Entre Irene e Amélie, Fernanda Pimenta encontrou novas formas de existir em cena

Fernanda Pimenta durante as gravações de Coração Acelerado. Em entrevista ao Pittaplay, a atriz fala sobre o desafio de viver duas personagens na mesma novela e a construção de Irene e Amélie. Foto: Diego Baptista.

Foto: Diego Baptista

Algumas personagens transformam a trajetória de quem as interpreta. Em Coração Acelerado, Fernanda Pimenta iniciou a novela vivendo Irene, cozinheira goiana que conquistou o público por sua simplicidade e dignidade. Meses depois, recebeu novo desafio: dar vida também a Amélie, prima da personagem, completamente diferente em comportamento, voz e postura.

Na prática, a atriz passou a dividir a própria rotina entre duas mulheres que compartilham o mesmo rosto, mas pertencem a universos completamente distintos. Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Fernanda fala sobre a construção das personagens, a importância da identidade goiana na novela, o desafio técnico de interpretar dois papéis simultaneamente e os aprendizados que essa experiência tem proporcionado.

Irene nasceu para representar mulheres que quase nunca ocupam o centro da narrativa

O convite para integrar o elenco aconteceu após processo que envolveu oficina de interpretação para televisão, teste presencial e envio de vídeo. Mas foi a essência da personagem que imediatamente chamou sua atenção.

“Quando soube da Irene fiquei muito feliz por se tratar de personagem que representa as mulheres trabalhadoras brasileiras, muitas vezes invisibilizadas. Me encanta como, por meio da dramaturgia, podemos retratar a hierarquia das relações de trabalho no Brasil.”

Fernanda conta que também se identificou com a maneira como a personagem valoriza suas origens: “Gosto de poder contar a história da Irene por ela ser subestimada e também por ela representar a identidade da mulher goiana. Por meio de seus talentos culinários Irene enfatiza e potencializa nossas raízes cerratenses.”

Uma personagem que cresceu junto com a novela

Irene conquistou o público pela simplicidade, pela força silenciosa e pela esperança de construir uma vida melhor. Interpretada por Fernanda Pimenta, a personagem representa a dignidade das mulheres trabalhadoras e leva para Coração Acelerado a identidade e a cultura do interior de Goiás. Foto: Globo.
Irene conquistou o público pela simplicidade, pela força silenciosa e pela esperança de construir uma vida melhor. Interpretada por Fernanda Pimenta, a personagem representa a dignidade das mulheres trabalhadoras e leva para Coração Acelerado a identidade e a cultura do interior de Goiás. Foto: Globo.

Quando começaram as gravações, Fernanda sabia apenas que Irene teria ligação com Walmir, papel de Antônio Calloni e com o sobrinho Gael, interpretado por André Luiz Frambach: “Não imaginava que Irene ganharia tanta importância.”

Ela explica que procurou viver intensamente cada etapa da personagem: “A construção de Irene foi gradual e tentei aproveitar cada fase dela: o trabalho na casa de Zilá com a companhia de suas parceiras Leocádia e Rosalva, a demissão e o rompimento com Zilá, a abertura do Walmirene, o relacionamento com Walmir, a preocupação com o sobrinho e o término com Walmir, por enquanto. Sinto que Irene foi crescendo organicamente dentro da narrativa.”

Para Fernanda, a identificação do público nasce justamente dessa trajetória: “Acredito que o público se identifica pela vulnerabilidade e resignação da personagem, que suporta trabalhar com dignidade em meio a trabalho marcado pela hierarquia com a patroa Zilá. Irene finge submissão para sobreviver, mas é astuta, vê e sabe das coisas. Por isso, também, foi corajosa para romper com Zilá e ter esperança de vida melhor ao empreender o Walmirene com Walmir. A relação dos dois agrada, creio, porque ambos são maduros, autênticos e esperançosos neste amor.”

O dia em que descobriu que faria Amélie

Amélie surgiu durante a produção de Coração Acelerado e trouxe um novo desafio para Fernanda Pimenta. Com voz, postura, gestos e energia completamente diferentes de Irene, a atriz construiu uma segunda personagem sem abrir mão da identidade de cada uma. Foto: Arquivo Pessoal.
Amélie surgiu durante a produção de Coração Acelerado e trouxe um novo desafio para Fernanda Pimenta. Com voz, postura, gestos e energia completamente diferentes de Irene, a atriz construiu uma segunda personagem sem abrir mão da identidade de cada uma. Foto: Arquivo Pessoal.

A segunda personagem surgiu durante a própria produção da novela e pegou Fernanda completamente de surpresa: “Soube no fim de fevereiro, em conversa no corredor do estúdio, com Carlos Araújo (diretor artístico da novela). Ele me chamou e cochichou: ‘sabe quem vai entrar na novela? A prima de Irene’.”

Ela respondeu animada: “‘Que legal, tenho mais família!'”, mas o diretor continuou: “’E sabe que atriz que vai fazer essa prima? Você!'”

A reação foi imediata: “Crise de riso no corredor, riso de nervoso. Emocionei demais, foi meio surreal. Tive que manter o segredo por um tempo e depois comecei a preparação. Quem era essa mulher? Me disseram que seria bem diferente da Irene, e aos poucos fui conhecendo e experimentando essa goiana ‘afrancesada’. É um grande desafio, mas me sinto também muito estimulada.”

O mesmo rosto, duas mulheres completamente diferentes

Em Coração Acelerado, Fernanda Pimenta encara o desafio de interpretar Irene e Amélie, personagens que compartilham a paixão pela cozinha, mas vivem realidades opostas. Voz, postura, gestos, ritmo e energia foram cuidadosamente construídos para que cada uma tivesse uma identidade própria dentro da novela. Foto: Arquivo Pessoal.
Em Coração Acelerado, Fernanda Pimenta encara o desafio de interpretar Irene e Amélie, personagens que compartilham a paixão pela cozinha, mas vivem realidades opostas. Voz, postura, gestos, ritmo e energia foram cuidadosamente construídos para que cada uma tivesse uma identidade própria dentro da novela. Foto: Arquivo Pessoal.

Interpretar duas personagens na mesma novela exige construção bastante precisa para que o público reconheça imediatamente quem está em cena: “Amélie e Irene dividem o mesmo rosto e a mesma paixão por cozinhar, apesar de pertencerem a universos gastronômicos totalmente diferentes.”

A partir daí, Fernanda começou a desenhar características próprias para cada uma: “Tracei Irene com uma voz mais grave, com trejeitos mais interioranos e com certa humildade servil. Para contrastar, busquei desenhar Amélie de forma oposta à Irene.”

Ela explica que cada detalhe foi pensado cuidadosamente: “Todos os detalhes são pensados: desde a postura da coluna, passando pelo jeito de olhar, os gestos das mãos, a velocidade para falar, o movimento do rosto, etc.”

Ao mesmo tempo, faz questão de destacar o trabalho da equipe técnica: “A caracterização e o figurino são imprescindíveis neste processo. As equipes tiveram muito êxito ao destacar e promover diferenças no cabelo, maquiagem e roupa das personagens.”

A inquietude em não permitir que uma personagem invadisse a outra permaneceu durante todas as gravações: “Tenho grande preocupação com isso: de não misturar as características das duas.”

Ela resume que a principal diferença entre elas é a sutileza de Irene enquanto Amélie tem a voz mais aguda: “Amélie tem sotaque goiano com grande influência do ‘r’ francês, e corpo mais seguro, decidido, de quem manda. E por dentro, em termos de emoções, Irene é mais calma e compreensiva, enquanto Amélie é frenética e rígida. Me conectar a cada uma delas tem sido um desafio que demanda precisão.”

Mulheres reais inspiraram Irene e Amélie

Fernanda Pimenta durante as gravações de Coração Acelerado. Em entrevista ao Pittaplay, a atriz fala sobre o desafio de viver duas personagens na mesma novela e a construção de Irene e Amélie. Foto: Diego Baptista.
Fernanda Pimenta durante as gravações de Coração Acelerado. Em entrevista ao Pittaplay, a atriz fala sobre o desafio de viver duas personagens na mesma novela e a construção de Irene e Amélie. Foto: Diego Baptista.

Para compreender quem eram suas personagens além do texto, Fernanda buscou referências diferentes para cada uma delas: “Irene foi pensada a partir de mulheres reais que eu conheci ao longo da vida: são trabalhadoras resilientes, marcadas pela desigualdade social. Acredito que isso cria uma identificação.”

Já Amélie exigiu outro caminho e Fernanda tentou se inspirar na gestualidade e disciplina da chef Paola Carosella. Como parte da história ainda permanecia aberta, Fernanda também precisou preencher algumas lacunas por conta própria.

“Uma das informações que tive é de que a relação entre Irene e Amélie não era boa, mas não sabia o porquê. Então, como essa informação estava em aberto, pude imaginar coisas com o que o texto me trazia. Mas não posso afirmar minhas suposições, pois a obra é aberta e está em processo.”

Apesar das diferenças, ela identifica um elo entre as duas: “O que posso certamente afirmar é que as duas comungam com muita verdade o amor pelo ofício de cozinhar.”

Três formas de pensar identidade

Ao refletir sobre o trabalho, Fernanda percebe que interpretar Irene e Amélie também ampliou sua visão sobre identidade: “Destaco três facetas deste termo ‘identidade’.”

A primeira é artística: “Como venho de trabalho contínuo de duas décadas no teatro, tem sido um processo de muita aprendizagem com a linguagem da televisão, pois sinto muito prazer em investigar novas formas de atuação.”

A segunda é cultural: “É uma honra e alegria contribuir com minha essência goiana para dar voz a trabalhadora do cerrado, que trabalha com ingredientes locais, que exalta e valoriza a cultura de Goiás, nesta obra que oferece o protagonismo a nós, goianos.”

Por fim, ela fala sobre as próprias personagens: “Isso diz respeito a deixar habitar em mim seres distintos, existências que representam grupos, classes e culturas, a me deixar aberta e valente aos desafios que virão, e a receber com respeito os tipos que brincamos seriamente de viver. Pra atuar tem que ter coragem e vontade de brincar. Interpretar personagens diferentes dentro da mesma obra reforça um processo de descoberta contínua dentro do ofício.”

Entre a comédia e o drama

Fernanda também celebra a possibilidade de transitar entre diferentes registros dentro da novela: “Gosto muito de não estar limitada a apenas uma linguagem.”

Mesmo sendo palhaça de formação, ela afirma gostar igualmente do drama: “Tenho intimidade com a comédia, mas adoro me deixar afetar por um bom sofrimento.”

Para ela, esse equilíbrio aproxima a ficção da vida: “Acho que na vida ninguém só sofre ou só ri, por isso encaro com muita naturalidade o trânsito de emoções da Irene.”

Ela lembra que a personagem também enfrenta questões delicadas: “Irene é engraçada, mas também tem seus dramas: tinha uma relação de trabalho tóxica e tem a preocupação com o vício de Walmir, temas sensíveis e que merecem delicadeza em sua exposição.”

As trocas com Antonio Calloni

Walmir (Antonio Calloni) e Irene (Fernanda Pimenta) em "Coração Acelerado" - Foto: Estevam Avella/ Globo
Walmir (Antonio Calloni) e Irene (Fernanda Pimenta) em “Coração Acelerado” – Foto: Estevam Avella/ Globo

Ao falar sobre o elenco, Fernanda destaca o aprendizado diário ao dividir cena com Antonio Calloni: “É parceiro muito generoso e gênio da teledramaturgia brasileira. Sua composição do Walmir é primorosa e cativante.”

Ela diz que o convívio com atores experientes amplia constantemente seu olhar: “Aprendo sobre disponibilidade, escuta e respeito ao contracenar com ele e com os demais colegas de equipe. Adoro presenciar colegas experientes como ele, a Leandra e o Caruso atuando: são aulas de atuação diárias. Eles me mostram que as possibilidades são infindas.”

O futuro depois de Coração Acelerado

Fernanda acredita que Irene e Amélie representam marco importante em sua trajetória: “Esse é um momento de grande visibilidade e reafirmação da minha trajetória de mais de vinte anos no teatro, na palhaçaria, no cinema e na pesquisa em artes.”

Ela resume o sentimento vivido durante as gravações: “Estou muito feliz e grata pela oportunidade. Tem sido divertido gravar a novela e conhecer este universo.”

Quando olha para o futuro, sabe exatamente o que deseja: “Daqui a alguns anos certamente vou me lembrar com muito carinho de Irene e Amélie, me recordando que elas me abriram as portas da teledramaturgia.”

E revela os próximos sonhos: “Desejo continuar transitando entre diferentes linguagens, com preferência, no momento, para projetos audiovisuais. Adoraria fazer uma série por agora. E também um filme internacional.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *