Jéssika Alves encontra suas personagens quando as certezas começam a ruir

Jéssika Alves conversa com o Pittaplay sobre Siloé, Batya e Giovana, seu processo como atriz e a construção de mulheres que confrontam suas certezas.

Foto: Adri Lima

Jéssika Alves se interessa pelo instante em que uma personagem já não consegue responder à vida usando as certezas que possuía. É quando a convicção encontra a contradição que começa, para ela, parte fundamental do trabalho de atriz. Siloé, Batya e Giovana chegam em sequência à sua carreira com universos distintos, mas aproximadas por mulheres que precisam decidir como responder ao que acontece ao redor delas.

“O ser humano é muito complexo, e o que me interessa como atriz é exatamente essa complexidade: por que eu faço o que eu faço? Às vezes, nem eu entendo, mas, como atriz, preciso encontrar e investigar essas motivações nas minhas personagens, sejam elas conhecidas ou desconhecidas”, conta Jéssika em entrevista ao Pittaplay.

Essa investigação acontece antes de chegar ao set. A atriz procura estabelecer uma base que lhe permita compreender internamente a personagem e, depois disso, abrir espaço para viver a cena. “Depois de construir essa base sólida para caminhar, vou sem medo para o set viver tudo o que a personagem precisa, porque já entendo internamente a sua psique.”

Siloé permanece porque acredita naquilo que construiu

Em Siloé, de Reis, o amor passa pelo compromisso que a personagem assumiu com a própria família. Sua relação com Onri enfrenta decepções e escolhas difíceis, colocando em discussão até onde um sentimento consegue sustentar uma relação quando determinadas atitudes começam a produzir feridas.

Jéssika se define como uma romântica e acredita no amor, mas sua leitura passa também pelo trabalho necessário para mantê-lo: “Quando se olha para os relacionamentos, o amor também é feito de escolhas, acordos e de uma construção diária. Existem atitudes das quais não tem como voltar atrás, e isso vai além do sentimento.”

A atriz estabelece uma distância importante entre aquilo que faria e as decisões tomadas pela personagem. “A Siloé aceitou muita coisa que eu, Jessika, não aceitaria.” Interpretá-la, portanto, exigiu compreender a lógica de uma mulher sem obrigá-la a agir conforme suas próprias convicções.

Mesmo inserida em outra época, Jéssika entende que Siloé possuía escolhas e decidiu permanecer. A chave encontrada para sustentar essa decisão foi a família: “Tudo o que construí para ela, todos os seus porquês, tinham esse objetivo final.”

Siloé suporta e Batya confronta

Jéssika Alves conversa com o Pittaplay sobre Siloé, Batya e Giovana, seu processo como atriz e a construção de mulheres que confrontam suas certezas. Foto: Adri Lima
Jéssika Alves conversa com o Pittaplay sobre Siloé, Batya e Giovana, seu processo como atriz e a construção
de mulheres que confrontam suas certezas. Foto: Adri Lima.

Pouco depois, Batya que vai brilhar na super-produção da Record, Ben-Hur, colocou Jéssika novamente diante de uma mulher marcada pelo sofrimento, mas exigiu outra resposta interpretativa. A diferença entre as duas personagens aparece menos na tragédia que enfrentam e mais na maneira como reagem a ela: “A Siloé absorve muito mais, suporta, permanece. A Batya reage, confronta, tenta mudar aquilo que está vivendo.”

Essa oposição permitiu que Jéssika começasse uma construção nova. Quando Batya chegou, segundo ela, Siloé já havia ficado para trás. A atriz preferiu partir do zero e descobrir a nova personagem sem carregar comportamentos estabelecidos no trabalho anterior.

Batya quer ser amada, vista e cuidada. Ao perseguir essas necessidades, também faz escolhas perigosas e coloca a própria vida em risco. O amor pelo marido permanece, mas convive com um desgaste que o casal já não consegue administrar.

Nesse ponto, personagem e atriz voltam a se separar: “Não acredito em um amor que nos fere. Para mim, amor é sobre cuidado e proteção. Então, se algo não está de acordo com isso, precisamos ter coragem e maturidade para enfrentar as conversas e as decisões difíceis.”

A contradição ajuda a dar corpo a Batya. Ela possui coragem para reagir ao que recebe da vida, mas essa reação também pode conduzi-la a caminhos capazes de machucá-la.

Giovana esconde muito mais do que sua aparência permite enxergar

Com Giovana, de Divisão de Homicídios, Jéssika entra em outro território. Luto, desconfiança, conflitos familiares e relações afetivas fazem parte de uma personagem cuja aparência inicial pode induzir o público a uma leitura incompleta: “É uma personagem com conflitos internos gigantescos. À primeira vista, você acha que ela é frágil e manipulável, mas, por dentro, existem questões existenciais que a tornam outra pessoa, capaz de coisas que a gente não imagina.”

A construção se apoia na coexistência de sentimentos que dificultam respostas simples. Amor, culpa, mágoa e insegurança participam das relações de Giovana e tornam suas motivações menos evidentes.

Para Jéssika, interpretar alguém assim exigiu abandonar qualquer julgamento prévio sobre suas atitudes: “A gente não sabe o que realmente se passa na cabeça dela em nenhum momento. Interpretar essa personagem foi um grande desafio, e eu sabia que era tudo ou nada: ou eu mergulhava de cabeça, sem julgamentos, ou ela não iria acontecer.”

“Não vitimizá-las”

Siloé, Batya e Giovana são profundamente afetadas pelos relacionamentos que construíram. Maridos, familiares e outras pessoas interferem em seus caminhos, mas Jéssika estabelece um princípio para impedir que essas mulheres sejam definidas somente pelo que os outros fazem com elas: “Não vitimizá-las, elas são responsáveis pelo que estão vivendo.”

A afirmação não elimina acontecimentos que escapam ao controle das personagens. A própria atriz reconhece a existência de fatalidades e situações inesperadas e o ponto está na resposta dada depois delas: “Mesmo quando é sobre fatalidades, a maneira como vamos lidar com elas é escolha nossa. Não dá para terceirizar a responsabilidade. E isso pode parecer radical, mas faz delas mais fortes.”

A resposta também ajuda a compreender seu método. Jéssika procura os motivos porque é nas escolhas que encontra quem cada mulher é. Siloé permanece, Batya confronta e Giovana guarda possibilidades que ainda desafiam a percepção sobre ela. As relações interferem profundamente nas três, mas nenhuma termina onde o outro começa.

Duas décadas depois, o processo também virou parte do prazer

A experiência acumulada ao longo de cerca de duas décadas de televisão mudou a maneira como Jéssika encara personagens mais intensas. A maturidade, para ela, aparece também na relação com o próprio ofício: “Me sinto muito mais madura hoje para viver personagens mais intensas e profundas. Eu me apaixonei pelos processos, e não apenas pelo resultado.”

As inseguranças que encontrou ao longo da carreira foram respondidas com estudo e aperfeiçoamento, movimento que ela considera permanente: “Acredito que, nessa profissão, você nunca está 100% pronto para um personagem. Sempre virão desafios diferentes.”

É uma percepção que conversa diretamente com a atriz interessada em personagens quando suas certezas começam a ser confrontadas. Jéssika também entende seu trabalho como um processo que permanece aberto àquilo que ainda precisa aprender e Siloé, Batya e Giovana não saíram desse encontro deixando apenas cenas prontas. Cada uma devolveu algo à atriz que precisou criá-la: “É impossível criar uma personagem sem confrontar as próprias certezas. A Siloé me marcou pela fé; a Batya, por me mostrar que não é preciso ser forte o tempo todo; e a Giovana, por me mostrar que existem limites que não podem ser atravessados.”

Jéssika Alves começa procurando as contradições de suas personagens para compreender por que elas fazem aquilo que fazem. Ao final do processo, a investigação também percorre o caminho contrário. Enquanto a atriz modifica Siloé, Batya e Giovana para lhes dar existência, as três encontram alguma certeza de Jéssika pelo caminho e deixam nela uma pergunta diferente daquela que existia antes.

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