Vitória Rodrigues encontra em Dôra uma mulher que precisa ser o próprio final feliz

Vitória Rodrigues encontra em Dôra uma mulher que precisa ser o próprio final feliz

Foto: Estevam Avellar/Globo

Dôra passou boa parte de A Nobreza do Amor tentando caber. Caber na posição de primeira-dama, no casamento com Bartô, nos padrões de uma sociedade que observa uma mulher negra ocupando um lugar de prestígio e até naquilo que esperam de sua aparência. Educada, doce, conciliadora e quase sempre cuidadosa com aquilo que diz, ela encontrou nessa postura a maneira de ser respeitada. 

Por trás dessa mulher, porém, existia uma história que nem Vitória Rodrigues conhecia completamente quando começou a construí-la. 

No decorrer da novela das seis da Globo, escrita por Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., a atriz descobriu junto com o público novas camadas de sua personagem. Dôra nasceu livre, mas é filha de uma mulher escravizada. Carrega as consequências de um período histórico que oficialmente ficou para trás, embora suas marcas continuem atravessando o Brasil e a própria Vitória em 2026.

“Ela é uma mulher preta que casou com o prefeito e que a mãe do prefeito é o cão (risos). Então, essa mãe, com certeza, não deu mole para Dôra. E, para eles ficarem juntos, só ele amando muito ela. Então, a gente vai buscando essas pequenas coisas para ir montando o personagem”, conta Vitória em entrevista exclusiva ao Pittaplay.

Foi pensando também nos padrões daquele período que ela encontrou uma das principais chaves da personagem: “Ela quer ser essa pessoa aceita. Então, ela vai se calar em muitos momentos, vai querer ser apaziguadora de muitas situações que não deveria. Porque ela quer se encaixar”.

Isso não retira sua força: “Ela é também uma mulher forte, doce, sensível. Então, fui buscando essas camadas para além do que me trouxeram na sinopse”.

Uma descoberta que mudou Dôra no meio do caminho

Existe particularidade importante nessa construção. Vitória não sabia, inicialmente, de toda a história envolvendo a mãe de Dôra. A informação chegou quando a novela já estava acontecendo.

E isso, curiosamente, preservou a leveza que talvez não existisse caso a atriz conhecesse desde o princípio todo o peso carregado pela personagem: “Se me trouxessem essa camada antes, eu não faria ela com tanta leveza”.

Quando o passado finalmente emergiu, Vitória pôde mergulhar no “fundo do poço” de uma mulher que passou muito tempo tentando esconder aquilo que carregava. A experiência é própria de uma obra aberta. A atriz recebe novos capítulos e também precisa reorganizar aquilo que imaginava sobre a personagem. No caso de Dôra, porém, a mudança não exigiu abandonar a mulher construída anteriormente. Pelo contrário: ajudou a explicar muitos de seus comportamentos.

Dos anos 1920 para o Brasil de 2026

O passado de Dôra também permitiu que A Nobreza do Amor estabelecesse ponte entre o período retratado pela novela e questões que permanecem no Brasil contemporâneo e para Vitória, responder se avançamos ou não exige observar qual Brasil está sendo analisado.

A atriz nasceu em Alagoas e, ao retornar ao lugar de onde veio, diz encontrar reflexos da própria Vitória que saiu dali, especialmente ao observar meninas e mulheres negras: “Consigo passear por esses dois ambientes. E, passando nesses dois ambientes, consigo também observar o que é de retrocesso que não é retrocesso. Que é uma realidade que ainda existe hoje em dia”.

O cabelo é um dos símbolos dessa discussão. Vitória conta que sua mãe ainda alisa os fios, embora tenha justamente dela herdado o cabelo volumoso que hoje usa natural. A repercussão de Dôra tornou essa relação ainda mais significativa.

Pessoas de sua região passaram a torcer para que a personagem abandone os padrões aos quais tenta se adequar e assuma o cabelo natural: “Isso não acontecia na época que eu morava lá”. 

Vitória também passou pela transição capilar e reconhece naquele processo algo que ultrapassa a estética: “A transição só vem a partir da curiosidade. ‘Caramba, como é o meu cabelo hoje em dia? Como é esse cabelo cacheado?’. Você vai se reapropriando”.

Por isso, olhar para Dôra é também perceber que a distância entre os dois períodos pode ser menor do que parece: “É uns anos 20 que muitos dos costumes a gente percebe agora, século 21. Então, não é tão distante assim. E que bom que tem esses personagens para também dar essa chacoalhada, dar esse outro olhar e dizer: ‘Poxa, se a Dôra pode mudar…’.”

“Tudo na Dôra é muito sutil”

Essa transformação também exigiu de Vitória um trânsito entre duas linguagens que convivem dentro da personagem: humor e drama e a comédia é um território no qual a atriz se sente confortável: “O humor é minha área. Eu amo fazer, é o que eu mais amo fazer”.

Justamente por conhecê-lo tão bem, sabe que o recurso também pode empurrar uma personagem para o exagero e a caricatura. Quando as novas camadas de Dôra chegaram, Vitória percebeu que não precisava procurar fora aquilo que já estava nela: “O humor da Dôra está nela”.

E encontrou no caminho oposto ao excesso seu maior desafio: “Tudo na Dôra é muito sutil”.

A parceria com Fábio Lago, intérprete de Bartô, contribuiu para esse equilíbrio. Vitória conta que, durante a preparação, percebeu que o ator já havia pensado bastante sobre o personagem e inicialmente sentiu que também precisaria chegar carregada de propostas.

A resposta acabou surgindo justamente na troca: “Um pode ser o apoio do outro. Porque o outro é seu equilíbrio”.

Assim, o casal conseguiu estabelecer uma comicidade que, para ela, permanece crível: “O lugar engraçado dela é muito gostoso e fica leve num ponto que é bom de fazer, e que a gente acredita”.

Uma atriz de comédia esperando pelo drama

Conforme o passado de Dôra veio à tona, o registro mudou. A mulher que frequentemente ocupava um núcleo mais leve precisou expor uma ferida profundamente dramática.

Vitória estava esperando por isso e gosta da quebra de expectativa provocada quando uma obra conduz o espectador ao riso para, pouco depois, levá-lo a outro lugar. Dôra fez esse percurso gradualmente: “Ela foi fazendo isso aos pouquinhos até chegar no ponto que ela quebrou mesmo”.

Vitória acompanhou a reação do público nas redes sociais e viu espectadores surpresos diante do peso daquela história. Para ela, entretanto, não há contradição entre uma pessoa capaz de provocar risos e alguém atravessado pela dor: “Todo mundo tem seu lado doloroso. Se você for conversar, a pessoa vai chorar ali, por mais alegre que ela seja. Todo mundo tem a sua dor”.

Poder revelar esse outro lado de Dôra foi, segundo Vitória, “um privilégio”: “Eu realmente sempre sonhei com esse momento”.

“Para quem é preto, essa dor nunca vai curar”

Vitória Rodrigues vive Dôra em A Nobreza do Amor, mulher que atravessa as marcas do racismo e do próprio passado enquanto começa a descobrir que seu final feliz também depende do amor por si mesma. Foto: Gabriel Vaguel/Globo.
Vitória Rodrigues vive Dôra em A Nobreza do Amor, mulher que atravessa as marcas do racismo e do próprio passado enquanto começa a descobrir que seu final feliz também depende do amor por si mesma.
Foto: Gabriel Vaguel/Globo.

Um dos momentos mais contundentes dessa transformação aconteceu no desabafo de Dôra com Maria Helena, personagem de Quitéria Kelly. Na sequência, a personagem verbaliza uma dor que ultrapassa sua própria trajetória: “Para quem é preto, essa dor nunca vai curar. Nem que passe mil anos, ninguém se livra da própria história”.

Para Vitória, a frase encontra eco imediato no presente: “Isso acontece até hoje”.

Ela cita o racismo sofrido pelo jogador Vini Jr. dentro do próprio ambiente de trabalho e no auge de sua carreira como demonstração de que posição social, reconhecimento ou sucesso não eliminam determinadas violências: “Parece que tem muito tempo que a escravidão é para mim. Mas não é. É muito pouco tempo. E a gente ainda vive resquícios disso”.

Por isso, quando Dôra fala em mil anos, Vitória entende que aquela mulher dos anos 1920 está dizendo algo reconhecível em 2026: “As pessoas ainda vão olhar torto, as pessoas ainda vão duvidar da sua capacidade, você vai ter que lutar 500 mil vezes. E, vez ou outra, você vai se deparar com essa desigualdade”.

A atriz reconhece no texto dos autores justamente essa capacidade de atravessar épocas: “Não importa se estou nos anos 20 ou se é a Vitória daqui de 2026, infelizmente a gente ainda está se deparando com os resquícios do racismo que existem na nossa sociedade”.

Bartô é também um aliado

A trajetória de Dôra não pode ser separada completamente de Bartô. Ele é corrupto, toma decisões questionáveis e está longe de representar um modelo de virtude. Ainda assim, Vitória encontrou desde o começo uma certeza sobre o casal: existe amor.

Essa relação ganha importância principalmente quando o passado da primeira-dama começa a retornar. Em diferentes momentos, Bartô procura lembrá-la de quem ela é no presente e tenta protegê-la diante daquilo que a machuca: “Isso para a gente é muito importante, saber que a gente tem aliados. Independentemente se eles são complexos, principalmente no momento da dor, que foi o que o Bartô fez”.

Para Vitória, ele consegue oferecer à mulher um impulso importante: “Levanta a cabeça, que aqui você vai ser grande. Você é grande”.

“Ele é um companheiro muito maneiro e um aliado muito importante na trama dela”. Isso explica por que, mesmo diante das loucuras cometidas pelo personagem, a atriz ainda deseja que exista alguma possibilidade para os dois: “Torço muito para que o Bartô se redima”.

“A mocinha e o mocinho da Dôra é ela mesma”

Antes de qualquer redenção de Bartô, entretanto, existe outra pessoa que Vitória quer ver Dôra encontrar: ela própria. A atriz ainda não conhece o final da personagem. As gravações avançaram, mas os rumos permanecem uma incógnita também para quem está fazendo a novela: “Até agora estou amando fazer. Acho que a gente está conseguindo alcançar o coraçãozinho das pessoas da forma mais sutil e importante mesmo, para as pessoas olharem para esse personagem com a humanidade que ele precisa ser olhado”.

Se pudesse escolher o caminho, Vitória começaria eliminando uma coisa: a dor: “Quero cuidar da Dôra, quero que ela seja muito feliz e que encontre ela mesma e se ame”.

É quando a atriz encontra uma definição que praticamente resume toda a trajetória da personagem:“A novela tem o mocinho e a mocinha. A mocinha e o mocinho da Dôra é ela mesma, que ela precisa encontrar e terminar feliz. O final feliz dela mesma. Se amando”.

Uma personagem que Vitória nunca havia visto em uma novela

Quando mais de cem capítulos já passaram e a reta final se aproxima, existe uma pergunta inevitável: o que Dôra deixará em Vitória Rodrigues?

A resposta vem rapidamente: “Ficou tanta coisa”. Mais do que um trabalho importante, a atriz considera a personagem um marco pessoal: “Dôra realmente é um marco na minha vida real. Acho que pode passar 40 anos, eu vou sempre lembrar de estar fazendo essa mulher”.

Parte dessa dimensão vem do lugar histórico ocupado pela personagem. Vitória cresceu assistindo a novelas e viu diferentes produções retratarem a escravidão ou histórias ambientadas nas décadas seguintes à abolição. O que não se recordava de ter encontrado com a mesma profundidade era justamente o espaço intermediário ocupado por pessoas como Dôra: “Nunca vi uma história como a da Dôra ser retratada em nenhuma novela”.

A personagem nasceu livre. Mas sua mãe não teve a mesma possibilidade: “Ela nasceu do ventre livre, mas ela viu a mãe dela morrer escravizada”. A descoberta levou Vitória para além dos roteiros. Ela começou a pesquisar o destino dos filhos de pessoas escravizadas e a tentar compreender o que aconteceu com aqueles que, depois da abolição, foram deixados à própria sorte.

E há algo que a emociona particularmente em Dôra: depois de tudo, ela não perdeu a capacidade de ser doce: “Ela é uma pessoa boa. Acho que a história dela por si só já é muito impactante e importante para aquela dramaturgia. Que venham mais personagens que contem mais as histórias dessas pessoas”.

Depois de Dôra, Vitória quer ocupar outros lugares

Se Dôra representa um marco, Vitória quer transformar tudo o que aprendeu com ela em ponto de partida. A atriz acaba de lançar um livro e começa a circular por feiras literárias, entrando também no universo da literatura. Mas os planos para a atuação continuam grandes: “É óbvio que eu quero fazer muito mais audiovisual. Estou doida para fazer cinema”.

Existe desejo especial de voltar o olhar para sua região: “Estou com o sonho de poder ir para o Nordeste, passar uma temporada lá fazendo cinema nordestino. Não o cinema nordestino que a gente aprendeu pelos estereótipos”.

Mas a vontade de ampliar espaços significa também não ser aprisionada a uma única possibilidade. Vitória quer streaming, novas novelas, cinema e personagens que desafiem tudo aquilo que já fez: “Ser enxergada também como uma atriz que pode fazer qualquer personagem, com qualquer sotaque, que eu possa ter voz em todos os lugares”.

Dôra contribuiu para que enxergasse essa possibilidade. Quando recebeu a notícia de que viveria a primeira-dama de uma cidade, Vitória demorou a acreditar: “Quando me disseram que ia ser a primeira-dama, eu não acreditei. ‘Como assim? Eu? Eu vou ser a primeira-dama?’ Isso foi tão maneiro”.

Para ela, ocupar esse espaço também ajuda a desconstruir imagens estabelecidas durante muito tempo e a abrir possibilidades para uma nova geração de intérpretes. Depois de meses convivendo com o elenco e absorvendo tudo o que a experiência lhe ofereceu, Vitória descreve a sensação de encerramento de maneira bastante particular: “Parece que eu estou saindo da universidade formada”.

Agora quer colocar esse aprendizado em movimento: “Quero muito poder jogar esse aprendizado todo que a Dôra me trouxe ainda mais para frente e me desafiar ainda mais”.

O público começou conhecendo uma primeira-dama elegante, engraçada, conciliadora e empenhada em pertencer. Vitória também. Mais de cem capítulos depois, personagem, atriz e espectadores descobriram a mulher que existia por baixo de tudo aquilo.

Uma mulher nascida livre, mas incapaz de simplesmente se libertar da história que veio antes dela. Uma mulher que aprendeu a diminuir partes de si para caber nos espaços que conseguiu ocupar. E que agora encontra pessoas do outro lado da televisão torcendo para que solte o cabelo, encare o espelho e finalmente reconheça quem está ali.

Vitória também torce. Porque, antes de qualquer mocinho aparecer para salvá-la, Dôra ainda precisa descobrir que pode ser a protagonista do próprio final feliz.

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