Julia Gorman mergulha na vulnerabilidade de Daisy em Emergência 53 e fala sobre interpretar mulheres à margem

Julia Gorman mergulha na vulnerabilidade de Daisy em Emergência 53 e fala sobre interpretar mulheres à margem

Foto: Elisa Maciel

Atriz interpreta personagem marcada por situação de violência em episódio da série original do Globoplay e também comenta trajetória no teatro e no audiovisual

Em carreira construída entre o teatro, a televisão e o cinema, Julia Gorman tem encontrado nas personagens diferentes oportunidades de explorar novas facetas da atuação. Em “Emergência 53”, série original do Globoplay que acompanha histórias ambientadas no universo de emergência hospitalar, a atriz interpreta Daisy, uma mulher que chega à narrativa a partir de situação de violência e cuja história ganha contornos ainda mais complexos conforme o episódio avança.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, Julia comenta que o desafio estava em não reduzir Daisy ao trauma que atravessa sua trajetória. A atriz buscou construir uma mulher que existisse para além daquela situação, criando, inclusive, uma história particular para a personagem que não aparece necessariamente na tela, mas que ajudou a dar profundidade à interpretação.

“Gravei as cenas da Daisy ano passado, quando meu filho ainda tinha 1 ano e pouco e ainda mamava. Foram gravações noturnas, então eu lembro que meu peito enchia de leite enquanto eu interpretava essa mulher que precisava andar pelo Aterro do Flamengo à noite em busca de programas”, conta.

A experiência da maternidade acabou se tornando espécie de ponto de conexão entre Julia e Daisy. A atriz imaginou que sua personagem também poderia ser mãe e ter um bebê sendo cuidado por outra pessoa enquanto tentava trabalhar: “Acabei trazendo um pouco da minha vivência de mãe para a Daisy e imaginei que ela também podia ter um bebê sendo cuidado por alguém, enquanto tentava trabalhar, e isso me deu outra percepção da personagem e de suas lutas. Foi uma historinha que eu criei e que ninguém sabia, mas que me encheu de subtexto”, revela.

A construção de uma cena de violência

Interpretar situações de violência exige não apenas entrega emocional, mas também preparação cuidadosa para garantir a segurança dos profissionais envolvidos. Julia, que se define como atriz visceral, percebeu ao longo da carreira que intensidade e sofrimento real não precisam ser confundidos.

“Sempre fui uma atriz muito visceral e quando era mais jovem, confundia violências com verdade cênica. Hoje em dia entendi que uma cena estudada junto, ensaiada, combinada, não perde intensidade ou verdade, ela só ganha mais entendimento e ninguém sai traumatizado da experiência”, explica.

Nesse processo, a presença da coordenadora de intimidade foi fundamental para estabelecer limites e construir as cenas de maneira segura, sem abrir mão da força dramática: A própria situação retratada também trouxe uma camada de tensão para a atriz. Mesmo sabendo que tudo fazia parte de uma obra de ficção e que as cenas haviam sido previamente ensaiadas, Julia conta que não conseguiu ignorar a possibilidade de aquilo acontecer na vida real.

“Foi justamente essa proximidade que me alimentou. É mais difícil imaginar algo muito distante da gente. A gente usa a imaginação quando é assim… mas quando consigo me imaginar na mesma situação, não tem como não se emocionar, não sentir medo”, afirma.

A gravação ainda aconteceu em locação real, durante a madrugada, o que tornou a experiência ainda mais intensa. “No dia da gravação eu realmente senti medo. Não dos outros atores, nem da cena em si que tinha sido ensaiada. O Aterro do Flamengo de madrugada não é um estúdio, uma cidade cenográfica, ele é real. Os perigos são reais. Quem é do Rio de Janeiro vai entender do que estou falando”, completa.

Uma relação marcada pela cumplicidade

No episódio, Daisy também estabelece relação importante com a personagem interpretada por Ana Hikari. Julia prefere, porém, preservar os detalhes desse encontro para não antecipar acontecimentos da trama e atrapalhar a experiência de quem ainda não assistiu: “Não posso falar muito da relação de Daisy com a personagem da Ana Hikari, mas as duas têm muita cumplicidade. Vão ter que assistir o episódio pra entender do que estou falando”.

Apesar do mistério, a atriz sabe exatamente o que gostaria que permanecesse com o público depois dos créditos. Mais do que apenas acompanhar a história de Daisy, Julia espera que o episódio provoque olhar mais empático para mulheres que vivem em situações de vulnerabilidade: “Não julguem as trabalhadoras do sexo. Tenham empatia, protejam-nas, defendam-nas. Ninguém sabe o que cada um passou nessa vida para chegar onde chegou… principalmente mulheres à margem. Precisam ser cuidadas, respeitadas e amadas”, defende.

Julia Gorman vive Daisy em “Emergência 53” e Carmen em “A Nobreza do Amor”, personagens que mostram a versatilidade da atriz entre o drama e a comédia. Foto Elisa Maciel
Julia Gorman vive Daisy em “Emergência 53” e Carmen em “A Nobreza do Amor”, personagens que mostram a versatilidade da atriz entre o drama e a comédia.
Foto Elisa Maciel

Entre o drama e a comédia

Se Daisy representa experiência mais densa, Julia também vem explorando personagens de registros completamente diferentes. Em “A Nobreza do Amor”, por exemplo, interpreta Carmen, uma cantora que chega com uma personalidade muito distinta da personagem de “Emergência 53”.

Para construir Carmen, a atriz buscou referências em grandes intérpretes da música brasileira e procurou deixar evidente, desde sua chegada, a posição que aquela mulher ocupava dentro da história: “Queria que o público entendesse que ela era uma forasteira. Uma mulher que veio do Sudeste, famosa, com a carreira de cantora estabelecida. Uma mulher autoconfiante, solteira e moderna para seu tempo. Que deseja, que flerta… por isso que D. Geralda fica tão incomodada. Carmen representa um desvio no caminho de seu amado filho, Adônis”, explica.

A dinâmica entre Carmen e Adônis também segue caminho mais leve e divertido, especialmente por estar inserida no núcleo da pensão de D. Geralda. “Eu amei que as cenas da Carmen foram por esse caminho. Até porque o núcleo da pensão de D. Geralda tem também essa pegada da comicidade. Eu acabei me encaixando numa dinâmica já muito bem construída pelos atores que já faziam a novela”, conta.

A versatilidade aparece como uma constante na trajetória de Julia, que já passou pela comédia em “Meu Passado Me Condena” e por trabalhos mais densos, como “Dependentes” e “A Suspeita”. Para ela, independentemente do gênero ou do tamanho do papel, toda personagem representa uma possibilidade de descoberta.

“Toda personagem tem algo novo para ensinar e acaba mostrando para a gente uma parte de nós que ainda não conhecíamos”, afirma.

Na visão da atriz, o trabalho começa pela compreensão da lógica interna daquela pessoa. Medos, sonhos, objetivos e escolhas precisam fazer sentido para quem está interpretando, mesmo quando não necessariamente fazem para quem assiste.

“Acho que em todo o trabalho temos que abrir espaço interno para entender a lógica daquele personagem, porque ela faz o que ela faz, seus medos, sonhos, objetivos. Construir a lógica interna da personagem e defendê-la durante o trabalho é o que significa atuar, no meu entendimento”, explica.

Uma atriz formada entre palcos e telas

A relação de Julia com a atuação começou ainda na infância, influenciada também por suas experiências com a mãe. Hoje, olhando para a trajetória construída, ela percebe que a menina que sonhava com a profissão já tinha uma ideia bastante clara do caminho que queria seguir: “Pensei nisso outro dia e acho que a Julia criança já sabia exatamente onde queria chegar. Eu falava que ia ser cantora, ‘atora’ e escritora. O que de fato aconteceu!”, relembra, com bom humor.

O teatro continua sendo parte importante dessa trajetória. Atualmente, Julia pode ser vista como Rita Lee em “Ritinha Rock & Roll – Rita Lee para Crianças”, além de ter participado recentemente do musical “Tim Maia – Vale Tudo”, no qual interpretou Marisa Monte.

A experiência no palco, segundo ela, oferece liberdade particular para a construção de personagens, inclusive quando as características físicas do ator não correspondem às da pessoa retratada: “O teatro permite que a gente viva personagens que o nosso perfil físico não permitiria se fosse no audiovisual. Por exemplo, recentemente interpretei a Marisa Monte no musical Tim Maia – Vale Tudo. Se fosse um filme do Tim Maia, com certeza eu não poderia interpretá-la, já que fisicamente não temos nenhuma semelhança. Mas no teatro, com uma peruca e um figurino, milagres acontecem”, comenta, aos risos.

“E pelo outro lado, no audiovisual dá pra explorar certas sutilezas na interpretação que o teatro não permite. Eu amo as duas linguagens”, completa.

Ainda há muito a descobrir

Mesmo depois de transitar por diferentes personagens, gêneros e linguagens, Julia não acredita que tenha chegado a um ponto definitivo em sua trajetória. Para ela, a profissão continua sendo também processo de descoberta, inclusive fora dos palcos e das telas.

“O que tenho aprendido recentemente é saber me vender melhor no mercado, não ter vergonha de me divulgar. Sempre fui meio tímida nas redes sociais e estou tentando melhorar!”, revela.

Entre Daisy, Carmen, Rita Lee e tantos outros trabalhos, Julia Gorman segue construindo carreira marcada pela diversidade. E essa disposição para olhar para cada personagem como nova possibilidade de descoberta que permite à atriz continuar transitando entre universos tão diferentes sem perder aquilo que parece ser o ponto central de seu trabalho: encontrar humanidade mesmo nas histórias mais distintas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *