Licinio Januário: do sonho de ver heróis negros ao poder de se tornar um deles

Licinio Januário do sonho de ver heróis negros ao poder de se tornar um deles

Foto: Globo/Estevam Avellar

Licinio Januário cresceu em Angola assistindo às novelas brasileiras. A Globo, lembra, está presente no país desde meados dos anos 1990, e foi diante da televisão que ele experimentou algo comum a milhões de espectadores: amou personagens, sentiu raiva de outros e deixou-se envolver por histórias que aconteciam a milhares de quilômetros dali.

Mas havia outro imaginário que precisava buscar em produções estrangeiras. Quando queria encontrar homens negros ocupando o lugar do herói, da aventura e do extraordinário, eram personagens como Pantera Negra, Blade e Hancock que apareciam diante dele.

Hoje, a posição se inverteu e Licinio está dentro da novela brasileira e interpreta justamente um homem negro que ocupa espaços de poder, aventura, ancestralidade, romance e conflito. Dumi, seu personagem em A Nobreza do Amor, trama de Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., começou a história como comandante da guarda de Batanga e braço direito da família real. Com a tomada do reino por Jendal, passou a integrar a resistência e ganhou novas camadas.

Para o ator, existe responsabilidade que ultrapassa a construção individual de um personagem: “Acredito que esse peso e responsabilidade que vivo com Dumi são compartilhados por todos nós. Acho que pelo elenco inteiro, pela proposta da novela, mas principalmente por nós de Batanga e por nós, atores negros. Porque esse lugar da aventura, esse lugar do herói, esse lugar da princesa, é um lugar que foi e continua sendo sonhado por muitos. É um lugar que nossos mais velhos desejavam ver nas telas”.

Licinio conhece o alcance dessas imagens: “A gente sabe o poder que o audiovisual tem, que a televisão tem, a gente sabe o poder que o cinema tem. Então, por muito tempo, tivemos que nos contemplar assistindo personagens com esses arquétipos vindos de fora do Brasil e dos países de língua portuguesa”.

Foi assim que personagens estrangeiros ocuparam esse espaço durante sua formação como espectador: “Tivemos que se contemplar com Pantera Negra, Blade, Hancock, com personagens negros e atores negros construindo esses heróis de aventura. Então, quando essa missão chega para nós, ela vem com essa dualidade”.

De um lado, existe o ator realizando um desejo antigo. Do outro, o espectador que agora pode encontrar na tela aquilo que Licinio também procurou: “Estamos vivendo personagens que sempre quisemos assistir, interpretados por pessoas próximas da nossa realidade e por atores com quem nos identificamos. Personagens que nós, enquanto atores, também sempre desejamos viver. E há o outro lado: saber que hoje o público pode, através da gente, se ver representado nesses personagens que sempre desejou assistir. E isso é importante para a autoestima e para a valorização de quem somos”.

Ele sintetiza: “Sempre ouvimos que somos descendentes de reis e rainhas. Então, existe essa responsabilidade, sim. Hoje estamos representando aqueles heróis que sonhávamos ser quando éramos mais jovens”.

Por baixo do guerreiro, existe um homem

Se Dumi entrou em A Nobreza do Amor com a força do comandante já estabelecida, a transformação política de Batanga obrigou o personagem a abandonar esse lugar e aproximar-se das dificuldades enfrentadas pelo próprio povo.

Para Licinio, é aí que surge um dos maiores desafios de sua composição: “É, nesse momento, o meu maior desafio é exatamente achar essa brecha para mostrar mais esse lado humano, esse lado frágil também, esse lado humano e amoroso do Dumi”.

Antes de mostrar suas vulnerabilidades, foi necessário construir o homem que aprendeu a escondê-las: “Dumi começou a novela com força muito bem estruturada, com essa importância de liderança e comandante muito bem consolidada, em um lugar de muita importância política e social”.

A resistência modifica essa posição: “Quando vem essa nova fase, em que ele está ali junto com o povo, vivendo as mazelas, as dificuldades, ele me dá o desafio de achar essa balança entre o guerreiro e o cara que está ali, que tem sentimentos, que sempre teve, e que, de alguma forma, tinha que esconder esses sentimentos para não se mostrar frágil diante do exército que tinha que comandar”.

Licinio também encontra na caracterização elementos para construir esse imaginário de Batanga: “Me aproprio das vestimentas, do dread que faz parte do nosso núcleo, das lentes que trazem esse lugar diferente. A gente se apropria de tudo isso para dar mais camadas a esse personagem que sempre quisemos viver e que o público sempre quis assistir”.

Dumi (Licinio Januário) enfrenta Jendal (Lázaro Ramos) em uma disputa que coloca em lados opostos a resistência de Batanga e o homem que tomou o poder do reino. Foto: Globo/Estevam Avellar
Dumi (Licinio Januário) enfrenta Jendal (Lázaro Ramos) em uma disputa que coloca em lados opostos a resistência de Batanga e o homem que tomou o poder do reino.
Foto: Globo/Estevam Avellar

“O amor desarma o Dumi por completo”

Existe, porém, o amor por Kênia, uma batalha para a qual nenhum treinamento parece ter preparado: “O amor desarma Dumi por completo” e os capítulos que estão entrando no ar desde a última semana mostram isso muito bem.

Licinio antecipa que aquilo que começou a aparecer na novela ganhará novas proporções: “Já tivemos pequena amostra disso, mas agora vamos entrar em outras camadas de como o amor pode colocá-lo em perigo”.

Dumi suportou as investidas de Kendall porque existia uma missão maior. Sua lealdade a Alika e à família T’Chaka não é apenas política. Há irmandade, gratidão e uma responsabilidade ancestral associada à função que ocupa: “Dumi, pelo bem maior, que é vislumbrar um futuro próspero para o povo de Batanga, com Alika no trono, aguentou muitas agressões e enfrentamentos do lado Jendal. E se manteve firme”.

Até se apaixonar justamente pela filha de seu maior adversário: “Quando surge esse romance com Kênia, ele acaba escorregando muitas vezes. Porque é um sentimento novo e ele mesmo verbaliza isso: ‘Sou um homem de poucas palavras’. É algo que realmente o pegou de surpresa”.

Agora, responsabilidade e desejo passam a disputar espaço: “Ele tenta equilibrar a responsabilidade com Batanga, com Alika e com a resistência, enquanto vive esse amor pela filha do maior rival de Batanga”.

Para Licinio, não existe dúvida sobre a natureza desse sentimento: “É um amor genuíno e por isso ele acaba escorregando nesses sentimentos. Vamos ver até quando ele vai conseguir equilibrar tudo isso e de que forma vai fazer isso. Acho que ele ainda vai sofrer um pouquinho. Talvez mais do que um pouquinho. Spoiler”.

O “Romeu e Julieta de Batanga”

A relação de Dumi e Kênia nasceu em meio a interesses políticos, rivalidades familiares e disputas pelo futuro do reino. Mas Licinio rejeita a interpretação de que o sentimento tenha começado como estratégia. 

Nos bastidores, o casal ganhou até uma definição: “A gente adora fazer esse Romeu e Julieta de Batanga. Tem sido um sonho construir esse casal e viver isso junto com o público”.

A resposta dos espectadores tornou-se parte da experiência: “O público se identificou de primeira com o casal e, desde o começo, a gente trabalhou pensando nessa conexão. O público comprou a ideia e isso tem sido muito legal”.

Mais do que um romance dentro da novela, Licinio chama atenção para o significado de colocar um casal africano no centro desse tipo de conflito amoroso, dentro de estrutura tão difícil, marcada por questões políticas e familiares”.

A identificação acontece porque, apesar do reino fictício e de toda a estrutura épica, existe algo reconhecivelmente humano nesta história: “É um romance que dialoga com os arquétipos de Romeu e Julieta, mas também se aproxima da vida real. Acho que é por isso que o público tem se identificado tanto com Dumi e Kênia”.

Dumi precisa voltar ao poder, mas não como o mesmo homem

Quando pensa em desfecho emocionalmente justo para Dumi, Licinio não separa amor e responsabilidade: “Acho que o lugar ideal para o Dumi finalizar a trajetória dele seria voltar a assumir esse cargo de chefe da guarda”.

Mas recuperar o posto significa também completar um ciclo ao lado de Alika: Na nossa construção, eles são família. O Dumi faz parte dessa família”. 

Essa responsabilidade ultrapassa uma função profissional: “Os cargos que existem ali têm um caráter ancestral. É missão de família ser chefe da guarda. Essas funções passam de geração em geração. Alika é a sucessora do trono, e Dumi vem de uma linhagem que sempre ocupou esse papel de braço direito dos reis”.

Por isso, ajudá-la a recuperar Batanga seria também reencontrar o próprio lugar. Só que existe diferença fundamental entre o comandante do começo da novela e aquele que eventualmente poderia retornar ao posto: “O chefe da guarda tem função muito importante, que é fazer a interlocução entre o povo e a liderança do reino. O Dumi começou ao lado do rei e agora está vivendo junto com o povo. Todo esse período na resistência ampliou sua visão de mundo”.

O poder, depois dessa experiência, teria outro significado: “Se ele voltar para esse cargo, voltará com outro olhar, com mais sensibilidade e com uma vivência diferente e para mim, esse seria um final muito bonito para o nosso guerreiro Dumi”.

“Novela a gente faz junto com o público”

A Nobreza do Amor é a terceira novela de Licinio, que também possui trajetória ligada ao teatro e ao cinema. Para ele, existe particularidade no folhetim que modifica a própria construção dos personagens: a resposta quase imediata de quem está assistindo: “Nitidamente, a novela tem esse lugar imediato e mágico de contato direto com o público. E isso me ajuda muito na construção dos personagens”.

Ator, direção e autores fazem suas escolhas. O espectador responde a elas: “Tenho aprendido bastante a fazer investimentos nas tramas e nos personagens. A gente dá vida, cor, tom e corpo para eles, e acaba propondo caminhos que depois são recebidos pelo público”.

Dumi (Licinio Januário) atravessa poder, ancestralidade, romance e vulnerabilidade enquanto luta pela resistência e pelo futuro de Batanga. Foto: Globo/Estevam Avellar
Dumi (Licinio Januário) atravessa poder, ancestralidade, romance e vulnerabilidade enquanto luta pela resistência e pelo futuro de Batanga.
Foto: Globo/Estevam Avellar

De espectador em Angola a ator de novela brasileira

Existe camada particularmente simbólica nessa relação de Licinio com o gênero, pois antes de experimentar a construção de uma novela do lado de dentro, ele conheceu sua força como espectador. No caso de Licinio, esse “outro lado” estava em Angola: “Cresci vendo novelas. A Globo está presente em Angola desde meados dos anos 1990. Cresci sendo influenciado por elas, sentindo raiva de alguns personagens e amando outros”.

Tornar-se ator modificou sua compreensão daquele processo que durante anos acompanhou apenas pela televisão: “Quando comecei a atuar, entendi que essa construção também passa por nós. Vem dos autores, dos diretores, mas no final somos nós que emprestamos nosso corpo e nossa emoção para que esse contato aconteça com o público”.

Depois de Dumi, Licinio quer encontrar um africano contemporâneo

Dumi ofereceu a Licinio um personagem atravessado por ação, romance, conflito político, ancestralidade e vulnerabilidade: “Dumi realmente me levou a viver muitas camadas e sou muito agradecido por isso”.

A experiência se soma a outros personagens de sua trajetória: “Ação, romance, conflito político, vulnerabilidade. Todas essas experiências foram muito ricas para mim. Com o Dumi, com o Luciano que fiz em Vale Tudo e com o Dominique que fiz em Segundo Sol, fui entendendo melhor os caminhos que me desafiam como ator”.

E aquilo que Licinio deseja encontrar no futuro estabelece interessante contraste com o guerreiro de Batanga: “Hoje, seria muito interessante viver um jovem africano contemporâneo, com família africana estabelecida aqui no Brasil. Um personagem bem-sucedido, galã, envolvido em um triângulo amoroso, seja como mocinho ou como vilão”.

Depois do comandante, do guerreiro, do homem dividido entre o amor e a responsabilidade ancestral, Licinio ainda sabe exatamente qual nova contradição gostaria de experimentar.

E deixa o pedido: “De preferência, seria um vilão contemporâneo, apaixonado, cheio de motivações e conflitos. Acho que seria um lugar muito interessante para explorar como ator”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *