Foto: Maju Magalhães; Luz: Rayane Flaviano e direção: Bea Aragão.
Aos 25 anos, Nina Tomsic decidiu estrear na direção teatral sem pedir licença. Atriz com trajetória construída entre os palcos, a televisão e o streaming, ela assumiu o comando de Angélica com proposta clara: criar obra capaz de provocar, incomodar e movimentar quem estivesse sentado na plateia.
Mais do que contar uma história, a montagem mergulha em temas como a raiva feminina, os limites impostos às mulheres e as contradições que atravessam o cotidiano de quem cresce aprendendo a controlar emoções para caber em expectativas sociais. Para Nina, o teatro não deve ser um lugar de acomodação.
Em entrevista ao Pittaplay, a diretora falou sobre o processo de criação de Angélica, a construção coletiva da peça, os desafios da primeira direção e a convicção de que a arte precisa provocar transformações.
Chutando a porta
Ao assumir sua primeira direção, Nina tinha intenção muito específica: provar que juventude não é sinônimo de inexperiência: “Queria levar uma narrativa jovem e potente pras pautas municipais. Muitas produções independentes, universitárias, acabam sendo desmerecidas por serem feitas por jovens.”
A diretora destaca que uma das maiores conquistas do espetáculo foi reunir elenco formado por mulheres jovens, formadas em teatro pela universidade pública, em montagem que aborda temas complexos sem abrir mão da qualidade artística: “Quis fazer tudo extremamente profissional e de qualidade. Tocando em temas ousados, fazendo um teatro que acredito.”
A raiva feminina como ponto de partida

No centro de Angélica está pergunta provocadora: o que aconteceria se as mulheres fossem exatamente aquilo que a sociedade diz que elas não podem ser?
Para Nina, a resposta passa necessariamente pela discussão sobre a raiva feminina e pelos diferentes recortes que atravessam essa experiência: “O feminismo preto sempre trouxe a raiva como debate, mas não a conquista de ser raivosa, e sim de se libertar do rótulo de agressividade que sempre foi imposto sobre o corpo negro.”
Ela também observa que o feminismo branco enfrenta outro desafio: romper com a expectativa histórica de docilidade: “O patriarcado sempre teve como prioridade podar as mulheres, diminuir o poder do coletivo feminino e controlar as emoções femininas com a violência e o medo.”
Um espaço seguro para habitar as sombras
Ao longo dos ensaios, o grupo mergulhou em emoções desconfortáveis, explorando medos, impulsos e fragilidades: “Habitar nossas sombras, nossos medos, nossas raivas e impulsos mais profundos é sempre desconfortável.”
Para que essa investigação acontecesse, Nina afirma que foi necessário construir um ambiente de confiança absoluta entre as artistas: “Só com mulheres. Onde todas nós nos vulnerabilizamos igualmente e acolhemos os piores lados umas das outras.”
Segundo ela, foi justamente essa liberdade que permitiu que a peça alcançasse níveis mais profundos de sinceridade: “Rimos, choramos e confiamos que ali a gente poderia agir sem filtro social. Foi muito libertador.”
Horizontalidade exige liderança
Embora defenda processos coletivos, Nina faz questão de desmistificar a ideia de que horizontalidade significa ausência de direção: “Claro! A criação horizontal não pode virar bagunça”, diz aos risos.
Segundo ela, a liberdade criativa só funciona quando existe uma condução firme capaz de organizar as contribuições do grupo: “Depois que o material era levantado pelas meninas, eu e Sofia Badim organizávamos, escolhíamos e direcionávamos do jeito que acreditávamos ser melhor para a peça.”
Quando o público responde diferente

Uma das maiores descobertas da diretora aconteceu quando a peça começou a encontrar espectadores: Para Nina, Angélica é, em muitos momentos, uma comédia: “Encontrei no humor uma escape fundamental pro trauma. Eu gargalho das desgraças pra poder me distanciar e passar por elas.”
Mas a reação da plateia mostrou que nem todos processam a dor da mesma forma: “Algumas mulheres riam como eu, outras choravam, umas achavam a peça muito pesada, outras leve.”
A experiência a fez perceber que o espetáculo passou a existir também através da leitura de quem assiste.
O teatro precisa provocar
Se existe ideia que atravessa toda a visão artística de Nina Tomsic, é a rejeição à indiferença: “Um público indiferente é a maior tragédia do mundo.”
Para ela, o teatro possui uma função social que vai muito além do entretenimento: “O teatro movimenta montanhas. Revoluciona cidades e corações.”
Por isso, não importa se o espectador sai emocionado, desconfortável ou provocado: “Uma peça tem um dever social de fazer a alma pensar.”
A atriz que precisou aprender a não dirigir
Curiosamente, Nina acredita que o maior aprendizado da direção aconteceu antes mesmo dela assumir esse lugar: “A Nina diretora teve que aprender a ser só atriz.”
Ela explica que precisou aprender a desligar o olhar controlador para estar verdadeiramente presente em cena: “Não opinar em tudo, não dirigir em cena na minha cabeça, estar presente apenas me preocupando com a personagem.”
O que dez mulheres ensinaram sobre o feminino
Com 10 atrizes em cena, Angélica se transformou também em um grande exercício de escuta: “Descobri que quase toda experiência é individual e profundamente coletiva.”
Ao longo dos ensaios, as atrizes chegaram a interpretar cenas umas das outras para experimentar diferentes perspectivas sobre os mesmos temas: “Ninguém nunca está sozinha.”
Os sonhos que ainda estão por vir
Embora celebre o sucesso da estreia na direção, Nina já pensa nos próximos desafios. Dirigir um filme, estudar dança fora do Brasil, criar um espetáculo de jazz e, principalmente, construir seu próprio teatro estão entre os planos: “Queria ter um teatro com salas de ensaio e um terraço com restaurante.”
Ao olhar para a menina que começou no teatro aos oito anos, ela resume o conselho que daria para si mesma: “Se diverte.”
É essa a combinação entre inquietação, disciplina e paixão que explica por que Nina Tomsic escolheu fazer um teatro que não busca conforto. Busca movimento. Porque, para ela, o palco só cumpre sua função quando o público sai diferente de como entrou.
