“Meu alvo sempre será quem odeia o Poema”: Vitor Miranda transforma literatura em confronto em Ódio ao Poema

Em entrevista ao Pittaplay, Vitor Miranda fala sobre violência, poesia, amor e ruptura estética ao transformar o Poema em corpo vulnerável dentro de um mundo que desaprendeu a enxergar beleza.

Há um momento em que Ódio ao Poema deixa de parecer apenas um livro e começa a agir como corpo em combustão. Não existe conforto dentro da escrita de Vitor Miranda. Existe fumaça. Existe sangue acumulado na sarjeta. Existe um poema limpando a privada da Madonna enquanto tenta sobreviver num país que naturalizou a morte antes mesmo de aprender a escutar a beleza.

A poesia criada por Vitor não entra em cena vestida de nobreza intelectual. Ela surge cansada, atravessada pela rua, pela violência urbana, pelas contradições sociais e pela sensação permanente de que o mundo desaprendeu a olhar para o outro. O Poema que habita o livro não é entidade sagrada. É operário. É corpo comum. É alguém tentando respirar no meio do colapso.

“O artista tem esse costume de se achar superior, pensador do mundo. Não só o artista, mas filósofos e outras pessoas de ofícios ligados à intelectualidade. O operário também é pensador”, diz o autor, citando inclusive “Operário em construção”, de Vinicius de Moraes. Em seguida, Vitor desloca completamente o eixo tradicional da poesia: “O poeta é um operário, é a pessoa que virou suco, aquele filme magnífico. O Poema limpa a privada da Madonna, mas o Poema também é capaz de assassinar o patrão, de fugir da polícia”.

A fala não tenta soar provocativa por vaidade estética. Ela sustenta a espinha dorsal de Ódio ao Poema: a poesia não está acima do cotidiano. Está soterrada dentro dele: “Tendemos a dizer que artista é um ser sensível, como se a dona de casa não sentisse a sua dor e a dor dos outros, a dor do mundo sendo bombardeado e das crianças sendo assassinadas. Então, o Poema não faz parte da nobreza, ele faz parte do cotidiano, uma pessoa comum remando contra a maré, desacreditando de tudo, mas sem duvidar da sua fé na beleza”.

O Poema não mora no pedestal

Vitor Miranda posa com “Ódio ao Poema”, livro que transforma a poesia em corpo atravessado pela violência, pelo amor e pelas contradições do mundo contemporâneo. Foto: Arquivo Pessoal
Vitor Miranda posa com “Ódio ao Poema”, livro que transforma a poesia em corpo atravessado pela violência, pelo amor e pelas contradições do mundo contemporâneo. Foto: Arquivo Pessoal

O próprio título do livro funciona como armadilha. Ódio ao Poema parece anunciar rejeição à poesia, mas Vitor desmonta rapidamente essa leitura superficial: “Esse ódio é uma ode à poesia”. O sentimento, segundo ele, nasce como reação direta contra tudo aquilo que violenta a sensibilidade humana.

“O Poema também sente ódio por quem odeia o Poema. É um sentimento humano. É ataque àqueles que odeiam a poesia, no sentido da poesia do mundo, a poesia que há nas crianças, nas árvores, nas cachoeiras, nas pessoas”.

Ao mesmo tempo, existe crítica dura à produção literária contemporânea que transforma qualquer texto quebrado em versos numa tentativa automática de legitimidade poética: “É uma provocação estética da própria poesia que se faz hoje enquanto texto, enquanto poema. Pra gente pensar que escrever poemas é tentar atingir os cosmos, à poesia. Não apenas sair quebrando textos em versos para se dizer poeta”.

Essa tensão entre poesia e brutalidade reaparece num dos versos centrais do livro: “éramos todos poemas antes do ódio”. Quando questionado sobre o momento em que o ódio passa a contaminar a linguagem e a sensibilidade humana, Vitor abandona qualquer abstração confortável.

Ele lembra de uma fala de Chico Buarque no documentário “Um Artista Brasileiro”: “tudo que ele escreveu com raiva não ficou bom”. E então amplia o raciocínio: “Ninguém nasce odiando. Odiar é uma construção social”.

A reflexão imediatamente ganha corpo concreto. Durante a Flipoços, um policial parou diante do estande do autor. Vitor ofereceu um exemplar do livro e perguntou se ele gostava de ler. A resposta veio seca: “odeio! gosto de dar tiro!”. O episódio atravessa a entrevista como um pequeno resumo do país que Ódio ao Poema tenta encarar sem anestesia.

“Eu me senti completamente odiado e odiando aquele sujeito armado pelo estado. ‘Ódio ao poema’ é sobre essa sociedade que prefere matar do que ler um poema”.

A violência que atravessa a linguagem

A partir desse ponto, a conversa deixa de orbitar apenas literatura e passa a mergulhar diretamente na estrutura social que produz violência. Vitor fala sobre a construção cultural do ódio, menciona o sionismo, critica sistemas educacionais que alimentam a desumanização desde a infância e insiste que ninguém nasce violento.

“As pessoas não nascem sionistas, elas vão se tornando nas escolas de Israel, através da cultura desse povo que ensina a odiar. O bebê se torna criança já alimentando o ódio por outra criança. Os meninos estupradores não nasceram estupradores, se tornaram”.

A frase seguinte talvez sintetize toda a lógica do livro: “A poesia é a beleza mais pura. Nascemos poesia antes de tudo”.

Mas Vitor não romantiza esse processo. Ele entende que o próprio ódio se torna consequência inevitável de uma sociedade estruturada pela violência: “O sistema não pode assassinar pais, mães, crianças e desejar que o restante da família cresça sem o sentimento de ódio”.

Essa dimensão política atravessa também as imagens mais dolorosas do livro. A chacina da Candelária aparece como símbolo permanente de um país especializado em esquecer seus mortos. O autor recusa qualquer tentativa de normalização dessa violência.

“Como um flamenguista pode ir ao estádio torcer para o Arrascaeta fazer um gol sabendo que as mortes daqueles jovens do Ninho do Urubu estão impunes?”

A pergunta não busca resposta. Busca desconforto: “Estou citando isso, pois dedico o livro para essas vítimas”. Então a entrevista atinge um dos seus momentos mais brutais: “Outro dia escrevi: se deus existe alguém precisa matá-lo”.

Vitor conecta essa revolta a uma fala de Itamar Assumpção no programa Provocações, de Antonio Abujamra: “Não é possível o cara estar no pau de arara e pedir pra deus te tirar dali, pois ele já te colocou ali”.

Mesmo atravessado por esse desencanto, o autor insiste numa espécie de fé contraditória na literatura: “A persistência do Poema é continuar amando e continuar lembrando a real história dos povos acreditando que um dia o Poema será lido, amado e que transformará as pessoas”.

Tumultuar a literatura burguesa

A estrutura híbrida de Ódio ao Poema nasce exatamente dessa recusa em organizar a experiência humana dentro de formatos previsíveis. O livro mistura poema, prosa, ensaio e manifesto sem pedir autorização para caber em nenhuma categoria.

“Essa forma é inevitável. Nunca gostei de regras. Era um aluno provocador”. A provocação, porém, não aparece apenas como postura estética. Existe crítica frontal à lógica literária tradicional: “Nós precisamos provocar alguma coisa enquanto texto. Tumultuar o rolê dessa literatura burguesa”.

Vitor fala sobre o incômodo diante de uma literatura que repete estruturas, discursos e formatos organizados para agradar mercado e algoritmo: “Todxs dizendo as mesmas coisas da mesma forma”.

“A incapacidade de caber em algo é o que nos liberta enquanto forma estética rítmica e temática”. O autor então revela uma das ideias mais interessantes da entrevista: a tentativa de romper a “monotemática que organiza algoritmos”. Para ele, a vida não funciona compartimentada. “A vida é uma coisa só”.

Nesse sentido, Ódio ao Poema se assume quase como anti-poema. Um ataque contra mercado que perpetua continuidades e transforma até a arte em mecanismo previsível: “Esse novo texto é mais um ato nessa ideia de neomarginalizar os acontecimentos”.

A fala ganha ainda mais força quando Vitor relembra frase escutada dentro de um bar em Paraisópolis: “Certa vez, uma garota olhou nos meus olhos, dentro de um bar na favela de Paraisópolis e disse: ‘os playboy quer colar aqui da onde a gente quer sair’. Aquela garota é o Poema”.

Essa recusa em seguir padrões acompanha o autor desde A moça caminha alada sobre as pedras de Paraty, romance experimental publicado em 2019. O livro chamou atenção de Alice Ruiz, que disse ao escritor: “não sei se é bom, mas é diferente de tudo que tem por aí”.

Vitor lembra do impacto dessa frase quase como quem fala sobre autorização íntima para continuar errando em público. “Ali não me importava se era bom ou não, mas sim se era diferente”.

Ele descreve o romance como experiência construída a partir de poesia concreta, fluxo de consciência e algo que chama de “linguagem imã-gética”, sequência de palavras que se aproximam pela sonoridade para formar imagens narrativas: “Não estou em busca da aceitação, mas de tumultuar as regras”.

Escrever não como resistência, mas como ataque

Existe outro aspecto da entrevista que desmonta certo romantismo comum dentro da literatura independente: a relação entre escrita e venda.

Vitor fala sobre isso sem culpa intelectual: “Sou filho de vendedor de tapetes, irmão de vendedor”. E cita uma frase do escritor Renato Junqueira: “só existe uma profissão no mundo: vendedor”.

“O que precisa vender é o livro e não o texto. O texto precisa ser lido e eu quero ser lido”. O autor entende o escritor independente também como empreendedor:  “Com o livro na mão, uma mochila e minhas palavras eu vendo qualquer livro que escrever”.

A parceria com a Barraco Editorial surge exatamente dentro dessa lógica de circulação viva da literatura. Vitor fala sobre a amizade com o escritor e editor Wesley Barbosa como encontro entre pessoas interessadas não apenas em publicar livros, mas em colocá-los em movimento: “Gostamos de vender livros e fazer o livro circular, ser lido, comentado, divulgado”.

A presença do ensaio de Lucas Guimaraens amplia ainda mais o campo emocional da obra. Vitor fala sobre o poeta mineiro com admiração evidente. Conta que, anos atrás, pediu um prefácio para o livro “Poemas de amor deixados na portaria”. Lucas recusou, mas enviou comentários detalhados sobre os dez primeiros poemas.

“Aquele gesto modificou meu texto poético”. Segundo o autor, foi justamente o ensaio escrito agora para Ódio ao Poema que o fez compreender completamente o próprio livro.

“Quando ele enviou o texto, mais do que uma apresentação do livro, ele enviou esse ensaio profundo trazendo construção da minha obra, da minha trajetória e dissecando o texto do livro, abrindo o corpo do Poema e fazendo a autópsia para dizer que o livro era sobre o amor. Foi aí que entendi sobre o que havia escrito”.

No fim da entrevista, Vitor rejeita até mesmo a ideia da escrita como resistência. Ele prefere confronto: “Eu não gosto de resistir. Eu gosto de atacar”; 

E então encerra com definição que parece resumir toda a pulsação de Ódio ao Poema: “Escrever, para mim, é um ato de diversão. É como tentar vender um livro para um policial. É feito dar um drible, enfiar a bola no meio das pernas, aplicar um chapéuzinho jogando futebol. É feito acordar abraçando meu amor e sorrir junto com ela e gozar ao mesmo tempo. Escrever é erotismo, pulsão de vida e de morte”.

Se escrever for luta, Vitor já decidiu qual posição ocupar dentro dela: “Meu alvo sempre será quem odeia o Poema”.

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