Mariana Bardan e Eduardo Melo fazem de “Cangaço Novo” uma obra viva, aberta ao conflito, à colaboração e ao risco. Conversar com os criadores da série do Prime Video é perceber que a potência da produção nasce justamente da recusa em acomodar personagens, ideias ou até a própria escrita em lugares previsíveis. Parceiros na vida e no trabalho, eles falam sobre o sertão sem folclore, a dor de matar personagens, o caos criativo da rotina a dois e a coragem de sair de um universo violento para uma animação infantil e, depois, para Bruna Surfistinha 2.
A segunda temporada de Cangaço Novo chegou cercada de expectativa, mas Eduardo Melo deixa claro que uma das primeiras preocupações da equipe sempre foi evitar um olhar estrangeiro sobre o sertão.
“Acho que essa foi uma das primeiras preocupações da série e de nós, roteiristas, da direção, da produção, era que a série pudesse ter olhar de dentro e não um olhar estrangeiro”, explica. Para ele, havia desejo muito claro de preservar a dignidade daqueles personagens: “Os personagens têm muita dignidade e toda voz ali dentro não tem que ser julgada pela sua origem, pelo que ela conquistou ou não conquistou”.
Eduardo ainda comenta que a relação da série com o Nordeste também passa por algo maior: um reconhecimento dos interiores brasileiros como espaços complexos, vivos e humanos: “Tenho relação forte com o Nordeste, sou filho de nordestinos, pai cearense, mãe baiana, mas para além do que estava só no Nordeste, tinha algo que conectava todos os interiores do Brasil”.
Um sertão visto de dentro

Mariana Bardan explica que a série nasceu de uma inquietação criativa da dupla: encontrar uma narrativa que ainda não tinham visto representada na televisão brasileira: “Quando começamos a criar, a gente queria muito uma história que nunca tínhamos visto e que pudéssemos contar”.
Ela fala também sobre o desejo de mostrar pessoas reais, distantes da caricatura frequentemente associada ao interior no audiovisual brasileiro: “Existe desejo muito forte de querer mostrar as pessoas que você vê na rua, que você conhece, a inteligência daquelas pessoas que universidade nenhuma vai te dar”.
Esse cuidado aparece não apenas na ambientação, mas também na maneira como os personagens lidam com seus próprios traumas. Ao comentar a construção de Dinorah (Alice Carvalho) e Dilvânia (Thainá Duarte), personagens atravessadas pelo mesmo abuso, mas transformadas por ele de formas completamente distintas, Mariana rejeita qualquer leitura simplista sobre dor.
“Me incomoda muito esse lugar de ‘ai, coitadinha’. Não é assim que a coisa toca”, afirma. “Não é porque você sofreu um trauma que você é desta forma”, complementa a autora.
Eduardo completa dizendo que, além da dimensão emocional, havia preocupação dramatúrgica em torná-las radicalmente diferentes: “Foi oportunidade maravilhosa de ter uma personagem que não fala, mas que se comunica enormemente, e outra personagem que, se ela atravessar uma parede, você acredita que ela atravessou”.
O processo criativo da dupla também funciona nessa lógica de colisão. Eles discordam, debatem e transformam o conflito em ferramenta narrativa. Mariana admite que separar vida pessoal e trabalho é praticamente impossível.
“Não conseguimos”, responde, rindo. “Às vezes você sai do local de trabalho para ver se ajuda, mas o problema fica no fundo da cabeça o tempo inteiro. Quando você está sozinho, você lembra da situação, tem uma ideia, anota… Mas, no nosso caso, temos um ao outro, então compartilhamos a ideia, discordamos e tentamos chegar numa conclusão feliz para os dois”.
Eduardo confirma que não tenta frear o próprio processo criativo: “Eu tô a toda hora realmente criando”. Ele conta que possui arquivos inteiros de anotações e ideias futuras, enquanto Mariana brinca sobre os limites da convivência criativa: “Tem hora que a Mari fala: ‘Edu, obrigada, estou jantando’”, conta bem humorado.
Esse embate criativo moldou cenas importantes de Cangaço Novo. Mariana relembra discussão específica envolvendo Ubaldo Vaqueiro (Allan Souza Lima), na primeira temporada. Eduardo defendia que o personagem explodisse emocionalmente numa cena do terceiro episódio. Ela não acreditava que aquilo funcionaria.
“O Edu subiu na mesa e incorporou o próprio Ubaldo Vaqueiro”, conta. “Depois da performance dele, eu falei: ‘Agora eu acredito.’”
Já Eduardo lembra de derrota criativa que ainda dói: “Eu fui contra a morte de Sabiá”. Mariana interrompe e entrega o veredito da sala de roteiro: “E eu fui a favor”. “Acabaram com o meu coração”, completa Eduardo.
O ator precisa ter palco para brilhar

Outro ponto que os dois fazem questão de destacar é o espaço dado para colaboração entre direção, elenco e equipe técnica. Eles explicam que o roteiro nunca chega como algo fechado: “A gente mostra a ponta do iceberg”, explica Mariana ao falar da escrita de cenas emocionais. “Depois o restante é feito por preparação de elenco, direção, atuação e câmera”.
Eduardo reforça que os atores possuem liberdade para transformar aquilo que foi escrito: “O ator viveu a cena. Então ele tem um termômetro emocional que nos diz muita coisa”.
Ao falar do elenco, Eduardo se emociona ao lembrar da entrada de Marcélia Cartaxo e Luiz Carlos Vasconcellos na produção: “Eu chorei quando descobri que iria escrever para os dois especificamente”. Para ele, o roteiro precisa criar condições para que o ator brilhe: “O roteiro tem que dar para o ator o palco. E lá no palco a gente quer vê-los brilhando”.
Mariana diz que assistir às interpretações também é uma experiência de surpresa constante: “Às vezes sai exatamente como imaginei. E às vezes sai completamente diferente e muito melhor”.
Com o sucesso da primeira temporada, veio também o peso da continuação. Mariana admite que a segunda temporada começou com medo: “Eu passo por momento de desespero profundo”, confessa. “Acho que não vai dar pé, que não vai dar certo”.
Mas ela explica que o caminho para atravessar esse medo sempre volta para o mesmo lugar: contar a história que eles desejam contar: “Depois, sento na cadeira e penso: vai com medo mesmo”.
Eduardo, por outro lado, abraçou rapidamente o caos criativo da nova temporada: “Cangaço tem essa liberdade do exagero, de acelerar”. Ele conta que as primeiras leituras dos roteiros já provocavam reações fortes dentro da equipe. “Às vezes as pessoas liam e falavam: ‘Vocês vão fazer isso mesmo?’”
A resposta deles era simples: “Tem algum problema aqui?”. E assim a equipe confiava na construção que os autores davam aos personagens e nos rumos que a história tomavam. Antes de mais nada, Cangaço Novo é um trabalho em equipe.
Do cangaço à tartaruga aventureira

Além de Cangaço Novo, Mariana e Eduardo também estão envolvidos em projetos completamente diferentes entre si. Entre eles, Bruna Surfistinha 2 e uma animação infantil pré-escolar protagonizada por uma tartaruga aventureira, que terá exibição inicial na TV Cultura.
Para Mariana, a mudança de gênero funciona quase como necessidade emocional: “Chega uma hora que cansa emocionalmente matar pessoas”, brinca. “Eu falava muito para o Edu: ‘Eu queria tanto um filme que ninguém morre’”.
Já Eduardo conta que o convite para escrever Bruna Surfistinha 2 mexeu diretamente com ele como espectador: “Foi o encontro do Eduardo espectador com o Eduardo roteirista”.
Ele lembra do impacto que o primeiro filme teve em sua visão sobre o cinema nacional: “Eu assisti Bruna e falei: ‘Olha aí um filme nacional divertido, legal, sem aquela obrigação do drama social’”.
Os dois admitem que existe atração natural pelo desafio: “Nunca fiz, quero fazer. Quero me testar nesse lugar”, resume Mariana.
Já sobre uma possível terceira temporada de Cangaço Novo, os dois evitam promessas, mas deixam escapar o desejo, com muito bom humor: “Vontade, intenção e ideias a gente tem muitas, mas ainda não tem nada definido”.

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