceis e devolve humanidade à personagem.
As feridas enterradas que continuam crescendo

Essa humanidade também nasce das dores que ninguém vê. Em Os Outros, Domingas carrega marcas antigas, dessas que o tempo não apaga e a rotina apenas disfarça. Ao refletir sobre o que a personagem revela a respeito das feridas invisíveis que tantas pessoas escondem, Docy responde com uma imagem poderosa e certeira: “Essas feridas podem se tornar sombras e essas sombras são como batatas: quanto mais enterramos, mais crescem”. A frase resume não apenas a trajetória de Domingas, mas a de tantos personagens reais que aprendem a sobreviver escondendo o que mais dói.
A humanidade passa também por dimensão política e identitária. Docy, que reconhece em si raízes indígenas e afro-brasileiras, vê em Domingas uma oportunidade de visibilidade: “Essa conexão com minha ancestralidade é construção diária. E é luta e é resistência. Ter Domingas como vitrine e humanização da nossa luta é mais vida, pra mim e os meus iguais”. A personagem, então, deixa de ser apenas peça dramatúrgica para se tornar presença simbólica de corpos e histórias tantas vezes apagados.
Ancestralidade, arte e futuro

Quando fala sobre espiritualidade no processo criativo, Docy não hesita. Para ela, arte e ritual caminham lado a lado: “Todo processo artístico, pra mim, é ritualístico e intuitivo, porque a criação precisa desse estado de presença e disponibilidade pra desabrochar”. Talvez seja esse o segredo de sua Domingas: uma atuação que não parece construída por técnica isolada, mas por escuta, intuição e entrega total ao invisível que sustenta grandes personagens.
Ao olhar para trás, a atriz aponta A Botocuda como divisor de águas em sua trajetória. Um trabalho autoral que exigiu um ano de processo solitário e revelador. Ao olhar para frente, mantém a fome de transformação que move os grandes artistas: “Aquela personagem que precise que eu dê vida a ela. Que vai me transformar e será transformada ou visibilizada através de mim”. É uma declaração que sintetiza sua carreira: Docy não busca apenas papéis, busca encontros.Enquanto Domingas segue provocando o público em Os Outros, a atriz também prepara novos passos no cinema. Em 23 de abril estreia Um Pai em Apuros, comédia dirigida por Carolina Durão e estrelada por Rafael Infante e Dani Calabresa. Depois, aguarda o lançamento de Vicentina Pede Desculpas, dirigido por Gabriel Martins. Sorte do público. Porque artistas assim não apenas interpretam histórias, ampliam o sentido delas.




