Quitéria Kelly e Maria Helena se encontraram na coragem

Quitéria Kelly revela ao Pittaplay como construiu Maria Helena em A Nobreza do Amor, fala da despedida, das referências para o papel e do que aprendeu com a personagem. Foto: Cris Lucena.

Foto: Cris Lucena

Maria Helena passou boa parte de A Nobreza do Amor diminuindo a própria voz para sobreviver dentro de casa. Romântica, sensível e ligada às artes, aprendeu a interromper sonhos diante das imposições de Fortunato (César Ferrario) e viu até Manoel (Daniel Rangel), o filho que criou com afeto, reproduzir comportamentos daquele ambiente. Até que decidiu partir.

Para Quitéria Kelly, construir essa mulher significou acessar referências artísticas, memórias familiares e também descobrir novos caminhos como atriz. Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, ela conta que o primeiro interesse pela novela nasceu do reencontro com a equipe de Gustavo Fernandez, com quem havia trabalhado em Renascer. Depois veio Maria Helena e uma história que lhe era dolorosamente próxima.

“É a história da minha mãe. É a história de várias outras mulheres. Não foi a minha história porque interrompi antes, mas poderia ter sido. “Minha mãe fugiu de uma pessoa para poder não morrer com a gente, nós três pequenininhos. Então, isso também é uma coisa que me motivou a querer contar também essa história”.

Cassandra e princesa Diana ajudaram Quitéria a encontrar Maria Helena

Para construir uma mulher acostumada a ocupar menos espaço, Quitéria buscou referências de personagens e figuras femininas marcadas pelo silenciamento. Uma delas foi Cassandra, da mitologia grega. Outra veio de um lugar bastante diferente: a princesa Diana.

“Era uma personagem moderna, que estava ali no centro do poder do mundo, mas que você olhava para ela e você via tristeza no olhar, você via a forma como ela baixava a cabeça e se posicionava. Então, esses silêncios foram me dando camadas muito interessantes”.

A composição também nasceu diretamente da relação estabelecida com César Ferrario. Para Quitéria, a maneira como o ator construiu Fortunato ajudou a provocar as reações de Maria Helena e também de Manoel: “César é um motor para a nossa criação. Ele vem com impulso que nos proporciona criar as nossas camadas também, de dores, de silêncios”.

Era nessa dinâmica que surgiam algumas das mudanças mais perceptíveis de Maria Helena. A personagem podia entrar em uma conversa cheia de entusiasmo ao falar sobre seus sonhos e, diante de uma palavra ou reação do marido, recolher-se novamente: “A violência que vem do lado dela é tão mais forte do que a dela, o desejo dela, que ela desiste. Então, essas mudanças, elas vinham por indicação da direção e um pouco também intuitivamente no jogo cênico com César”.

Cena do vestido rasgado funcionou logo no primeiro take

Uma das sequências mais fortes desse processo acontece quando Fortunato rasga o vestido de Maria Helena. A violência da cena exigia também precisão da equipe: havia somente três vestidos disponíveis para a gravação e, consequentemente, poucas oportunidades para repetir o momento.

Quitéria conta que ela, César e Daniel estavam nervosos antes de começarem. A tensão, porém, encontrou espaço na própria cena: “Foi tudo tão incrível, que aconteceu logo primeiro take”.

O diretor Pedro Peregrino chegou a oferecer nova tentativa. Os atores repetiram, mas a primeira permaneceu especial pela organicidade que marcou o trabalho do trio: “A construção é em conjunto. Não tem destaque, é todo mundo muito junto, direção, atores, o texto maravilhoso”.

“Tinha um pouco dessa Quitéria em Maria Helena”

Quitéria Kelly revela ao Pittaplay como construiu Maria Helena em A Nobreza do Amor, fala da despedida, das referências para o papel e do que aprendeu com a personagem. Foto: Estevam Avellar/Globo.
Quitéria Kelly revela ao Pittaplay como construiu Maria Helena em A Nobreza do Amor, fala da despedida, das referências para o papel e do que aprendeu com a personagem. Foto: Estevam Avellar/Globo.

A ruptura definitiva chega quando Maria Helena decide abandonar Fortunato e partir com Murilo, o pianista pelo qual sempre foi apaixonada, interpretado por Breno da Matta. Antes, porém, precisa despedir-se de Manoel. O peso daquela sequência não existia somente dentro da ficção.

A despedida entre mãe e filho foi também a última cena gravada por Quitéria na novela: “Foi muito verdadeira aquela emoção, porque era minha última cena. Foi minha despedida do set, dos colegas de trabalho”.

Quitéria lembra que bastava olhar para Daniel Rangel para a emoção aparecer. Depois de tantos meses construindo aquela relação e atravessando um ciclo de violências na ficção, atriz e personagem chegaram juntas ao momento de partir: “Acho que o que fica muito, e o que eu levo naquela malinha com ela, é uma delicadeza. Um desejo muito grande de viver, de coragem”.

Foi nesse ponto que as fronteiras entre intérprete e personagem se encontraram. Quitéria recordou a própria decisão de sair em busca de sua carreira, deixando coisas para trás sem saber exatamente o que encontraria: “Tinha um pouco dessa Quitéria em Maria Helena e tinha um pouco dessa Maria Helena em Quitéria também”.

A reação das mulheres à liberdade de Maria Helena

Maria Helena (Quitéria Kelly) encontra em Murilo (Breno da Matta) a possibilidade de reencontrar o amor e decide partir com o pianista em A Nobreza do Amor. Foto: Arquivo Pessoal/Quitéria Kelly.
Maria Helena (Quitéria Kelly) encontra em Murilo (Breno da Matta) a possibilidade de reencontrar o amor e decide partir com o pianista em A Nobreza do Amor. Foto: Arquivo Pessoal/Quitéria Kelly.

A partida da personagem também provocou resposta que Quitéria percebe diariamente nas redes sociais. Segundo a atriz, são especialmente mulheres de meia-idade que escrevem contando o quanto se reconheceram naquela história: “É assustador. Pessoas falando assim: ‘Que vontade de fazer a mesma coisa’, ou ‘que pena que eu não fiz, que pena que eu não tive coragem de enfrentar tal coisa’. A vida é muito curta, tá acabando, acaba já”.

Para Quitéria, a história permite tanto que mulheres ainda presas a relações infelizes pensem sobre suas próprias escolhas quanto que aquelas que já não podem refazer determinados caminhos revisitem o passado e façam as pazes com ele.

Existe ainda outra dimensão dessa identificação: Maria Helena não apenas deixa uma relação violenta. Ela se permite reencontrar um amor e ocupar o centro de uma história romântica em outra fase da vida: “Falar do amor nessa idade, falar da possibilidade de se amar e de se ter uma história, um protagonismo dentro de uma história romântica nessa idade, eu acho que complementou o grande público desse horário”.

O destino de Manoel ainda importa para Maria Helena

Quitéria Kelly, Daniel Rangel e César Ferrario dão vida a Maria Helena, Manoel e Fortunato, família atravessada por conflitos, silêncios e violência em A Nobreza do Amor. Foto: Estevam Avellar/Globo.
Quitéria Kelly, Daniel Rangel e César Ferrario dão vida a Maria Helena, Manoel e Fortunato, família atravessada por conflitos, silêncios e violência em A Nobreza do Amor. Foto: Estevam Avellar/Globo.

Apesar da felicidade proporcionada pela partida com Murilo, Quitéria acredita que existe questão que precisaria ser resolvida para completar a trajetória da personagem: Manoel.

A atriz não sabe se Maria Helena voltará à novela na reta final e deixa claro que não recebeu capítulos que confirmem um retorno. Ao imaginar o desfecho ideal, porém, considera importante que a personagem conheça o destino do filho: “Acho que tinha que ter este encontro com o filho, saber o destino dele para ela se sentir completa”.

Ainda assim, a libertação já proporcionou a Quitéria a sensação de alívio de ver uma história de amor se realizar: “A mensagem mais bonita dessa história da Maria Helena é que dê coragem às pessoas que ainda não resolveram suas vidas, que pensem que não vale a pena todo o entorno se a alma, se a gente não leva uma experiência na alma, porque eu acho que é para isso que a gente está aqui na vida”.

Maria Helena também ensinou Quitéria Kelly a chorar

A transformação provocada pela personagem não ficou restrita ao campo emocional. Quitéria revela que A Nobreza do Amor lhe trouxe aprendizado técnico importante como atriz: “Tenho muita dificuldade de chorar e essa sequência da Maria Helena toda foi choro atrás de choro”. 

Diante da possibilidade de recorrer a recursos para auxiliar nas lágrimas, ela decidiu buscar internamente a emoção da personagem: “Não quero usar recurso, eu quero tentar entender onde é que isso me move”.

A própria atmosfera da casa de Maria Helena e Fortunato começou a ajudá-la. O ambiente escuro, iluminado por velas, provocava angústia que Quitéria passou a incorporar. O mesmo acontecia ao encontrar o olhar dos parceiros de cena: “Uma das coisas que eu mais levo como ensinamento deste trabalho foi aprender a colocar a motivação do personagem em você e fazer com que isso saia, que transborde. Maria Helena me deu isso”.

Do palco para a televisão e da televisão de volta ao palco

Com trajetória profundamente ligada ao teatro, Quitéria reconhece que o palco lhe oferece segurança importante quando chega a um set. Diante do público, não há repetição: é preciso entrar e fazer: “A segurança do palco eu levo para o estúdio, porque é assustador o estúdio, principalmente quando dá o ação, tudo muda”.

A televisão, por outro lado, também modifica a artista que retorna ao teatro. A câmera exige outra dimensão de verdade e permite trabalhar registros menores, algo fundamental para uma personagem como Maria Helena: “Foi a primeira vez que construí personagem tão delicada, com sensibilidade. Tenho muita energia e tive que baixar muito pra trazer uma Maria Helena mais calma, com voz mais doce”.

Quitéria cita ainda Jacy, espetáculo que apresenta há 13 anos, como experiência que possui pontos de contato com a personagem da novela. Mesmo assim, buscou encontrar para Maria Helena um corpo e um registro próprios, aproveitando justamente as possibilidades oferecidas pela linguagem televisiva.

Depois de Maria Helena, Quitéria quer experimentar a crueldade

Se Maria Helena exigiu delicadeza, silêncio e contenção, o próximo grande desejo de Quitéria Kelly aponta para o extremo oposto. Depois de também experimentar a direção teatral em A Invenção do Nordeste, a atriz conta que existe um território específico que gostaria de conhecer diante das câmeras: “Tenho muita curiosidade para fazer vilã. A vilania é muito sedutora”.

O desejo ganha ainda outro significado quando Quitéria pensa nos caminhos frequentemente oferecidos a uma atriz nordestina. Ela destaca A Nobreza do Amor por escapar de determinadas representações e apresentar um Nordeste visualmente rico e distante do estereótipo da pobreza.

Agora, quer avançar novamente sobre lugares que ainda não experimentou: “Tenho muita vontade de fazer um personagem cruel”.

Depois de passar meses aprendendo a diminuir a voz para encontrar uma mulher silenciada e, finalmente, permitir que ela tivesse coragem de partir, Quitéria Kelly deixa Maria Helena levando algo consigo. A personagem encontrou a liberdade. A atriz, novos lugares para buscar.

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