Foto: Beatriz Damy
Quando Guilherme Gobbi recebeu o texto completo de Pergunte Alguma Coisa, sua primeira preocupação como diretor não era compreender até onde a inteligência artificial poderia chegar, mas em descobrir como aquela discussão poderia existir sobre um palco. Computadores, códigos visuais tecnológicos e interpretação robotizada ofereciam caminhos imediatos, mas distantes da peça que ele queria construir.
Em cartaz no Tucarena, em São Paulo, desde agosto, o espetáculo estrelado por Daphne Bozaski e Gabriela Medvedovsky entra na reta final de sua temporada propondo encontro curioso entre tema e linguagem. Enquanto a dramaturgia de Gustavo Pinheiro discute tecnologia capaz de ocupar espaços cada vez maiores da vida cotidiana, a direção procura respostas no corpo, na presença e na relação entre duas atrizes diante de uma plateia.
“Quando veio ele completo, pensei em como sair do lugar comum e como traduzir isso em cena para o palco, numa linguagem tão viva, tão direta, tão humana. Quis fugir dos clichês de computador, de linguagem robótica, de signos que remetessem à tecnologia”, conta em entrevista exclusiva ao Pittaplay.
A inteligência artificial precisava parecer humana

A resposta começou a aparecer quando Guilherme retornou ao elemento essencial daquela encenação: a relação entre as personagens. Ao lado de Débora Lamm, convidada para acompanhar sua primeira direção teatral com um olhar externo, ele decidiu que a inteligência artificial interpretada por Daphne não seria construída como a representação convencional de uma máquina.
O diretor queria que as duas personagens carregassem humanidade suficiente para preservar durante parte do espetáculo a dúvida sobre quem está diante do público. Essa escolha alcançou o figurino, a aparência, a interpretação e a maneira como os corpos ocupam o espaço. As duas funcionam como reflexos uma da outra, embora pequenas diferenças revelem estados bastante distintos: “Essa peça é muito mais sobre o humano do que qualquer outra coisa, a IA é totalmente humanizada e trabalhamos como duas mulheres que estão ali numa relação”, explica.
O movimento ganhou importância nesse processo. Guilherme imaginava desde as primeiras leituras uma encenação fisicamente ativa, em alguns momentos próxima de uma coreografia, e convidou Fabrício Licursi para assumir a preparação corporal e a direção de movimento. O trabalho procurou estabelecer comportamentos próprios para cada momento da história sem transformar a inteligência artificial em uma sucessão previsível de movimentos mecânicos.
Encontrar onde dói em cada uma delas

A humanidade procurada na IA também precisava existir na personagem de Gabriela. Conforme tenta sustentar seu controle sobre a conversa, a mulher revela ansiedade, contradições e fragilidades que alteram a relação estabelecida entre as duas.
Guilherme conta que o processo com as atrizes buscou compreender as dores por trás de cada personagem, incluindo pesquisa sobre comportamentos e experiências que pudessem aproximar aquele colapso de situações reconhecíveis pelo público: “O meu trabalho, não só com a Gabriela, mas com a Daphne também, foi encontrar o humano nelas. Onde dói? Quem é essa IA? Que pessoa seria essa IA?”, relembra.
Essa procura também ajuda a explicar a identificação que o diretor percebeu entre os espectadores. Para ele, a personagem de Gabriela concentra questões relacionadas à ansiedade e a um estado de esgotamento presente na vida de muitas pessoas, enquanto a inteligência artificial aparece como parte de uma realidade da qual já não é possível simplesmente fugir.
O Tucarena mudou os caminhos da direção
A disposição do público ao redor das atrizes parece tão integrada à proposta de Pergunte Alguma Coisa que poderia ter nascido junto com o projeto. O caminho foi diferente e Guilherme havia começado a pensar a montagem para um palco italiano quando a produção conseguiu o Tucarena, ainda antes do início dos ensaios.
A mudança obrigou o diretor a estudar as possibilidades de uma arena e reconstruir sua concepção a partir daquele espaço. A proximidade entre atrizes e espectadores, inicialmente encarada como um desafio, acabou se tornando parte fundamental da experiência: “Hoje não consigo mais imaginar esse espetáculo não sendo numa arena. Toda a minha concepção funciona muito bem ali e fiz pensando desta maneira”, afirma.
Guilherme também projeta uma vida para o espetáculo depois da temporada paulistana e considera apresentações em outros espaços no próximo ano. A mudança para teatros com configurações diferentes exigirá nova leitura da encenação que hoje ocupa o Tucarena.
Uma pergunta que continua depois que a peça termina

Ao colocar a inteligência artificial diante do público, Pergunte Alguma Coisa também poderia assumir a função de anunciar perigos ou oferecer respostas sobre como devemos nos relacionar com essa tecnologia. Guilherme prefere que a montagem entregue ao espectador elementos suficientes para que a reflexão continue fora do teatro: “Oferecemos material para que cada um chegue à sua própria conclusão. O barato de fazer teatro hoje em dia, de fazer arte em geral, é plantar uma semente e cada um vai entender aquilo de uma forma”, diz.
O diretor conta que uma das respostas mais interessantes que recebe acontece quando descobre que o espetáculo continuou sendo discutido depois da sessão. A conversa que chega ao jantar, provoca discordâncias ou faz alguém reconhecer os próprios comportamentos cumpre uma função que estava presente desde a criação.
Essa escolha encontra sentido também no formato escolhido para contar a história. Enquanto a inteligência artificial avança sobre diferentes atividades humanas, Pergunte Alguma Coisa existe em linguagem dependente do encontro entre pessoas. Para o diretor, guerras, transformações tecnológicas e até a pandemia modificaram o teatro sem eliminar a necessidade de compartilhar uma experiência ao vivo: “Nada substitui o ao vivo, a presença. A força que você tem de ver um ator ali na sua frente, sem edição, de ouvir um texto sendo dito ali na sua frente, acompanhando as escolhas, a troca, o calor, a reação da plateia.”
É nessa defesa da presença que a direção de Pergunte Alguma Coisa encontra sua resposta para uma história cercada por perguntas sobre tecnologia. Guilherme levou a inteligência artificial para o palco e decidiu procurar nela aquilo que ainda diz respeito a nós: “Estamos usando isso para falar do humano. É sobre as nossas conexões que estão se perdendo, é sobre as relações. É uma peça sobre o estado do mundo.”
Pergunte Alguma Coisa segue em cartaz no Tucarena, em São Paulo, até outubro.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
