Lucha transforma memória familiar em teatro e busca por pertencimento

Marília Amorim revela ao Pittaplay como investigou suas origens peruanas e transformou memórias, silêncios e objetos de família no espetáculo Lucha. Foto: Alicia Peres

Foto: Alicia Peres

Aos 20 anos, Marília Amorim chegou ao Peru pela primeira vez para apresentar uma peça de teatro com o grupo Pombas Urbanas. Até então, sabia que tinha um pai peruano e uma família no país, mas essa informação fazia parte de sua história sem necessariamente provocar questionamentos. O encontro com Lima, porém, produziu sensação que ela ainda reconhece como marco em sua trajetória. Foi naquele momento que a atriz percebeu que havia uma parte de sua própria história que desconhecia e que precisava ser descoberta.

“Quando chego em Lima e tenho o encontro com esse Peru, com essa cidade, com essa cultura, aquilo ressoa em mim de uma maneira que se abre um portal. É algo desconhecido, não nasci aqui, não me pertence, mas me pertence”, conta. A partir dali, a busca por respostas atravessaria décadas e, mais tarde, encontraria no teatro a linguagem para organizar documentos, memórias, silêncios e perguntas que permaneceram abertas.

A primeira viagem ao Peru também trouxe descoberta inesperada. Ao retornar ao Brasil, Marília contou ao pai sobre o encontro com a tia Silvia, que vivia em Lima, e descobriu que o avô também havia morrido. Até então, ela não sabia da morte dele e ao perceber que o próprio pai desconhecia que o pai havia falecido, a atriz passou a enxergar aquela história familiar de outra maneira: “Tenho que dar notícia para ele de que o avô já havia falecido e ele chora na minha frente. Aquilo foi um evento muito impactante. De fato, se abriu ali uma imensa lacuna e um ponto de interrogação”, relata.

O episódio transformou o que poderia ser apenas curiosidade em investigação sobre ausência, silêncio e pertencimento. O pai de Marília posteriormente voltou ao Peru e morreu no país. Depois disso, a atriz conheceu a outra irmã dele, que vive na França e construiu carreira como bailarina. Foi nesse encontro que recebeu um dos objetos que se tornariam fundamentais para a construção de Lucha: o violão que pertenceu à avó peruana.

A transformação da investigação pessoal em material artístico começou a ganhar forma alguns anos depois. Em 2013, durante um festival na Argentina, Marília conversou sobre a história da família com uma diretora de teatro. Foi quando ouviu uma observação que ajudaria a mudar a perspectiva sobre aquela trajetória: “Ela falou: ‘Olha, tem uma coisa aí, né? Tem uma história aí’. E aí, de 2013 pra frente, começo a falar: nossa, é mesmo, aqui tem uma história, isso pode se transformar num material, numa narrativa.”

O projeto foi crescendo a partir de documentos, objetos e relatos familiares. Além do violão, outro elemento decisivo surgiu em uma viagem à França, quando Marília recebeu da tia um diário de bordo que registrava uma das experiências mais extraordinárias daquela trajetória. A mulher havia atravessado o Oceano Atlântico em um pequeno veleiro, acompanhada pelo companheiro, em viagens realizadas entre o fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990.

Em 2025, ao retornar à França, Marília já levava consigo uma lista de perguntas sobre aquilo que queria descobrir a respeito da família e, especialmente, sobre a travessia realizada pela tia. O diário entregue naquele encontro se transformou em mais um elo entre passado e presente: “Volto para o Brasil com a certeza de que precisava transformar toda essa história numa obra, num objeto estético mesmo. No caso, uma peça de teatro, porque é a minha linguagem.”

A dramaturgia de Lucha nasce desse movimento entre documentos e imaginação, entre aquilo que foi descoberto e aquilo que continua sem resposta. Cartas, fotografias, diários, objetos e relatos não aparecem apenas como registros de uma biografia familiar, mas como elementos de uma construção cênica.

Marília conta que começou a perceber a potência teatral da história quando passou a narrá-la para amigos e pessoas próximas. As reações que recebia mostravam que aquela experiência ultrapassava a dimensão privada: “Conto para as pessoas e percebo, ao narrar, como quem conta uma história mesmo, a reação das pessoas, o quanto aquilo ressoa, o quanto as pessoas vão, o olho vai brilhando e elas vão embarcando, sentindo, na minha narrativa.”

A avó, Lúcia Castillo, ocupa um lugar central nessa investigação. Atriz de teatro e radionovela no Peru, ela aparece para Marília como uma artista que antecedeu, de alguma maneira, a própria trajetória da neta. A família também reunia outras experiências ligadas à arte. O avô era músico, uma das tias escrevia poesia e a tia que vive na França construiu carreira como bailarina. O pai, segundo Marília, foi o único dos irmãos que não se tornou artista.

A descoberta dessa família artística trouxe outra camada à investigação. Ao conhecer a trajetória da avó, a atriz passou a enxergar também possíveis conexões entre aquela mulher que não conheceu e o próprio caminho que escolheu no teatro.

O violão de Lúcia tornou-se, nesse processo, uma espécie de presença concreta de uma ausência. Segundo os relatos que Marília reuniu, a avó tinha grande capacidade de modulação da voz e interpretava diferentes personagens, além de tocar violão de ouvido por possuir ouvido absoluto.

Quando recebeu o instrumento, porém, ele estava em condições que não permitiam que fosse tocado. O violão, da década de 1940, precisou ser restaurado para que pudesse voltar à cena: “Então é um gesto muito forte eu poder tocar o violão que foi dessa avó”, afirma.

A história familiar, entretanto, não é marcada apenas pela presença de artistas e por objetos de memória. Há também uma ruptura relacionada ao contexto político latino-americano da segunda metade do século 20. Marília conta que o pai, ainda estudante de engenharia, envolveu-se politicamente no início dos anos 1960, em um período posterior à Revolução Cubana.

As informações que conseguiu reunir sobre esse período ainda são fragmentadas. Ela ouviu relatos da mãe e das tias, mas afirma não ter encontrado uma explicação definitiva para tudo o que aconteceu. O envolvimento político do pai teria provocado uma ruptura profunda com o avô, que chegou a colocá-lo diante de uma escolha entre a família e a política.

O pai deixou o Peru e veio para o Brasil em meio ao contexto das ditaduras latino-americanas. Para Marília, essa ruptura ajuda a explicar por que uma parte da família permaneceu distante e desconhecida durante tantos anos. Mas Lucha não tenta necessariamente preencher todas essas lacunas. Ao contrário, a ausência de respostas também passou a fazer parte da dramaturgia.

“Acho que eu passei uma vida inteira acreditando que eu conseguiria costurar essa fenda, que eu conseguiria resolver essa fenda, que eu conseguiria tapar esse buraco. De repente, chegando aos 40, nesse momento da minha vida, percebo que não vai ter essa costura. Essa fenda está lá, ela me compõe, compõe a minha história e eu preciso lidar com isso, preciso enfrentar isso. Olhar para isso.”

A ideia está presente também na cenografia do espetáculo. No centro da lona que ocupa o chão da cena existe uma fenda, um buraco, um vazio. A imagem traduz uma questão que atravessa a pesquisa de Marília: algumas perguntas podem ser investigadas durante uma vida inteira sem necessariamente encontrarem respostas definitivas.

Dentro dessa construção aparece ainda a figura do chasque, mensageiro do Império Inca responsável por transportar informações entre diferentes pontos do território. Os chasques carregavam quipus, objetos utilizados para registrar informações, especialmente numéricas, mas também associados à transmissão de histórias.

Para Marília, a imagem se tornou uma maneira de compreender o próprio lugar dentro da história familiar. O violão recebido da avó e o diário entregue pela tia chegaram até ela como objetos que poderiam ter permanecido esquecidos, mas que passaram a ser carregados e reorganizados pela dramaturgia: “Percebo que sou esse chasque, que estou carregando essas informações vitais dessa cartografia gigantesca que passa de uma ponta a outra do continente, da América do Sul, que me fez ir até a Europa para resgatar esses objetos. E sou eu essa mensageira dessa história.”

A trajetória da tia que vive na França também ampliou a percepção de Marília sobre a própria história familiar. Além da carreira como bailarina, ela atravessou o Oceano Atlântico em um pequeno veleiro em uma época em que recursos hoje considerados básicos, como o GPS, ainda não faziam parte dessas viagens.

A experiência aconteceu entre 1989 e 1991 e, durante uma das travessias, a tia chegou a encontrar o navegador brasileiro Amir Klink no mar. A descoberta levou Marília a pesquisar também a trajetória do navegador e a perceber as coincidências entre os períodos registrados no diário da tia e as viagens realizadas por Klink.

Para a atriz, o feito ganha outra dimensão quando observado a partir do contexto histórico e dos recursos disponíveis naquele período: “De repente, me vejo com um tipo de projeto em algum lugar muito parecido com o da minha tia, não no sentido do risco de vida, mas de uma necessidade existencial. Não é sobre fazer uma peça de teatro simplesmente, ser do teatro paulistano, não é sobre isso, mas sobre dar uma resposta.”

A partir dessa percepção, a história familiar deixa de ser compreendida apenas como uma sucessão de acontecimentos particulares. Para Marília, as pequenas histórias também fazem parte da construção da história coletiva e podem revelar aspectos de períodos políticos e sociais que atravessaram gerações: “Existe a história oficial, com as grandes personalidades e os marcos. Isso é uma camada da história, mas a história é feita dessas pequenas histórias, dessas pessoas ordinárias que talvez não vão entrar nas páginas do jornal, ou hoje, nos grandes holofotes da fama ou das redes.”

É nesse ponto que Lucha amplia seu campo de investigação. A história do pai, da família peruana e das rupturas provocadas pelo contexto político passa a dialogar com uma experiência mais ampla sobre viver na América do Sul, atravessar períodos de ditadura e lidar com marcas históricas que continuam repercutindo no presente.

A trajetória de Marília no teatro também ajuda a compreender a escolha pela linguagem do espetáculo. Aos 45 anos, ela soma mais de 25 anos de atuação em processos artísticos ligados ao teatro de grupo. A primeira ida ao Peru, justamente, aconteceu quando tinha 20 anos e estava em circulação com uma companhia.

Para ela, o teatro de grupo ocupa um lugar importante na produção artística brasileira e latino-americana, especialmente diante das dificuldades de financiamento e das diferenças em relação ao teatro de caráter mais comercial.

Lucha, entretanto, exigia outro formato. Pela primeira vez, Marília está sozinha no palco em um espetáculo autoral construído a partir de sua própria trajetória: “Esse espetáculo eu precisava fazer sozinha, porque é uma jornada solitária. Então, também tem sido um desafio para mim. É a primeira vez que eu estou no palco sozinha e que eu estou erguendo esse processo com muitos parceiros, mas muitos sob as minhas próprias pernas.”

Transformar uma história fragmentada em linguagem também passou a ser parte do próprio processo de criação. Durante os três anos de pesquisa para Lucha, Marília esteve acompanhada por um processo de análise, experiência que, segundo ela, também atravessou a elaboração artística.

A atriz entende a arte como uma possibilidade de organizar simbolicamente aquilo que permanece disperso na experiência humana. No teatro, essa organização não acontece apenas por meio da palavra, mas também pelo corpo, pela voz, pela cenografia, pelo figurino, pela trilha sonora e pelas ações físicas.

“Quando falo teatro, é dramaturgia, é ação física, é modulação da voz, é estudo da palavra, é o corpo compondo imagens que às vezes não estão nas palavras, é a cenografia, o figurino, é a trilha sonora. Ou seja, são, na verdade, muitas linguagens que o teatro compõe, se utiliza para conseguir dar forma.”

Para o público que chega às 40 cadeiras preparadas para receber o espetáculo, a expectativa da atriz não é necessariamente que a plateia conheça melhor a história de sua família. O movimento que ela pretende compartilhar é outro: fazer com que cada pessoa reconheça, na própria trajetória, questões relacionadas a pertencimento, memória, ausência e herança: “Acho que é menos sobre a minha história pessoal e mais, eu acredito que isso ressoa, percebo já, que isso ressoa nas pessoas, em suas próprias histórias.”

Nesse percurso, uma das constatações mais presentes para Marília é a de que cada pessoa carrega aquilo que recebeu das gerações anteriores, mesmo quando não tem consciência dessa herança: “Nós, muito bem atados e indecifráveis. Mas cada um de nós herda alguma coisa. A gente não é assim tão autônomo, tão livre, tão indivíduo assim, como a gente imagina. A gente é muito composto, a gente é feito, na verdade, dessas memórias, dessas referências, dessas histórias.”

É nessa relação entre o que foi recebido, o que permaneceu oculto e aquilo que cada geração escolhe fazer com sua própria herança que Lucha encontra seu campo de investigação. A história de uma família atravessada por migração, política, arte, silêncio e distância chega ao palco como uma dramaturgia construída a partir de documentos reais, objetos afetivos e perguntas que nem sempre encontram uma resposta definitiva.

Para Marília, nessa ausência de respostas existe uma das possibilidades de encontro com o público: reconhecer os próprios nós, revisitar as próprias histórias e perceber o quanto cada trajetória individual também é formada por aqueles que vieram antes.

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