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Quem assistiu a A Queda, lançado em 2022, conhece a sensação de procurar um lugar seguro dentro da própria poltrona enquanto duas mulheres tentam sobreviver a centenas de metros do chão. A continuação compreende o efeito provocado pelo primeiro filme e trabalha para ampliá-lo. A Queda 2: No Limite, que estreou nos cinemas brasileiros em 1º de outubro, apresenta situações ainda mais assustadoras, aumenta a exposição das personagens ao perigo e encontra maneiras de fazer o espectador sentir a altura mesmo quando sabe que está protegido pela tela.
A história acompanha Jax (Harriet Slater), que ainda enfrenta as consequências da morte da irmã, Shiloh (Virginia Gardner). O encontro com Luce (Arsema Thomas), amiga de Shiloh, coloca as duas em uma jornada até uma região montanhosa da Tailândia. A proposta de homenagear a jovem acaba se transformando em uma luta pela sobrevivência quando um deslizamento deixa as protagonistas presas em estrutura extremamente vulnerável, a mais de 900 metros de altura.
A premissa preserva a identidade do primeiro filme, mas encontra um ambiente diferente para explorar seus perigos. A torre isolada do primeiro filme dá lugar a uma paisagem montanhosa que amplia as possibilidades de movimentação e torna cada tentativa de escapar uma nova ameaça.
A direção entende que o medo começa antes da queda
Michael e Peter Spierig conduzem a experiência explorando característica fundamental do suspense de sobrevivência: a antecipação do perigo. O público consegue identificar o risco antes que as personagens executem determinados movimentos, e essa vantagem transforma a espera em uma das principais fontes de angústia.
A composição dos planos participa diretamente desse efeito. Quando a câmera revela a distância entre as protagonistas e o chão, estabelece uma dimensão concreta para o perigo. Ao se aproximar dos pontos de apoio, das superfícies estreitas e dos movimentos necessários para avançar, reduz o campo de atenção e obriga o espectador a acompanhar detalhes que podem determinar a sobrevivência.
Essa alternância produz desconforto particular e o plano aberto apresenta a dimensão da ameaça, enquanto os enquadramentos próximos fazem cada movimento parecer arriscado demais. A direção consegue trabalhar com a expectativa de um acidente mesmo quando nenhuma queda acontece.
Para quem tem medo de altura, a experiência se torna especialmente aflitiva. O filme provoca a sensação de vertigem repetidas vezes e encontra novos obstáculos quando o espectador começa a acreditar que as personagens finalmente conquistaram alguma segurança.
A inteligência na maneira como a sequência administra esse desgaste emocional é perceptível e a tensão precisa mudar de intensidade para continuar funcionando. Para isso, os diretores compreendem a importância de alternar situações de aparente controle com acontecimentos que desorganizam completamente as possibilidades de sobrevivência.
Harriet Slater e Arsema Thomas encontram humanidade em meio ao desespero

A construção de Jax e Luce também contribui para que a narrativa funcione. As duas chegam à experiência carregando relações diferentes com a morte de Shiloh, e essa ligação oferece uma motivação compreensível para o encontro que desencadeia a história.
Harriet Slater trabalha Jax a partir de uma insegurança que interfere diretamente em suas reações. O medo da personagem está relacionado ao perigo imediato, mas também ao passado que a levou até aquela situação. A atriz precisa conciliar essas duas pressões enquanto a narrativa exige respostas cada vez mais urgentes.
Arsema Thomas estabelece outro comportamento para Luce. Sua disposição inicial cria contraste importante com a resistência de Jax, permitindo que a relação entre elas se desenvolva a partir de atitudes diferentes diante do risco.
Quando a situação se agrava, essa dinâmica ganha importância e o filme depende da convivência forçada entre as protagonistas para manter o interesse durante os momentos em que a sobrevivência parece depender de uma decisão impossível. As atrizes conseguem tornar essa parceria convincente dentro da proposta de um suspense que exige reações extremas.
O roteiro também compreende que as personagens precisam carregar conflitos próprios para que o perigo tenha consequências emocionais. A construção das duas é coerente com o universo apresentado e fornece à direção material suficiente para trabalhar tanto o desespero físico quanto as mudanças na relação entre elas.
O desfecho surpreende porque a história preparou sua própria virada
Um dos acertos de A Queda 2 está na maneira como conduz os acontecimentos finais. Quem conhece o primeiro longa pode acreditar que já identificou o caminho escolhido para a conclusão, principalmente porque a continuação preserva elementos reconhecíveis da narrativa original e o roteiro utiliza essa familiaridade a seu favor.
A reta final reorganiza informações apresentadas anteriormente e conduz a história para resolução que encontra sustentação no desenvolvimento dos acontecimentos. A surpresa funciona porque o filme oferece elementos para compreendê-la, mesmo que sua importância somente fique evidente quando determinadas informações são reveladas.
O primeiro A Queda também encontrou no desfecho uma maneira de alterar a percepção do espectador sobre aquilo que acompanhava e a continuação preserva o prazer dessa descoberta, mas constrói outra trajetória para alcançá-la. O resultado valoriza a experiência de quem acompanha a narrativa tentando antecipar suas soluções. A conclusão também deixa uma possibilidade aberta para um terceiro filme, sem depender exclusivamente dessa perspectiva para justificar o que aconteceu até ali.
A Queda 2 encontra uma nova maneira de provocar vertigem
O maior mérito de A Queda 2 está em reconhecer aquilo que tornou o primeiro filme tão envolvente e desenvolver uma experiência capaz de provocar sensações semelhantes com intensidade renovada.
A direção utiliza o espaço como elemento dramático, administra a antecipação do perigo e faz das limitações físicas das protagonistas uma fonte constante de suspense. Harriet Slater e Arsema Thomas oferecem personagens que encontram sentido dentro dessa estrutura, enquanto o roteiro reserva suas principais surpresas para um momento em que o público acredita conhecer as regras da história.
O filme faz jus ao antecessor porque compreende a relação que estabeleceu com o espectador: a cada aparente possibilidade de salvação, surge outra razão para temer o que acontecerá em seguida e claramente existe prazer particular nessa experiência cinematográfica. Durante boa parte da projeção, a vontade é pedir que as personagens parem de se movimentar, enquanto a curiosidade exige que deem o próximo passo. A Queda 2 encontra sua adrenalina nesse conflito e faz do medo de cair uma razão para permanecer olhando até o último minuto.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
