No Solo Inimigo estreia em 30 de abril no Tela Plus com Fernando Bittencourt, Victor Garbossa e grande equipe independente

Entre cortes e ajustes, a cena ganha corpo. Não é só atuação, é construção coletiva. Cada gesto calibrado, cada silêncio pensado. No Solo Inimigo nasce nesse intervalo entre intenção e entrega. Foto: (Divulgação/Equipe No Solo Inimigo)

Existe um ponto em No Solo Inimigo em que a disputa por espaço deixa de ser geográfica e passa a operar no campo da identidade. A série nasce de embrião compartilhado entre Fernando Bittencourt e Victor Garbossa, mas rapidamente ganha densidade ao recusar qualquer leitura simplificada. Política, amizade e origem não se separam. Se atravessam.

“O No Solo Inimigo não é mais sobre um ou outro tema”, afirma Fernando em entrevista ao Cena Aberta, do Pittaplay: “É sobre tudo que esses personagens estão enraizados”. Essa recusa em escolher um eixo único sustenta a espinha dramática da série. Não há concessão, mas sim conflito.

Conflito que nasce na terra e explode na memória

Em No Solo Inimigo, o conflito nasce na superfície, disputa por território, mas ganha densidade à medida que o passado invade o presente. Kaio, líder comunitário que sustenta um centro cultural na periferia de São Paulo, vê o espaço que construiu ameaçado pelo avanço político e imobiliário de Brandão, deputado disposto a apagar aquela história para erguer novo projeto. O embate deixa de ser apenas estrutural quando a memória se impõe: os dois dividem origem, infância e escolhas que seguiram caminhos opostos. A narrativa acompanha essa fricção em três episódios que expõem engrenagens de poder, manipulação de imagem e acordos silenciosos, enquanto Brandão, pressionado por denúncias e pelo próprio passado, se vê encurralado entre sustentar a própria ascensão ou confrontar aquilo que tentou deixar para trás. 

Raiz não se apaga, ela tensiona

A câmera observa, mas também participa. O enquadramento aproxima, pressiona, expõe. Nos bastidores, a tensão já existe antes mesmo do “ação”. É ali que a série começa de verdade.
Foto: (Divulgação/Equipe No Solo Inimigo)
A câmera observa, mas também participa. O enquadramento aproxima, pressiona, expõe. Nos bastidores, a tensão já existe antes mesmo do “ação”. É ali que a série começa de verdade. Foto: (Divulgação/Equipe No Solo Inimigo)

Kaio e Brandão não se enfrentam apenas porque pensam diferente. Se enfrentam porque acreditam. Cada um, à sua maneira, sustenta a própria narrativa como verdade. Essa convicção desloca o conflito de um embate ideológico para um terreno mais instável: o da legitimidade emocional.

Fernando não trata os personagens como polos opostos fechados. Existe espelhamento. Existe desvio: “Eles conseguem ser opostos e ao mesmo tempo reflexos das próprias escolhas e ambientes”, diz.

O território como extensão do corpo

Produção independente exige decisão o tempo todo. Aqui, nada sobra, tudo é escolha. Do espaço ao posicionamento de câmera, cada detalhe revela o caminho que a narrativa decidiu seguir.
Foto: (Divulgação/Equipe No Solo Inimigo)
Produção independente exige decisão o tempo todo. Aqui, nada sobra, tudo é escolha. Do espaço ao posicionamento de câmera, cada detalhe revela o caminho que a narrativa decidiu seguir. Foto: (Divulgação/Equipe No Solo Inimigo)

O título não funciona como metáfora isolada. Ele se desdobra: “Está na terra, no interno e também na ideologia de cada um”, aponta Fernando.

A série parte de dois homens formados na mesma periferia de São Paulo, mas atravessados por experiências que reconfiguram percepção de mundo. Um acessa novos espaços. Outro permanece. Esse desencaixe não gera apenas distanciamento, produz fricção.

A escolha de ambientar a trama na periferia não carrega exotização, mas pertencimento. Fernando vem da Cohab de Carapicuíba. A vivência aparece na textura da narrativa, na recusa ao clichê, na forma como o espaço respira junto com os personagens.

Realidade como limite e matéria-prima

Ao abordar corrupção, manipulação e distorção de narrativa, a série não precisa exagerar. O absurdo já está dado: “É muito fácil ter material para ir para o absurdo”, afirma. Ainda assim, existe controle. A dramaturgia busca coerência para manter vínculo com quem assiste.

Entram elementos contemporâneos que reorganizam o jogo político: uso de inteligência artificial para manipulação de imagem, circulação de fake news, redes sociais como ferramenta de construção de discurso.

A minissérie desse tipo de narrativa costuma deslocar o conflito para telas dentro da tela, celulares, vídeos, recortes, criando camadas de percepção. O que é real deixa de ser pergunta simples.

Limitação como linguagem

Produção independente não aparece como justificativa. Aparece como motor. A ideia inicial previa uma ONG para animais. Orçamento inviabiliza. A mudança para um centro cultural não enfraquece a história, reorganiza o foco e amplia o impacto social da narrativa.

“A dificuldade te força a ser criativo. Durante o processo vimos que seria muito caro, e trabalhoso seguir com a primeira ideia, então tivemos que trocar. Procuramos trabalhar com o básico que podíamos ter e com certa segurança do que seria, poderíamos explorar e criar com mais tranquilidade”, diz Fernando. 

Essa adaptação revela algo essencial: linguagem nasce da condição de produção. O que não pode ser mostrado obriga o roteiro a trabalhar com sugestão, com espaço, com relação entre personagens. Menos aparato, mais tensão.

Entre criar e existir em cena

Fernando divide funções entre idealizador e protagonista. Esse tipo de acúmulo costuma gerar ruído. Aqui, vira exercício de confiança: “Quando entro em cena, preciso mergulhar no imaginário do personagem”, afirma.

Isso exige equipe que sustente o projeto enquanto o criador se ausenta do controle. A presença de nomes como Myllena Oliver, Rafael Vieira e o próprio Garbossa na construção coletiva garante essa sustentação.

A atuação, nesse contexto, tende a operar mais por escuta do que por imposição. O personagem cresce quando o ator deixa de controlar.

Complexidade como motor dramático

Fernando não busca simplificar Kaio. Pelo contrário: “Quanto mais problemático para mim, melhor! Isso traz toda complexidade que o ser humano pode ter. Não somos uma coisa só, não temos um problema só, temos várias camadas, conflitos internos e externos o tempo todo. Isso que é a riqueza da personagem. Ter que lidar com todas essas questões, como o fato do antigo amigo de infância que virou um político canalha; do projeto do prédio que ameaça derrubar o espaço cultural que é uma das suas ferramentas para transformação social; a falta de força nas redes sociais, campo que seu “inimigo” sabe muito bem usar; cansaço de lutar tanto contra um sistema que foi construído justamente para o manter embaixo”.

A soma dessas camadas impede leitura confortável. Cada decisão carrega peso. Cada reação expõe desgaste. Essa construção pede ritmo de edição que respeite o acúmulo, sem pressa para resolver, sem alívio fácil. A tensão precisa permanecer: “Isso tudo que falei é do ponto de vista do Kaio, mas se o público reparar bem quando assistir, todos os personagens são muito complexos e estão lutando contra coisas internas e externas, é difícil, mas é justamente isso que dá vida na tela”, destaca.

Periferia como linguagem, não cenário

A série não observa a periferia. Parte dela. O envolvimento de equipe e elenco com essa vivência cria uma representação que não depende de explicação externa. Não há didatismo. Há reconhecimento: “Motivo de orgulho poder mostrar não só as dificuldades, mas também a beleza e o talento que tem na periferia”, diz Fernando.

Essa escolha impacta diretamente na direção de arte, no figurino, na ocupação dos espaços. Nada soa deslocado. Tudo pertence: “Pude falar com certa propriedade sobre os temas abordados, sabendo até onde mora o clichê ou não. Também contei com várias pessoas do elenco e equipe que também são pessoas periféricas, o que enriqueceu ainda mais a obra em si”, explica.

Resistir ainda é verbo central

O diagnóstico sobre o audiovisual independente no Brasil não suaviza o cenário. Falta formação de público. Falta incentivo desde a base. Falta investimento que alcance pequeno e médio produtor. Enquanto isso, a indústria estrangeira ocupa espaço com facilidade.

“Evoluímos ao longo de toda história, e depois do retrocesso do outro governo, agora que voltamos aos trilhos em alguns quesitos. Mas ainda falta muito para chegarmos em um bom cenário. Os motivos são muitos, mas brevemente falando tudo passa por uma boa educação, desde cedo não somos incentivados a ir ao cinema, ao teatro, e a consumir e valorizar obras Brasileiras, o que ocasiona na falta de formação de público”, conta Fernando.

A palavra final não aponta solução. Aponta permanência: “A concorrência com a indústria estrangeira dentro do nosso próprio país é gigante e a falta de mais investimentos na cultura, faz com que a verba não chegue também nas mãos do pequeno e médio produtor. É um caminho longo, mas resistiremos”.

Estreia que carrega intenção

O território da série não está só no cenário. Está no corpo de quem atua, na troca entre elenco, no ritmo que se constrói no set. A periferia não é pano de fundo, é pulsação.
Foto: (Divulgação/Equipe No Solo Inimigo)
O território da série não está só no cenário. Está no corpo de quem atua, na troca entre elenco, no ritmo que se constrói no set. A periferia não é pano de fundo, é pulsação. Foto: (Divulgação/Equipe No Solo Inimigo)

A série chega ao streaming Tela Plus na quinta-feira, 30 de abril, com expectativa que não se resume a números. Fernando não delimita reação desejada. Não direciona leitura. Abre campo.

“A arte tem esse papel de incomodar, de fazer refletir, de acalentar. Então se sentir algo, desde que seja genuíno, já vai ter valido a pena todo trabalho feito pelos profissionais e artistas envolvidos”, diz Fernando agradecendo à equipe.

São muitos artistas envolvidos. Em ‘No Solo Inimigo’, Fernando pontua Victor Garbossa, como ator, roteirista, idealizador e produtor; Myllena Oliver, como atriz, assistente de direção, produtora executiva e diretora de arte; Rafael Vieira, como diretor de fotografia e editor; além de mencionar o elenco coadjuvante: Hermann Stipp, Márcia Carneiro, Patrícia Nardo, Rud Oliveira.

Fernando também faz menção ao elenco de apoio: Allan Maciel, Bruna Walery, Bruno Satiro, Kauan Pierre, Lucas Felix, Janny Souza, Yasmin Rebouças, Isabela Alcântara e Glauco Marques, bem como aos assistentes de fotografia e câmera: Lucas Felix e Rud Oliveira.

No som, Lucas Felix;na fotografia Still: Bianca Aguiar; na produção, Bruna Walery. A responsável pela maquiagem e figurino é Mariana Souza e a trilha e criação de trilha ficou nas mãos de Lucas Felix.

Por fim, Fernando não deixa de citar os apoiadores: WZ DRONE; Aline e Alice do Nosso Bar; Casa de Cultura de Hip-hop do Jaçanã; NUTZ audiovisual; Restaurante Família Silva; Acervo Naska Regina e FOLHETIM Camisetas, além de falar dos consultores de linguística: Caroline Gonzalez Macedo e Maurício Leite.

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