Em cartaz de 7 a 29 de julho nos palcos do Teatro Poeira, Um Pássaro Não É Uma Pedra parte de história real para discutir guerra, memória e resistência através da arte. Em conversa com Pittaplay, Lucas Oradovschi fala sobre o processo de criação da peça, os desafios do monólogo e a importância do teatro como espaço de reflexão e diálogo.
A história que inspirou o espetáculo
Nos anos 1980, em um campo de refugiados em Jenin, na Palestina, Arna Mer, judia israelense, e Samira Zubeidi, árabe-palestina, fundaram o Teatro de Pedra, que atendia milhares de crianças e foi destruído anos depois. Nos anos 2000, os filhos dessas duas mulheres criaram o Teatro da Liberdade, ainda de pé e indicado ao prêmio Nobel da Paz em 2024.
Ao ser questionado sobre o monólogo ser contado a partir da perspectiva de uma pedra, o ator revela: “Foi um processo muito desafiador criar esse espetáculo. Primeiro porque é o primeiro projeto que idealizo, faço a concepção, batalho para conseguir financiamento, articulo as pessoas… Esse movimento de pensar, projetar, planejar e criar um projeto do zero foi experiência inédita para mim.”
Entre estudos e pesquisas, Lucas conta como foi o processo de criação e produção da peça: “Quando decidimos falar sobre esse tema, sabíamos que era assunto delicado, sensível e muito difícil de abordar. Não existia dramaturgia pronta da qual pudéssemos partir. Então fizemos longa pesquisa, processo investigativo com entrevistas, reportagens, documentários e todo tipo de referência sobre esse universo.
Levamos todo o material para a sala de ensaio e passamos quase um mês sentados no chão, cercados de papéis, imagens e conversas. Ficávamos debatendo sem conseguir encontrar um caminho. Em determinado momento pensamos: “Pelo amor de Deus, precisamos levantar e começar a fazer alguma coisa”. O assunto era tão complexo que era difícil descobrir por onde entrar.”
O olhar por outra perspectiva

Lucas Oradovschi em seu monólogo “Um pássaro não é uma pedra”, no Rio de Janeiro.
Foto: Sofia Paciullo
Lucas conta que enquanto estavam no processo de desenvolvimento do monólogo, aconteceu novo ataque do Hamas: “No meio desse processo fomos atravessados pelo 7 de outubro de 2023, com os ataques do Hamas, que inauguraram nova fase dessa guerra tão antiga e potencializaram todo seu horror. De repente, aquele tema que pesquisávamos passou a ocupar todos os debates públicos, as redes sociais e os veículos de comunicação.”
E então surgiu olhar por nova perspectiva: a história poderia ser contada por uma pedra: “Ficamos muito preocupados sobre como continuar abordando aquele assunto. Foi então que decidimos fazer movimento dramatúrgico importante: contar essa história pela perspectiva da pedra”.
Equipe e ator optaram por apostar na metáfora e na simbologia, já que o tema é histórico e político, não poderiam partir de um ponto do qual não são especialistas: “Passamos a olhar para as pequenas humanidades que habitam essas histórias. Foi aí que entendi que essa pedra contaria tudo. E mais do que isso: ela seria uma pedra de um teatro destruído.”
A arte em meio à guerra
Para o ator, vivemos um período desafiador na humanidade: “Passamos por uma pandemia, convivemos com guerras que parecem não ter perspectiva de terminar, além de tantos outros fatos que se ampliam.”
E ainda assim, ele acredita que o teatro é uma tecnologia humana e ancestral, do encontro, da presença: “O teatro tem a capacidade de nos convocar a imaginar outros mundos, outros futuros, a continuar sonhando, afirmando a vida e criando brechas para resistir a esses tempos difíceis.”
Para ele, o teatro nunca sucumbiu: “O teatro nunca sucumbiu. Existem milhares de teatros possíveis ao longo da história da humanidade. Enquanto existir humanidade, existirá teatro. Existirá o ato de contar histórias e de reunir pessoas., afirma.
“O teatro é um antídoto para esses tempos de extremismos”. Em um momento em que o debate público parece cada vez mais polarizado, Lucas acredita que o teatro é antídoto para tempos difíceis: “Vivemos uma época marcada por muita intolerância, opiniões muito rígidas e pouca capacidade de escutar quem pensa diferente. O teatro e a arte de maneira geral tem justamente a força de movimentar essas certezas. Pela sensibilidade, pela poesia e até pelo humor, consegue acessar lugares que outros discursos dificilmente alcançam. O teatro que fazemos busca exatamente esse lugar: ser um antídoto muito potente para esses tempos.”
A solidão do monólogo
“É muito solitário”, diz Lucas ao responder sobre os desafios de fazer um monólogo. O ator explica que o processo é coletivo. Para Um pássaro não é uma pedra são três pessoas dirigindo, além de equipe de figurino, cenografia, música e iluminação. Ele conta que é um processo muito rico, coletivo e cheio de olhares diferentes, porém, no momento da apresentação é muito solitário.
“Todo dia, antes de entrar em cena, eu me pergunto: “Por que inventei isso?”, brinca. “A gente faz aquela tradicional rodinha antes de começar, dá as mãos… e, de repente, todo mundo vai embora. Fico sozinho. Eu e as pedras.”
Existe relação com o público, mas ele cita a falta de estar ao lado de outro ator em cena: “É claro que existe jogo com o público, com a luz, com a música, com o espaço e com os objetos. Mas existe também um jogo muito importante com outro ator, com outro corpo em cena. Então o maior desafio do monólogo é justamente esse: a solidão.”
A plateia como parte do teatro
Para amenizar a solidão do monólogo, a plateia, de alguma forma, faz parte da peça: “Se o teatro não for gigantesco, vejo praticamente todo mundo que está ali. Olho para as pessoas e me alimento do olhar delas. Na verdade, é justamente aí que consigo apaziguar a solidão do monólogo.”
Ao perceber a emoção, Lucas sente a troca genuína com o espectador: “Quando percebo alguém acompanhando a história, se emocionando, respirando diferente porque estou falando alguma coisa, aquilo também me afeta. Essa troca é fundamental para o teatro em que acredito.”
O público não interfere na sua concentração, mas Lucas aprecia um teatro que vai além disso: “Existem muitos teatros possíveis, e não acho que exista um melhor do que o outro. Mas o teatro que me interessa estabelece comunicação direta com o espectador.”
Para ele, o teatro que faz seus olhos brilhar é o teatro da conversa: “Não significa que a plateia precise responder, mas a comunicação está acontecendo o tempo inteiro. Estou contando uma história olhando nos olhos das pessoas.”
“Construímos uma dramaturgia que aposta na delicadeza, na poesia e na sensibilidade”

O ator conta que a peça veio de trabalho de muita delicadeza, cuidado e respeito por todas as ancestralidades envolvidas: “É um tema profundo para muita gente. Por isso conseguimos construir dramaturgia que aposta na delicadeza, na poesia e na sensibilidade.”
Como produtor e criador, Lucas explica que a opção foi construir trabalho que não fosse panfletário: “Se fosse isso, provavelmente atrairíamos apenas pessoas que já concordam conosco. Ganharíamos aplausos e tapinhas nas costas de quem já compartilha da nossa visão, enquanto afastaríamos quem pensa diferente.
O nosso interesse é outro. É menos sobre afirmar aquilo que eu penso, embora isso esteja presente e mais sobre criar encontro entre pessoas diferentes”, afirma.
Para isso, a equipe foi desenvolvendo o texto com muita cautela e cuidado: “fomos tecendo esse texto palavra por palavra, medindo cada frase com muito cuidado.
Acho que conseguimos construir uma peça que conversa com diferentes públicos e diferentes formas de enxergar essa questão.”
Lucas afirma que o teatro tem a função importante de articular ideias, sensibilidades e presenças e é isso que eles buscam com Um pássaro não é uma pedra.
O espetáculo veio para provocar
Lucas diz não acreditar em trabalhos que resolvam as questões do mundo, por isso, o espetáculo promove reflexões e não resoluções: “Os problemas são extremamente complexos e seria até pretensioso imaginar que uma peça de teatro pudesse oferecer uma resposta definitiva.
Esse espetáculo não tem o objetivo de apaziguar. Ele quer provocar e que as pessoas saiam com perguntas e que essas perguntas gerem outras perguntas. Para ele, é importante que as pessoas reflitam sobre a escuta, a memória e a ancestralidade.
Um pássaro não é uma pedra cria cenário de reflexão com a própria história: “se conseguirmos fazer com que alguém saia da peça com um pouco mais de interesse em compreender quem pensa diferente e um pouco mais de disposição para dialogar, eu já ficarei muito feliz”, finaliza o ator.
O espetáculo acontece de 7 a 29 de julho deste ano, às terças e quartas-feiras, às 20h, no Teatro Poeira, localizado na rua São João Batista, 104, Botafogo – RJ.
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