Foto: Elisa Maciel
É uma cobrança que a vida adulta venha acompanhada de respostas. É preciso saber quem se é, o que se quer, como se comportar, o que pensar e, em tempos de redes sociais, ainda estar preparado para transformar cada opinião em posicionamento público. Alice Caymmi e Nina da Costa Reis encontraram outra possibilidade: admitir que também estão tentando entender.
É desse lugar que nasce Arruíne-se Comigo, videocast apresentado pelas duas, com quatro episódios disponíveis no YouTube e Spotify. O cenário traduz a proposta com humor. Alice e Nina se arrumam para sair, mas essa saída nunca acontece. Permanecem na cama conversando sobre relacionamentos, inseguranças, expectativas, vida adulta e experiências que deram errado, sem assumir a obrigação de encontrar uma lição para cada assunto.
Em entrevista ao Pittaplay, as duas mostram que a ruína do título ganhou um significado próprio durante a criação do projeto. Arruinar-se passa pela possibilidade de abandonar a perfeição, rir do que doeu, expor vulnerabilidades e aceitar que uma pessoa pode terminar uma conversa pensando diferente de quando começou.
Para Nina, admitir a falta de respostas também representa uma forma de maturidade: “Acho que quando a gente diz e assume que não sabemos de nada mesmo, que estamos tentando entender a vida, que a gente está tentando entender as coisas, na verdade é um sinal de empoderamento sobre si, de poder não saber as coisas, estar aprendendo, de poder errar”, afirma.
A apresentadora brinca que a certeza absoluta pertence mais à adolescência do que à vida adulta. Crescer, em sua leitura, significou compreender que aprender com o outro também exige disponibilidade para reconhecer aquilo que ainda não sabe: “Acho que quem sabe tudo é adolescente, adolescência é a fase onde a gente sabe tudo. Quando a gente chega na vida adulta não tem ‘eu sei’; eu não, eu estou vivendo, estou aprendendo, olhando para o outro, o outro está me ensinando.”
Arruinar-se também pode significar brilhar
A palavra escolhida para batizar o programa ganhou outro significado para Nina durante o processo. Se “arruinar-se” carrega inicialmente uma ideia de destruição ou fracasso, dentro do videocast ela passou a enxergar quase o contrário: “Arruinar-se para mim ganhou uma conotação quase como se eu tivesse dizendo para mim ‘caraca, brilhou, arruinou, brilhou’. Ganhou uma outra conotação, algo muito é glamourizada, uma conotação de brilho, de poder, de feminismo. Arruinar-se é dramático, cênico.”
Essa ressignificação encontra Alice em outro momento de sua trajetória artística. Quando questionada sobre qual perfeccionismo precisou abandonar, a cantora volta para o instrumento mais associado à própria carreira: a voz: “Desconstruí um pouquinho a minha voz para poder fazer as coisas de um jeito mais despojado, diferente, achar linguagens diferentes. Esse foi um perfeccionismo do qual eu abri bastante mão nos últimos anos da minha carreira.”
Abrir mão do preciosismo, para Alice, tornou-se uma maneira de encontrar outras linguagens. Em Arruíne-se Comigo, esse movimento aparece também na informalidade da conversa e na disposição das duas para permanecerem em territórios pouco resolvidos.
“Se eu não rir da minha tragédia, eu vou ser assassinada por ela”

O humor que atravessa o programa nasce frequentemente de experiências menos engraçadas. Alice identifica uma tristeza compartilhada por uma geração de jovens adultos e relaciona esse sentimento à dispersão e à dificuldade contemporânea de conexão.
“Existe uma tristeza também, eu acho, por mais que a gente coloque humor nisso. Costumo dizer ‘se eu não rir disso, eu vou morrer disso’. Se eu não rir da minha tragédia, eu vou ser assassinada por ela. Preciso transformá-la em comédia para eu não morrer no final.”
A transformação da tragédia em comédia não apaga aquilo que aconteceu. Para Alice, ela permite alterar a relação com a própria experiência: “O Arruíne-se é uma mudança de roteiro. A gente olhou, falou ‘é trágico, é triste, mas como que a gente faz para não morrer nesse final, vamos mudar essa cena’, e para isso escolhemos rir.”
Nina também encontra uma ligação direta entre comédia e tragédia. Ela conta que algumas situações pessoais somente puderam ser verbalizadas depois que conseguiu observá-las por outra perspectiva: “Acho que várias situações da minha vida que foram muito trágicas, eu consegui rir depois e isso me fortaleceu dentro da tragédia.”
Esse distanciamento permitiu que determinadas experiências ganhassem outra forma quando contadas: “Tem vários assuntos que eu só consegui falar de verdade depois que eu consegui rir deles. Vários, mas eu não posso falar aqui porque é proibido, vocês vão ter que assistir o videocast para saber quais são os assuntos que eu rio depois de serem tragédias na minha vida”, provoca.
Para Alice Caymmi, opinião também virou conteúdo para o algoritmo
Entre relacionamentos, crises e experiências pessoais, Arruíne-se Comigo também encontra espaço para questionar a obrigação contemporânea de permanecer disponível. Para Alice, artistas passaram a enfrentar uma cobrança que ultrapassa aquilo que produzem artisticamente: “Essa coisa de que o artista precisa falar tudo sobre tudo, sempre presente, é uma lógica do capitalismo de algoritmo que escraviza a gente. Nós viramos escravos da informação.”
A cantora identifica nessa engrenagem uma transformação da própria opinião em produto. Posicionar-se continuamente passa a integrar a demanda por alimentar plataformas com novidades sobre si mesmo: “Precisamos estar sempre produzindo informação, conteúdo; e opinião, posicionamento é conteúdo. É também uma cobrança de criação de conteúdo que é uma lógica de mercado muito complicada.”
Nesse contexto, o cansaço presente no programa adquire outro sentido. Duas mulheres se preparam para sair e acabam desistindo, permanecendo em um quarto para conversar sobre aquilo que ainda tentam compreender: “E o Arruíne-se é uma proposta de ir contra essa história de ficar preso nesse sistema e se render a uma ruína e cansaço”, explica Alice.
Nina encontra liberdade no direito de se contradizer
Se a internet frequentemente cobra posicionamentos definitivos, Nina prefere preservar a possibilidade de mudar de ideia. As conversas do videocast podem começar com uma convicção e chegar minutos depois a outra conclusão: “A gente não fala nada que é certo, falamos coisas que a gente acha, e no próprio videocast muitas vezes nos contradizemos, então o que achamos que é certo agora, cinco minutos depois a gente pode estar falando ‘não, mas não acho muito isso não, acho outra coisa’.”
Para ela, essa contradição também se relaciona à maneira como mulheres foram ensinadas a procurar modelos corretos de comportamento. Arruíne-se Comigo se distancia dessa lógica ao recusar a posição de manual sobre como alguém deveria viver: “Fomos criadas muito para saber o que fazer, ser de uma forma ‘certa’, comportamentos que são corretos e que temos que seguir, e a gente vem com esse videocast pra falar que não, que não temos que seguir nenhum padrão, não seguir nenhuma lista de comportamento certo, que a gente pode se contradizer, e isso sim é liberdade feminina, que a gente pode ser quem a gente é.”
Nesse pensamento, liberdade inclui errar, chorar, rir e assumir as próprias vulnerabilidades sem precisar transformá-las imediatamente em aprendizado: “E se a gente é contraditória a gente é contraditória, se a gente erra, a gente erra, se a gente ri, a gente ri, e se a gente chora, a gente chora.”
Alice quer que os homens escutem o que as mulheres estão dizendo
Embora as experiências femininas estejam no centro de muitas conversas, Alice também deseja que o programa encontre espectadores homens. A cantora acredita que determinadas discussões podem funcionar como uma janela para questões que nem sempre são percebidas dentro dos relacionamentos.
“Gostaria que eles soubessem através da gente o que as mulheres deles estão pensando. Soubessem através de nós que as esposas, namoradas têm sonhos, inseguranças, necessidades, demandas que muitas vezes eles não estão vendo, então acho que acabamos sendo porta-vozes dessas mulheres.”
A proposta feminista do programa aparece, dessa forma, vinculada menos à apresentação de respostas e mais à exposição de experiências. Alice e Nina falam a partir daquilo que viveram, discordam, reelaboram pensamentos e deixam a conversa aberta para quem está do outro lado.
O roteiro existe, mas Alice e Nina também podem arruiná-lo
A espontaneidade das conversas convive com uma estrutura previamente construída. Nina explica que ela e Alice participam da elaboração dos episódios ao lado do roteirista Eduardo Rios: “Nós improvisamos muito em cima do roteiro. A gente cria o roteiro junto com o Dudu, sentamos em sala de roteiro e criamos juntos, damos ideias, ele vai lá e escreve, e depois a gente improvisa em cima disso.”
O alinhamento entre as apresentadoras permite que essa estrutura seja abandonada quando a conversa encontra caminhos mais interessantes: “Como a gente está muito alinhado nos assuntos, no que propomos ali, fica mais fácil de improvisar a conversa e ir caminhando com ela. Porque a gente sabe do que se trata, temos propriedade.”
A dinâmica também ajuda a explicar por que Alice considera difícil reproduzir o programa simplesmente reunindo outras duas pessoas diante das câmeras: “Um encontro como o meu e o da Nina não há. Outro encontro como esse não existe. Esse nosso encontro é único e intransferível.”
Alice define esse encontro por uma mistura que inclui “ruína, risos, lágrimas, pensamentos e informalidade”, além de uma postura mais despojada que nasce especificamente da relação entre as duas: “Uma coragem ali que só nós duas mesmo, e só nós duas juntas para apresentar.”
O público ainda pode descobrir algo que nem Nina sabe sobre si
Depois de quatro episódios dedicados a admitir dúvidas, expor contradições e abandonar a obrigação de parecer resolvida, seria contraditório terminar tentando definir exatamente quem são Alice Caymmi e Nina da Costa Reis.
Nina prefere entregar essa conclusão ao público: “Ah, o que o público vai descobrir sobre mim, eu vou deixar que o público me responda. Eu quero saber do público o que ele achou de mim depois de assistir esses quatro episódios.”
E encerra com uma frase que poderia servir como síntese do próprio Arruíne-se Comigo: “Não sei nada, eu continuo sem saber sobre mim (risos).”
Existe bastante liberdade nessa ausência de resposta. Alice e Nina encontraram um programa no qual podem mudar de ideia, rir do que já doeu e admitir que algumas questões continuam sem solução. Em um tempo que transforma certezas, opiniões e até intimidade em conteúdo, Arruíne-se Comigo escolhe deixar duas mulheres diante da câmera ainda elaborando a própria vida e, para elas, não saber também virou uma maneira de seguir em frente.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
