Gabriela Curry transforma 25 anos entre Brasil e Portugal em crônicas sobre identidade, liberdade e recomeços

Gabriela Curry transforma 25 anos entre Brasil e Portugal em crônicas sobre identidade, liberdade e recomeços

Foto: Oseias Barbosa

Autora participa da Bienal do Livro de São Paulo e apresenta “Depois que Abri a Porta do Mar – Crônicas Entre Dois Continentes”, obra inspirada em experiências vividas entre os dois países

Viver entre dois países significa, muitas vezes, aprender a pertencer a mais de um lugar e também descobrir que talvez não seja necessário escolher apenas um. Para a jornalista, publicitária e escritora Gabriela Curry, essa experiência se transformou em matéria-prima para a literatura. Depois de 25 anos vivendo entre Brasil e Portugal, ela reúne em seu primeiro livro, Depois que Abri a Porta do Mar – Crônicas Entre Dois Continentes, da Editora Lacre, memórias, recomeços, conflitos de identidade, preconceitos, relações familiares e situações do cotidiano atravessadas pelo humor e pela sensibilidade.

A obra marca também a estreia de Gabriela na Bienal do Livro de São Paulo. Ela participou de um bate-papo no Espaço Escreva Garota ao lado das autoras Kika Gama Lobo e Manika Apsara, em encontro dedicado à literatura e às experiências que deram origem às obras.

O livro nasceu justamente de uma provocação de Kika, que incentivou Gabriela a reunir textos escritos ao longo de diferentes momentos da vida. O resultado é espécie de travessia literária pelo Atlântico, na qual a autora revisita quem foi, quem se tornou e tudo aquilo que aconteceu entre uma margem e outra.

Entre recomeços, malas e duas margens

Para Gabriela, transformar a experiência de viver entre Brasil e Portugal em literatura foi consequência de trajetória marcada por constantes recomeços. Cada mudança de país significava, para ela, deixar uma vida para trás e começar outra do zero.

“Desde que minha trajetória pessoal e profissional começou a ser impactada por esse vai e vem. Percebi que estava trilhando um caminho muito próprio, feito de recomeços. Afinal, toda vez que fechava uma mala com uma passagem só de ida, era uma vida começando do zero no destino e outra ficando para trás na origem”, explica.

Segundo a escritora, esse processo de adaptação é doloroso, mas também oferece material para contar histórias: “Recomeçar tantas vezes nos coloca em espécie de limbo, em sucessivos processos de adaptação, e nos faz atravessar várias ‘mortes’ e ‘renascimentos’. É terrível, tem custos altíssimos em todos os níveis, mas também rende muitos textos”, brinca.

A própria noção de casa também se transformou ao longo dessa trajetória. Se antes a palavra poderia estar relacionada a um endereço ou território, hoje Gabriela a entende de maneira muito mais afetiva.

“Minha ideia de casa mudou, sem dúvida. Casa já não é mais um espaço físico e já morei em algumas ao longo desse vai e vem. Casa passou a ser um sentimento de aconchego, de reencontro com pessoas. É um prato de sopa quente, uma feira de rua, uma água de coco, um amigo. Casa é mais o lugar onde me reencontro do que aquele onde deito para dormir.”

É essa ideia que está por trás do título Depois que Abri a Porta do Mar. Para a autora, o Atlântico possui uma porta imaginária que pode ser atravessada nos dois sentidos: de um lado, Portugal; do outro, Brasil. E, entre os dois, uma vida construída a partir das experiências acumuladas em cada lugar.

Uma conversa com a própria história

Para construir o livro, Gabriela também precisou reencontrar versões mais jovens de si mesma. Entre os textos selecionados estão escritos da adolescência, que passaram por processo de curadoria e, em alguns casos, por pequenos ajustes.

Revisitar essas páginas fez com que a autora percebesse o quanto mudou, sem deixar de reconhecer a pessoa que existia ali. “Que essa Gabriela nasceu assim, mas não será sempre assim”, afirma, aos risos: “No processo de curadoria dos textos para este livro, inúmeras crônicas ficaram de fora e algumas passaram por pequenos ajustes.”

As experiências posteriores, especialmente a vida no Rio de Janeiro e as viagens por diferentes estados brasileiros e países da América do Sul, também transformaram a maneira como ela observa o mundo.

“Mudei muito minha percepção sobre a vida e o mundo depois de morar no Rio de Janeiro e de cruzar tantos estados brasileiros e países da América do Sul. Hoje, tenho um olhar mais sensível, a partir da perspectiva de quem foi colonizado, e isso também mudou a maneira como observo o mundo e conto as minhas histórias.”

Essa mudança de perspectiva aparece de maneira ainda mais evidente quando Gabriela revisita textos antigos e percebe que determinadas situações, que antes eram tratadas como opiniões ou experiências pessoais, hoje ganham outra dimensão.

“Há uma crônica em que narro minhas primeiras experiências no Rio e digo que a cidade é tão pulsante que você é constantemente convocado a ter opinião sobre machismo, feminismo, racismo… Eu revisitei esse texto. Racismo é crime. Machismo mata. Não é opinião. Esse é um exemplo de como meu olhar também mudou ao longo do tempo.”

Jornalismo, publicidade e a escrita como forma de expressão

Antes de chegar à literatura, Gabriela passou por diferentes áreas da comunicação. Formada em Jornalismo pela Universidade do Porto, em Portugal, trabalhou como repórter na TV Bandeirantes e construiu posteriormente uma carreira na publicidade, passando por empresas e agências como Ogilvy, BETC Havas e Rock World.

Para ela, todas essas experiências acabaram se conectando na escritora que se tornou:“Lendo essa sequência, pensei logo em cinema também. Já pensou essa vida em um filme? Este livro é o primeiro, vem muito mais por aí”.

A formação jornalística, no entanto, continua sendo uma das principais bases de seu trabalho: “Aprendo muito em cada área por onde passo e levo o jornalismo comigo para todos os lados: a capacidade crítica, de organização, de análise, de apuração, de trabalhar com informação e de buscar evidências e comprovações.”

Mais do que uma profissão, a escrita aparece para Gabriela como uma linguagem que atravessa diferentes áreas da sua vida: “A escrita é a minha forma de expressão no mundo. Na verdade, ela é transversal a tudo o que faço. Até a forma como envio mensagens no WhatsApp é organizada e, na maior parte das vezes, poética”, conta, novamente com humor.

A liberdade como herança

A relação com a liberdade também aparece como um dos fios condutores de sua trajetória. Gabriela começou a trabalhar aos 16 anos, experiência que, segundo ela, ajudou a construir sua personalidade e seu senso de responsabilidade.

A autonomia veio acompanhada de educação que, em vez de protegê-la excessivamente, permitiu que ela aprendesse a enfrentar o mundo. “Minha mãe jogou a gente no mundo e disse: ‘Se virem. Mamãe estará aqui para colocar mertiolate e band-aid’ e para vibrar também. Ela vibra muito com as nossas conquistas.”

Para a autora, uma trajetória mais protegida provavelmente teria produzido uma Gabriela diferente e talvez o próprio livro nem existisse. “Se eu tivesse sido mais ‘protegida’, se tivessem me dito qual caminho seguir, provavelmente não estaria falando com você hoje.”

A experiência de construir o próprio caminho, com erros e acertos, está diretamente ligada a um valor que considera fundamental: “Este livro, assim como toda essa jornada, é fruto de uma mulher que faz as próprias escolhas, boas e más,e sustenta cada uma delas, custe o que custar. Há um valor absoluto que atravessa toda essa história: a liberdade. E, com liberdade, vem a responsabilidade. Uma não existe sem a outra.”

Gabriela Curry transforma 25 anos entre Brasil e Portugal em crônicas sobre identidade, recomeços e liberdade.
Foto Oseias Barbosa
Gabriela Curry transforma 25 anos entre Brasil e Portugal em crônicas sobre identidade, recomeços e liberdade.
Foto Oseias Barbosa

Transformar a dor em literatura

Entre as experiências abordadas no livro estão episódios de xenofobia e preconceito vivenciados durante os anos em Portugal. Gabriela conta que, especialmente no início de sua trajetória no país, precisou lidar com estereótipos associados às mulheres brasileiras.

Mas, apesar de abordar situações dolorosas, Depois que Abri a Porta do Mar não é definido pela dor. O humor, o cotidiano, as relações familiares e os momentos de leveza também ocupam espaço nas páginas.

Para a autora, essa capacidade de transformar experiências difíceis é parte de quem ela é: “A dor não define a minha vida, e isso é muito doido. Acho que é um traço de personalidade: eu transformo e ressignifico tudo.”

Gabriela também revisita período particularmente difícil de sua vida. Aos 23 anos, enfrentou uma depressão que, segundo ela, durou cerca de cinco anos. O processo foi marcado pelo apoio da mãe e da irmã e por um mergulho profundo em suas próprias feridas.

“Aprendi sobre o mundo e sobre mim mesma coisas valiosíssimas nesses cinco anos. Mas isso não me define. O que me define e pauta a minha vida é o que fiz com tudo isso: a arte de transformar dor em literatura.”

Afinal, brasileira ou portuguesa?

Viver entre dois países também trouxe uma questão recorrente: afinal, a que lugar Gabriela pertence?

A crise de identidade, que durante muito tempo foi uma fonte de conflito, hoje é encarada por ela com mais leveza. A escritora chegou à conclusão de que não precisa escolher uma única identidade cultural.

“As duas coisas, definitivamente! Escrever me ajuda a organizar esses sentimentos duais e as crises entre dois países. E, nesse processo, cheguei a uma belíssima conclusão: não preciso ser uma coisa só.”

Essa mistura aparece inclusive na escrita. Gabriela conta que alterna entre as grafias brasileira e portuguesa e que, no cotidiano, também mistura as duas formas de falar. “No livro, misturo as duas grafias, a brasileira e a portuguesa. No dia a dia, misturo tudo. O interlocutor quase sempre me entende e, se não entende, já temos aí um outro tema para a conversa”, brinca.

Ela lembra ainda de uma situação curiosa vivida profissionalmente. Depois de uma reunião, um cliente tentou definir sua origem e acabou chegando a uma conclusão curiosamente confusa: “‘Gaby, você não é carioca, mas é brasileira. Mas não parece brasileira porque parece de outro lugar. Não sei qual.’ Não é demais? Ninguém nunca sabe exatamente de onde eu sou.”

Para Gabriela, talvez essa impossibilidade de caber em uma definição seja justamente parte da resposta.

Um encontro sem atalhos

A participação na Bienal do Livro representa um momento especial nessa trajetória. Gabriela admite estar vivendo a experiência com entusiasmo, especialmente por dividir o espaço com Kika Gama Lobo e Manika Apsara, justamente ao lado de uma das pessoas que ajudaram a impulsionar a transformação de suas crônicas em livro.

Para além das páginas, ela espera que o público conheça uma mulher que construiu sua trajetória sem seguir caminhos previamente determinados. “Que não pego atalhos. Vou passo a passo, na raça, dando a cara a tapa, de peito aberto e, muitas vezes, saltando sem rede, apenas com fé.”

A escritora também destaca a importância de manter seus princípios ao longo desse percurso. “Sem trapacear, sem passar por cima de ninguém, tentando não machucar ninguém. Me doando, sem amarras, sem cumprir scripts preestabelecidos e, acima de tudo, sendo íntegra.”

Ainda há muitas histórias para contar

Se Depois que Abri a Porta do Mar representa a reunião de 25 anos de experiências, Gabriela deixa claro que a travessia literária está apenas começando. O segundo livro já está em andamento e deve trazer novas histórias.

Curiosamente, ela não acredita que seja necessário esperar anos para transformar uma experiência em literatura. Para Gabriela, algumas das melhores histórias são justamente aquelas escritas próximas dos acontecimentos.

“Há muita história que ainda quero contar, e o segundo livro já está em curso. Não preciso de distância para escrever. Aliás, os melhores textos, na minha ótica, o leitor poderia ter outra visão se soubesse, são aqueles que consigo escrever bem próximos do acontecimento.”

Ainda assim, existem limites. Por mais que considere sua vida praticamente um livro aberto, algumas histórias envolvem outras pessoas e, por isso, precisam permanecer privadas.

“Certamente, há histórias que continuarão sendo apenas minhas. Minha vida é praticamente um livro aberto, mas existem capítulos que não devo expor porque cruzam com outras histórias.”

O que fica, portanto, é a certeza de que a literatura continuará acompanhando suas próximas travessias: “Mas a vida é um palco vivo. Onde houver uma luta a ser travada, escreveremos. Um enfrentamento a ser digerido, escreveremos. Uma dor a ser ressignificada, escreveremos. Uma crise a ser ultrapassada, escreveremos.”

E resume: “Enquanto houver vida, haverá literatura.”

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