Teatro: Hugo Bonèmer fala sobre os abismos de ‘O Talentoso Ripley’: “Espero que não fique nada dele em mim”

Na reta final de O Talentoso Ripley, espetáculo que encerra temporada no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, em 31 de maio, Hugo Bonèmer parece menos interessado em falar sobre sucesso e mais disposto a desmontar as próprias estruturas emocionais. Ao longo da conversa com a coluna Cena Aberta, do Pittaplay, o ator, diretor e produtor mergulha em temas que atravessam a peça de forma quase desconfortável: carência, validação, violência, hipersensibilidade, controle e o quanto um personagem pode deixar marcas físicas em quem o interpreta.

Inspirado na obra de Patricia Highsmith e baseado na adaptação teatral de Phyllis Nagy, O Talentoso Ripley acompanha Tom Ripley, homem obcecado por pertencimento e ascensão social que transforma admiração em manipulação, paranoia e violência. Mas, para Bonèmer, o personagem nunca foi apenas um “vilão”. O interesse sempre esteve em investigar o que existe antes do abismo.

“Na atuação estamos protegidos pelo acordo moral entre artista e público, onde eu conto uma verdade por meio de uma mentira e o público concorda em acreditar. O artista não pode nunca se perder dessa camada protetora que separa a profissão da sua própria vida”, afirma.

“O corpo sente antes da mente admitir”

Entre paranoia, desejo de pertencimento e violência emocional, Hugo Bonèmer conduz Tom Ripley em uma das adaptações mais intensas do personagem para o teatro brasileiro.
Foto: Roberto Carneiro
Entre paranoia, desejo de pertencimento e violência emocional, Hugo Bonèmer conduz Tom Ripley em uma das adaptações mais intensas do personagem para o teatro brasileiro. Foto: Roberto Carneiro

Ao falar sobre os impactos emocionais do processo, Hugo não romantiza o mergulho psicológico exigido pela peça. Pelo contrário. Ele detalha, sem blindagens, como o corpo reage aos estados emocionais que atravessam o palco.

“Visitar esses lugares no palco e perceber que todos temos coisas parecidas me traz resiliência. A parte mais difícil tem sido as dores físicas que os sentimentos me causam. Por exemplo, um refluxo violento, um formigamento no braço esquerdo e um inchaço na palma das mãos. Toda essa questão é psicológica e eu trato isso com carga igual de pensamentos bons, inversos aos que me habitam na peça”.

“Quem sabe onde mora seu diabo”

Hugo Bonèmer durante apresentação de O Talentoso Ripley, espetáculo inspirado na obra de Patricia Highsmith e baseado na adaptação teatral de Phyllis Nagy.
Foto: Roberto Carneiro
Hugo Bonèmer durante apresentação de O Talentoso Ripley, espetáculo inspirado na obra de Patricia Highsmith e baseado na adaptação teatral de Phyllis Nagy. Foto: Roberto Carneiro

Talvez a resposta mais brutalmente honesta da entrevista venha quando o ator é questionado sobre pertencimento e a necessidade de aceitação, sentimento central na trajetória de Tom Ripley. Hugo não recorre a discursos romantizados sobre arte. Responde olhando diretamente para as próprias fragilidades.

“Se eu não fosse extremamente carente de atenção e validação, desejando profundamente que todos gostem de mim, não teria perseguido essa profissão, mas eu falo por mim. Talvez outros atores não sejam assim. Me aceito dessa forma e olho para mim mesmo com certo deboche. Quem sabe onde mora seu diabo, consegue domesticá-lo”.

“Aprender a existir observando os outros”

Em O Talentoso Ripley, Hugo Bonèmer mergulha nos conflitos psicológicos de um dos personagens mais complexos da literatura contemporânea.
Foto: Roberto Carneiro
Em O Talentoso Ripley, Hugo Bonèmer mergulha nos conflitos psicológicos de um dos personagens mais complexos da literatura contemporânea. Foto: Roberto Carneiro

Essa percepção também atravessa sua relação com o mundo e com a própria observação humana que alimenta seu trabalho artístico. Para ele, existe um tipo específico de artista que aprende primeiro observando os outros existirem: “Observo o comportamento de fora, desde que nasci, como se precisasse observar para aprender a ser humano, aprender a socializar, aprender a fazer como os outros. E dessa observação, desse treinamento que nasceu a aptidão para fazer isso em cena. Percebo hoje que tem gente que desde sempre só é; só existe, sem precisar observar e treinar tanto”.

Durante a construção do espetáculo, uma das questões que mais o desestabilizou foi perceber a misoginia presente em Tom Ripley nesta versão da obra. Hugo conta que inicialmente resistiu à ideia de associar a possível homossexualidade do personagem à violência que ele exerce contra mulheres.

“Desejei por anos ver a dramaturgia de homossexuais imaculados e ilibados, ou ‘sem defeitos’, como se diria hoje. Mas o Tom é antes de tudo um psicopata e isso em nada tem a ver com a possível afetividade dele. Existem muitos homens que, mesmo não sendo psicopatas, são extremamente violentos com as mulheres, e nós precisamos mostrar como isso acontece”.

Além de protagonizar a peça, Bonèmer também assina direção, produção e cenografia. Ainda assim, rejeita a ideia de um processo centralizado apenas nele. Ao falar dos bastidores, faz questão de detalhar como a construção coletiva foi essencial para impedir que o excesso de controle engolisse a criação.

Ele cita parceiros criativos como Joe Nicolai, Sergio Medina, Tauã de Lorena, Laura Gabriela, Guilherme Dias Goulart, Renato Machado e a co-diretora Kamilla Rufino como peças fundamentais da engrenagem estética e emocional do espetáculo. Entre as descobertas surgidas desse processo, está a percepção da neurodivergência de Tom Ripley e sua relação com a própria hipersensibilidade auditiva do ator.

“A crueldade como válvula de escape”

Sucesso de público no Rio de Janeiro, O Talentoso Ripley marca a despedida de Hugo Bonèmer do personagem após duas temporadas nos palcos cariocas.
Foto: Roberto Carneiro
Sucesso de público no Rio de Janeiro, O Talentoso Ripley marca a despedida de Hugo Bonèmer do personagem após duas temporadas nos palcos cariocas. Foto: Roberto Carneiro

“Escrevi isso tudo pra te dizer que eu não estava sozinho. Eu só fiz mais algumas funções, além de tudo que os outros fizeram”. Ao refletir sobre o suspense e o terror psicológico no teatro brasileiro, Hugo defende que o gênero funciona quase como uma válvula emocional coletiva. E é nesse momento que a entrevista ganha um dos seus comentários mais provocativos.

“O público tem sede de expressar sua crueldade por meio da cena. Isso é nítido na cena de plateia em que pergunto como eles desovariam um corpo de alguém que acabaram de matar. A resposta vem sempre sem hesitação. O teatro é como viver, mas sem o compromisso”.

“O que fica depois de Tom Ripley?”

Para ele, discutir “loucura e ganância em tempos de rede social” tornou-se urgente. Ainda assim, apesar do impacto do personagem, o ator admite que espera não carregar Tom Ripley para além da temporada: “Tom Ripley é personagem do hall dos malditos da literatura. Espero que não fique nada dele em mim. Emprestei muito de mim pra ele e ele não precisa nem me devolver”.

Após o encerramento da peça, Hugo afirma que continua em busca do próximo projeto, mas destaca que o monólogo Uma Casa para Celeste permanece entre suas prioridades artísticas. Já sobre a segunda temporada de Amor da Minha Vida, do Disney+, ele adianta que seu personagem chegará como uma força de pressão dentro da narrativa.

“O Eduardo entra na segunda temporada para trazer o peso do sistema para o Victor, um investidor da hamburgueria que não quer saber de sonho, mas de lucro”. A fala ajuda a antecipar um dos conflitos centrais da nova fase da série criada por Matheus Souza: o choque entre afeto, sobrevivência e as cobranças brutais da vida adulta.

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