“Cada personagem continua morando em mim”, diz Rainer Cadete

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Rainer Cadete fala sobre a transição entre Celso e Dr. César, reencontros com Walcyr Carrasco, Claudia Souto e Amora Mautner e seu processo de criação como ator.

Globo/ Daniela Toviansky

Poucos meses separaram a despedida de Celso, em Êta Mundo Melhor, da chegada do Dr. César, em Quem Ama Cuida. A mudança levou Rainer Cadete de uma novela de época para um drama contemporâneo e marcou mais um reencontro do ator com Walcyr Carrasco, que assina a novela das nove ao lado de Claudia Souto e conta com a diretora artística Amora Mautner.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Rainer falou sobre esse momento da carreira, comentou como constrói seus personagens e revelou por que não acredita que um papel precise ser deixado para trás para que outro possa nascer.

O ator que faz de si a casa de seus personagens

À primeira vista, a mudança parece apenas uma troca de personagens. Mas, para Rainer, ela representa algo muito mais profundo. Ao contrário do que muitos imaginam, ele não acredita que um personagem precise ser “esquecido” para que outro exista: “Não tento matar um personagem. Acho que eles continuam morando em algum lugar dentro de mim. O que eu faço é abrir espaço para que outro chegue”.

A resposta revela muito sobre a forma como o ator enxerga seu trabalho. Para ele, cada personagem deixa marcas permanentes: “Cada personagem me empresta um jeito de respirar, de olhar, de ocupar o silêncio. Quando termina, eu guardo esse aprendizado, mas preciso voltar a observar as pessoas, como se estivesse recomeçando”.

Do universo de época ao homem contemporâneo

Rainer Cadete como Celso, em Êta Mundo Melhor, que terminou em março deste ano no horário das seis. Foto: Globo.
Rainer Cadete como Celso, em Êta Mundo Melhor, que terminou em março deste ano no horário das seis. Foto: Globo.

A distância entre Celso e Dr. César vai muito além do figurino ou da ambientação. Enquanto um pertence à década de 1940, o outro vive num universo completamente conectado à tecnologia, à medicina estética e à velocidade do mundo contemporâneo.

Segundo Rainer, compreender esse contexto é o primeiro passo da construção: “Celso nasceu de universo com outro tempo, outra musicalidade, outra relação com as palavras. Já o Dr. César é um homem completamente contemporâneo, acostumado a controlar a imagem que projeta e a acreditar que tem domínio sobre a própria vida”.

Essa mudança fez o ator reforçar uma convicção que hoje orienta todo o seu trabalho: “O contexto vem antes da interpretação. Entender o tempo em que um personagem vive muda a pesquisa, muda o corpo, muda a fala e muda até o jeito de pensar as cenas”.

Mais do que encontrar gestos ou trejeitos diferentes, Rainer procura evitar um equívoco comum para quem acumula muitos trabalhos: “A tentação de recorrer ao que já deu certo. A experiência ajuda, mas ela também pode virar uma armadilha”.

O prazer de descobrir um personagem durante a novela

Depois de mais de duas décadas de carreira, seria natural imaginar que Rainer escolhesse projetos pensando apenas em grandes desafios dramáticos. Mas o ator afirma que o que mais o fascina continua sendo descobrir novas maneiras de olhar para o mundo: “O que mais me interessa hoje é viver o personagem. Colocar a lente dele diante dos meus olhos e experimentar o mundo a partir daquele ponto de vista”.

No caso das novelas, existe ingrediente que torna esse processo ainda mais estimulante: a obra aberta. Como os rumos da história mudam constantemente, o ator também vai descobrindo novas camadas do personagem ao longo das gravações: “Também escolho um projeto pelas pessoas com quem vou jogar em cena. Pelos atores com quem vou conviver durante quase um ano. O que mais me entusiasma é o jogo que se estabelece entre os personagen”.

É nesse encontro entre texto, elenco e direção que ele acredita que a cena deixa de ser apenas uma boa interpretação para ganhar vida.

O reencontro com Walcyr Carrasco, Claudia Souto e Amora Mautner

Rainer Cadete vive um momento raro na carreira: despediu-se de Celso e, praticamente sem intervalo, assumiu Dr. César em Quem Ama Cuida. Ao Pittaplay, o ator fala sobre atuação, processo criativo e os reencontros que marcaram esse novo trabalho. Foto: Fábio Rocha Globo
Rainer Cadete vive um momento raro na carreira: despediu-se de Celso e, praticamente sem intervalo, assumiu Dr. César em Quem Ama Cuida. Ao Pittaplay, o ator fala sobre atuação, processo criativo e os reencontros que marcaram esse novo trabalho. Foto: Fábio Rocha Globo.

Quem Ama Cuida também representa momento especial na trajetória do ator por reunir profissionais que acompanham sua carreira há muitos anos.

Dr. César marca o oitavo trabalho de Rainer ao lado de Walcyr Carrasco, além do reencontro com Claudia Souto, que assinou sua primeira novela, Caras & Bocas, ao lado do autor: “Trabalhar com alguém que admiro e que acompanha a minha trajetória há tantos anos traz confiança muito grande, mas também compromisso. Existe, sim, a vontade de continuar surpreendendo”.

Ele também celebra voltar a trabalhar com Amora Mautner, diretora com quem já dividiu outros projetos: “Existe confiança que só o tempo constrói, mas também liberdade muito grande para experimentar e continuar descobrindo coisas novas juntos”.

Um homem ético colocado diante do caos

Em Quem Ama Cuida, Dr. César é apresentado como um médico respeitado, bem-sucedido e dedicado à família. Mas sua vida muda completamente quando passa a ser alvo da obsessão de Brigitte, personagem de Tatá Werneck.

Para Rainer, o interesse pelo personagem nasce justamente dessa aparente estabilidade: “O que mais me interessou no César foi justamente a base que ele tem. É um homem ético, dedicado à família e profundamente comprometido com a profissão”.

Segundo ele, o verdadeiro conflito está em observar como alguém com esses valores reage quando perde o controle da própria vida: “Descobrir, cena a cena, como ele vai lidar com tudo isso e quais escolhas vai fazer tem sido uma das partes mais interessantes desse trabalho”.

O ator também destaca que a novela amplia esse conflito ao abordar questões ligadas à saúde mental e aos limites das relações humanas.

A parceria com Tatá Werneck

A parceria dos dois começou em Terra e Paixão onde viviam Luigi e Anely. Foto: Manoella Mello/Globo.
A parceria dos dois começou em Terra e Paixão onde viviam Luigi e Anely. Foto: Manoella Mello/Globo.

Depois de contracenarem em Terra e Paixão, Rainer reencontra Tatá Werneck agora em circunstâncias completamente diferentes. Segundo ele, a convivência anterior fortaleceu uma parceria baseada na confiança: “Quando você conhece melhor o colega, passa a entender o tempo dele, o humor e o jeito de construir uma cena”.

Rainer faz questão de destacar a preparação da atriz: “Ela disseca o texto, pensa nas cenas, nas relações entre os personagens, nas camadas que existem em cada situação”.

Ao contrário da imagem de improviso constante associada à atriz, ele afirma que Tatá respeita profundamente a escrita: “Ela encontra maneiras muito próprias de dar vida à escrita, sem perder a essência do que está sendo contado”.

Um ator que prefere continuar sendo surpreendido

Questionado sobre o futuro de Dr. César, Rainer evita antecipar qualquer caminho. Para ele, uma das maiores riquezas da novela está justamente em caminhar junto com o público: “Tenho evitado criar expectativa. Muitas vezes descubro o personagem ao mesmo tempo que o público”.

Essa abertura também explica o tipo de história que ele deseja encontrar daqui para frente: “Tenho vontade de encontrar personagens à altura das grandes histórias. Daquelas que atravessam o tempo, continuam provocando conversas e voltam a emocionar cada vez que são revisitadas”.

Ao olhar para trás, Rainer não escolhe apenas um personagem que o tenha transformado. Prefere enxergar a própria trajetória como um conjunto de experiências que dialogam entre si e despertam diferentes públicos: “É muito gratificante perceber que existe um público que acompanha a minha trajetória, independentemente da linguagem”.

É essa a maior característica da carreira do ator. Mais do que mudar de personagem, Rainer parece estar sempre disposto a mudar de perspectiva. E, como ele próprio define, cada novo trabalho não substitui o anterior. Apenas encontra espaço para existir ao lado de todos os outros.

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