Tadeu Fernandes transforma ficção científica em histórias sobre pertencimento e relações humanas

Quando Tadeu Fernandes começou a escrever Projeto AXO, ele não imaginava que estava dando início a uma trilogia. Também não pensava em reunir referências como Stranger Things, X-Men e Piratas do Caribe. Na verdade, tudo começou com uma única cena que surgiu de maneira inesperada e que, anos depois, se transformaria em uma história sobre amizade, pertencimento, identidade e escolhas.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, o autor revisita a origem da trilogia, revela como os sonhos ajudaram a construir a narrativa, explica por que escolheu colocar um romance LGBTQIA+ no centro da aventura e mostra que, apesar dos poderes e das mutações genéticas, sempre esteve interessado em escrever sobre pessoas.

Uma história que nasceu antes mesmo de existir

Hoje, Projeto AXO costuma ser apresentado como um encontro entre Stranger Things, X-Men e Piratas do Caribe. Curiosamente, Tadeu explica que essas referências foram percebidas depois da obra pronta: “Não foi no processo de escrita. Isso eu te garanto hahahaha. Depois que eu finalizei, eu fui percebendo alguns elementos de cada história.”

Segundo o autor, algumas comparações surgiram naturalmente a partir da reação dos próprios leitores: “Stranger Things não foi uma referência direta pra mim, mas toda vez que eu contava o começo da história, literalmente todo mundo falava ‘STRANGER THINGS!’. De tanto ouvir isso, eu incorporei a referência.”

Já elementos de X-Men, Kipo e os Animonstros e Piratas do Caribe apareceram na construção dos personagens mutantes e da estética dos chamados “mutos”, resultado de experimentos genéticos presentes na trama.

Um sonho deu origem à trilogia

A trilogia Projeto AXO nasceu de uma cena escrita por impulso, passou por uma tentativa de adaptação para o audiovisual e encontrou na literatura seu formato definitivo. Em entrevista ao Pittaplay, Tadeu Fernandes conta os bastidores dessa trajetória.
A trilogia Projeto AXO nasceu de uma cena escrita por impulso, passou por uma tentativa de adaptação para o audiovisual e encontrou na literatura seu formato definitivo. Em entrevista ao Pittaplay, Tadeu Fernandes conta os bastidores dessa trajetória.

A primeira cena da história surgiu de maneira inesperada: “Estava em casa, não faço a menor ideia do que estava fazendo na hora, e do absoluto nada veio essa ideia na cabeça. Lembro que corri, abri o notebook e escrevi a cena como ela tava aparecendo na minha mente.”

Naquele momento, porém, o projeto acabou sendo engavetado. Algum tempo depois, ao ser desligado de uma produção audiovisual na qual trabalhava havia meses, Tadeu decidiu transformar aquela ideia em roteiro para uma série.

O caminho mudou completamente durante uma noite de sono: “Enquanto dormia, sonhei com a continuação da história. Eu vi o protagonista tendo o primeiro encontro com o antagonista. Era como se eu estivesse vendo um filme.”

Ao acordar, registrou tudo. Dias depois, voltou a sonhar com novos acontecimentos: “E aí sabia o que precisava para terminar a história.”

O roteiro chegou a ser apresentado ao mercado e entrou em análise pela Amazon, mas acabou não sendo produzido. Foi então que o autor decidiu levar a história de volta ao formato em que ela havia nascido: a literatura.

Antes dos poderes, vêm as pessoas

Embora a trilogia mergulhe em mutações genéticas, laboratórios secretos e ficção científica, Tadeu deixa claro que nunca enxergou esses elementos como protagonistas da narrativa: “A ficção científica apareceu como alegoria. O meu foco sempre foram as relações humanas.”

Para sustentar esse universo, ele pesquisou conceitos científicos e conversou com profissionais da área da saúde para construir uma base coerente para os experimentos presentes na trama.

Ao mesmo tempo, dedicou atenção especial aos personagens: “Todos os personagens têm ficha.”

Segundo ele, metade do segundo livro surgiu quando decidiu investigar o comportamento de uma personagem secundária: “Vi uma personagem secundária e falei: ‘Por que ela se comporta assim?’. Depois de dissecar a história dela, eu entendi que precisava falar daquilo.”

O mesmo cuidado foi dedicado ao antagonista: “Prefiro chamar de antagonista. Porque eu humanizei bastante ele.”

Um herói brasileiro e uma menina obrigada a crescer cedo

Thiago, protagonista da trilogia, nasce como alguém disposto a ajudar desconhecidos mesmo quando isso muda completamente sua vida: “O Thiago é o típico herói que quer salvar todo mundo, mas eu queria que ele fosse um herói humano, real e, acima de tudo, brasileiro.”

Já Helena ocupa outro lugar importante na história. A personagem possui poderes telepáticos, mas também carrega as marcas dos experimentos realizados pelo laboratório.

“Ela começa com 11 anos. Uma coisa que eu sempre ouvia era que ela era muito madura pra idade dela.”

Segundo o autor, essa maturidade faz sentido dentro da trajetória da personagem: “Imagina você nascer com o único propósito de ser um objeto de experimento.”

Ao longo da trilogia, porém, Helena recupera parte da infância que lhe foi tirada: “A gente vai vendo ela perdendo um pouco dessa maturidade forçada porque finalmente se sente segura para ser uma criança.”

Uma aventura onde personagens LGBTQIA+ também salvam o mundo

Para Tadeu, era importante construir uma aventura em que personagens LGBTQIA+ não fossem definidos apenas por sua orientação sexual: “Uma das coisas que me incomodava era que a maioria das histórias sobre pessoas LGBTs que a gente via ou lia eram sobre a dor de se descobrir LGBT.”

Ele queria outro caminho: “Por que personagens LGBTs não poderiam viver uma grande aventura também?”

Por isso, o romance entre os protagonistas ocupa espaço na narrativa sem se transformar no único conflito da história: “O amor deles é importante, mas eu não queria que fosse o tema central. A vida LGBT é muito maior que o momento da descoberta da sexualidade.”

A discussão continua quando fala sobre pertencimento: “Eu queria escrever uma história em que o público LGBT principalmente se sentisse representado. Que, apesar das dificuldades da vida, a gente ainda merece estar cercado de pessoas que nos amam por sermos quem somos.”

O silêncio da madrugada e as escolhas difíceis

Hoje, Tadeu prefere planejar toda a estrutura antes de começar a escrever: “Faço uma escaleta completa da história e vou usando ela como referência.”

Grande parte desse processo acontece durante a madrugada: “Escrevo majoritariamente de madrugada, por conta do silêncio da noite.”

Mesmo com planejamento, algumas decisões continuam sendo dolorosas. No terceiro livro, uma morte marcou profundamente o autor: “Eu chorava de soluçar.”

Ele chegou a reescrever a cena, mas manteve seu significado: “Era o que precisava ser feito. Mas isso não significa que doeu menos.”

Uma história que não abriria mão de sua essência

Durante as tentativas de adaptação para o audiovisual, Tadeu recebeu uma sugestão: retirar os elementos de ficção científica e também a representatividade LGBTQIA+. Ele recusou: “Mas aí eu vou estar escrevendo uma nova história, não Projeto AXO.”

Para o autor, abrir mão desses elementos significaria abandonar aquilo que sempre sustentou a trilogia: “Pode não ser a melhor história do mundo, mas foi a melhor história que eu poderia ter feito naquele momento da minha vida e eu tenho muito orgulho de cada detalhe dela.”

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