Foto: Nana Moraes
Vencedor do Kikito de Ouro de Melhor Filme no Festival de Gramado, Nosso Segredo chega aos cinemas nesta quinta-feira (27) carregando uma história que Grace Passô começou a elaborar muito antes de assumir pela primeira vez a direção de um longa-metragem. Foram seis anos dedicados concretamente ao filme, mas cerca de duas décadas convivendo com uma narrativa que atravessa sua própria trajetória artística.
“Diria que é um projeto da minha vida. É um projeto que há mais de 20 anos eu me debruço, de alguma forma, sobre essa história”, afirma a diretora em entrevista ao Pittaplay. Para Grace, o reconhecimento conquistado antes mesmo da estreia comercial também funciona como um convite para que o público encontre o filme nas salas de cinema.
Em Nosso Segredo, uma família negra tenta reorganizar a própria existência depois de uma perda. O luto está no centro da narrativa, mas não caminha sozinho. Ao reunir dentro da mesma casa personagens de diferentes idades, Grace coloca também diferentes gerações diante da própria negritude e das maneiras particulares como cada uma delas compreende e enfrenta o racismo: “Essa reunião, de alguma forma, também é uma reunião de como gerações se relacionam com a consciência da sua negritude e, portanto, também com o racismo”, explica.
É nesse encontro que Nosso Segredo deixa de falar apenas sobre a dor particular daquela família. Grace estabelece duas dimensões que caminham paralelamente: existe o luto íntimo dos personagens, mas existe também uma memória coletiva atravessada pelas perdas acumuladas pela população negra ao longo da história: “Nós, pessoas negras, ao longo da nossa história, chegamos até aqui tendo vivido tantos lutos, tantas perdas e tantas ausências”, pontua. Para a cineasta, tanto na intimidade daquela família quanto em uma dimensão histórica mais ampla, a sobrevivência passa necessariamente pelo encontro com o outro: “Só se sobreviveu e só se viveu com dignidade a partir de uma força coletiva, de um afeto coletivo”.
Um filme que não quer explicar tudo
Grace encontra no fantástico, nas alegorias, no silêncio e no suspense a linguagem para transformar essas questões em cinema sem condicioná-las a respostas definitivas. Nosso Segredo não parece interessado em conduzir o público até uma interpretação única. Pelo contrário: quer fazer dele parte da construção da narrativa: “O Nosso Segredo é um convite ao espectador como um participante ativo na elaboração de uma narrativa”, define.
Essa escolha não nasceu especificamente para o longa. Grace conta que existe em seus trabalhos uma busca recorrente por retirar do espectador a posição confortável de quem precisa controlar todas as informações oferecidas pela obra: “Eu não quero explicar nada. Nunca. Tudo que eu faço é um pouco assim. Eu realmente não quero explicar. Quero, através de muita técnica e sensibilidade, criar um campo que seja generoso para o espectador sentir, ampliar sua percepção sensorial e sua sensibilidade”, afirma.
A frase que melhor traduz sua relação com Nosso Segredo vem logo depois: “Sentir, para mim, é um tipo de conhecimento”.
Há provocação nessa concepção. Grace não pensa o público como um consumidor diante de uma história da qual precisa sair carregando respostas prontas. A experiência artística, para ela, pode justamente residir naquilo que não conseguimos imediatamente explicar ou nomear: “É um convite para as pessoas estarem em uma experiência artística sem controlar tudo sobre ela”, diz. “O espectador está ali não para ser um grande consumidor que controla todas as informações, que vai sair com respostas como se respostas de uma ficção fossem produtos, mas para que possa sentir e ampliar a sua sensibilidade no mundo”.
O mistério como linguagem
Essa recusa às explicações também ajuda a compreender a proximidade de Nosso Segredo com o suspense. O longa utiliza elementos reconhecíveis do gênero, mas sem transformar a narrativa em um suspense convencional. A tensão está sobretudo na atmosfera, no mistério e na sensação permanente de que existe algo que ainda não conseguimos compreender: “O suspense, no filme, me ajuda a concretizar o mistério, para que o mistério seja suportável”, explica Grace. Segundo ela, são justamente técnicas conhecidas do gênero que ajudam a sustentar uma obra “cheia de mistérios” e “cheia de fantasias”, mantendo o espectador conectado à experiência proposta pelo longa.
Mas o principal mistério de Nosso Segredo continue sendo profundamente humano. Apesar de compartilharem a mesma perda e habitarem a mesma casa, os integrantes daquela família vivem a dor quase isoladamente. Grace define aquilo que vemos no início do longa como “solidões vividas em conjunto”.
“A gente às vezes está na mesma casa, mas está vivendo em ilhas, cada um com a sua grande dor e suas grandes questões”, observa. É o surgimento de um problema comum que obriga aquelas pessoas a romperem, aos poucos, essas fronteiras individuais e novamente se reconhecerem como coletivo.
A dinâmica familiar volta, então, a encontrar a dimensão histórica que atravessa o filme. Para Grace, o ato de se reunir diante de um problema também possui significado particular quando pensado a partir das experiências negras, tanto na intimidade cotidiana quanto diante de uma história marcada pelo colonialismo: “Acho que tem um pouco a ver com essa medida entre a solidão e o coletivo. E a solidão coletiva também é algo que está muito nas nossas vidas”, resume.
Essa é uma das chaves de Nosso Segredo. Grace Passô constrói um filme sobre aquilo que cada personagem tenta suportar sozinho, mas também sobre o momento em que sobreviver exige reconhecer a presença de quem está ao lado. Um cinema que não pretende explicar a dor, mas criar condições para que ela seja sentida.
Depois de duas décadas convivendo artisticamente com essa história e seis anos trabalhando diretamente para transformá-la em longa-metragem, Grace agora assiste ao filme deixar de ser apenas seu e encontrar o público: “Poder festejar isso é tudo que eu queria para esse projeto neste momento”, celebra.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
