Bruno Caldeira transforma dores, perguntas e coragem em cena no monólogo EGO

Bruno Caldeira entrega intensidade e presença no monólogo EGO. Foto: Camila Babsky.

Há peças que começam no palco. Outras nascem antes, em silêncio, dentro de quem as escreve. No caso de EGO, monólogo estrelado e escrito por Bruno Caldeira, tudo começou em território invisível: o encontro entre inquietações íntimas, leituras transformadoras e a necessidade de colocar perguntas no mundo.

Em entrevista à coluna Cena Aberta, do Pittaplay, Bruno falou sobre a origem do espetáculo, os riscos emocionais de se expor em cena, o peso de sustentar um monólogo sozinho e o retorno de um público que sai do teatro olhando para dentro de si.

O desafio de escrever e interpretar o próprio texto

No palco, Bruno Caldeira transforma perguntas em experiência cênica.  Foto: Camilla-Babsky
No palco, Bruno Caldeira transforma perguntas em experiência cênica. Foto: Camilla-Babsky

Bruno explica que assinar a dramaturgia e defender a obra em cena não tornou o processo mais simples. Pelo contrário. Para ele, são funções diferentes, que exigem movimentos internos distintos.

“Foi muito complexo, porque o processo da escrita é totalmente diferente do processo criativo”, contou. Segundo o ator, muita gente imagina que atuar em texto próprio seja mais fácil, mas ele discorda: “Não é. Uma coisa é o texto escrito e outra coisa é eu me tornar aquele texto”.

Ao reler o material criado por ele mesmo, Bruno diz sentir até certo distanciamento. Isso, em vez de facilitar, tornou tudo ainda mais delicado: “Fica mais complexo ainda, porque é um texto muito filosófico, trata de um tema que não é fácil falar: o ego”.

Como nasceu EGO

A semente do espetáculo surgiu após a leitura de O Despertar de Uma Nova Consciência. Bruno relembra que o livro o atingiu de forma intensa e imediata: “Quando acabei de ler, fiquei chocado. Juro por Deus. Passei mais ou menos uma semana mudo. Eu precisava levar para o teatro esse mesmo impacto que o livro me causou”.

Ele explica que o conteúdo da obra fala do ego do início ao fim, abordando dores, conflitos, embates e formas como esse ego aparece e se esconde nas relações humanas.

A peça, no entanto, não é uma adaptação literal: “Eu falo que é uma desconstrução do livro, uma inspiração nele”, afirmou. A partir disso, Bruno misturou novos elementos: sonhos, estados de consciência, sensações e questões existenciais.

“Fiz as pazes com o meu ego”

Corpo, voz e verdade: Bruno Caldeira em um espetáculo que atravessa o público.  Foto: Camila-Babsky
Corpo, voz e verdade: Bruno Caldeira em um espetáculo que atravessa o público. Foto: Camila-Babsky

Ao longo da construção do espetáculo, Bruno afirma que a principal mudança aconteceu dentro dele mesmo. O contato contínuo com o tema o fez rever resistências e mudar a forma como se enxerga: “O principal para mim foi ter feito as pazes com o meu ego”.

Ele lembra que, antes da peça, falar sobre ego costumava gerar defesas imediatas: “Quando se falava do ego, todo mundo tem um pouco de resistência”. Hoje, a postura é outra: “Se alguém quiser falar do meu ego, eu vou parar, vou escutar, vou aceitar com a maior humildade”.

Para Bruno, o espetáculo também o tornou mais simples diante da vida: “Acho que a peça me deixa mais humilde”.

A dor pessoal levada ao palco

Parte importante do texto nasce de experiências reais. Bruno conta que um dos momentos centrais do espetáculo envolve a morte de uma gata, episódio que o marcou profundamente: “Foi muito doido para mim, muito traumático realmente. O modo como a gata morreu para mim foi um impacto absurdo”.

Ele diz que carregou essa dor por mais de um ano, até decidir transformá-la em arte e relacioná-la com reflexões sobre o ego: “Todas as vezes que chego para falar da morte da gata, me sinto bem vulnerável”.

Segundo o ator, a exposição traz medo de julgamento: “Será que eles vão achar que foi um ato de crueldade? Será que vão achar que foi acidente?” Ainda assim, escolheu manter esse trecho no espetáculo.

Falar de si para tocar o outro

Bruno explica que, durante a montagem, houve preocupação clara: evitar apontar dedos para o público. Em vez disso, decidiu falar sempre em primeira pessoa. Ele diz que expõe suas dores, fraquezas, processos mentais e momentos de loucura emocional: “Puxo meu erro, puxo quem eu sou nas minhas dores”.

Mesmo assim, ou talvez justamente por isso, percebe forte identificação de quem assiste: “Todo mundo tem se identificado. Acho que exatamente porque eu falo de mim”.

O relato de uma senhora de 80 anos

O palco vira espelho nas mãos de Bruno Caldeira. Foto: Camilla-Babsky.
O palco vira espelho nas mãos de Bruno Caldeira. Foto: Camilla-Babsky.

Entre as devolutivas que mais o marcaram, Bruno cita espectadora de 80 anos que foi ao teatro acompanhada da filha: Ao final da sessão, em vez de ir embora, ela quis sentar para conversar e permanecer no impacto da experiência. Depois, a filha mandou mensagem ao ator: “Ela disse que, através da sua peça, estava fazendo análise da vida dela inteira, da adolescência até hoje, aos 80 anos”.

Bruno se emocionou com o alcance inesperado da obra: “Tô falando de mim, da minha vida. Ao mesmo tempo, isso fez uma senhora de 80 anos avaliar a vida dela”.

Entre muitas frases da peça, há uma que Bruno afirma sentir de forma especial a cada apresentação: “Até que ponto é difícil viver consigo mesmo?” Ele admite que o questionamento o atravessa profundamente. Segundo Bruno, quando ele entra nesse processo de autoanálise, a plateia costuma fazer o mesmo.

O medo de sustentar um monólogo

Sozinho em cena durante uma hora e quinze minutos, Bruno encara o desafio técnico e emocional do formato: “É um pesadelo”, resumiu, antes de rir da própria sinceridade.

Ele conta que ainda entra em cena com medo de se perder no texto ou no ritmo da narrativa: “Até hoje não aconteceu, mas entro no palco morrendo de medo”. Antes de começar, faz ritual íntimo de concentração: “Tento me conectar com meus orixás, com meus ancestrais, com minhas entidades, com meus avós que já morreram”.

Essa ligação com o invisível o fortalece: “Acabo não me sentindo sozinho em cena e, a partir disso me sentindo protegido”.

O público em estado de presença

Antes da estreia, Bruno tinha medo de que a peça parecesse cansativa para uma sociedade acostumada à pressa: “Hoje ninguém consegue ouvir um áudio de três minutos. Vão ficar uma hora e quinze ouvindo uma peça?”

Mas o que encontrou foi o oposto. Plateias concentradas, silenciosas e profundamente presentes: “Comecei até a dar pausas maiores para testar o público. Fico parado, olhando para a plateia, e todo mundo parado, sem se mexer, todos atentos olhando para o palco. Ninguém se dispersa para mexer no celular”. 

A sensação que ele descreve é de plenitude.

Um espetáculo vivo que muda a cada temporada

Bruno afirma que EGO nunca é o mesmo de uma temporada para outra: “A cada nova temporada falo que é um novo espetáculo. Tudo muda”. 

O texto muda, a forma de dizer muda, as pausas mudam, os sentidos também: “Hoje tem frases que me batem mais do que outras”. Além disso, a própria vida invade a obra. Conversas, encontros e experiências pessoais acabam reposicionando trechos e acrescentando novas camadas: “É um organismo vivo”.

A coragem que a peça devolveu

Em EGO, Bruno Caldeira convida a plateia a olhar para dentro. Foto: Camila-Babsk.
Em EGO, Bruno Caldeira convida a plateia a olhar para dentro. Foto: Camila-Babsk.

Quando olha para trás, Bruno reconhece que o espetáculo transformou sua relação com a arte e consigo mesmo: “Me sinto mais corajoso, mais potente”. 

Se pudesse conversar com o Bruno dos primeiros trabalhos, saberia exatamente o que dizer: “Acredita em você. Não tenha medo de se expor. Não tenha medo de se enxergar. Não tenha medo de se confrontar. Tenha coragem de ser você”.

O convite final ao público

Ao encerrar a entrevista à coluna Cena Aberta, Bruno deixou chamado direto para quem ainda não viu a peça: “Confio muito no potencial da peça. Tenho certeza de que as pessoas saem do espetáculo fazendo uma autoanálise consciente sobre si mesmas”.

Depois, completou: “Vão com o coração aberto, com a mente aberta, com a alma em disponibilidade. Quando a gente se coloca disponível para receber qualquer tema, automaticamente a gente se transforma”. 

E entre tantas frases que permanecem depois da cortina imaginária fechar, uma parece resumir a travessia proposta por EGO: “Para onde a gente vai, a gente se leva”.

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