Foto: Globo/ Beatriz Damy
Até que ponto uma pessoa pode manipular a realidade de outra a ponto de fazê-la duvidar da própria sanidade? Essa é a pergunta que movimenta Eu Não Era Louca, Era Casada, nova novela vertical Original Globoplay, que estreia na terça-feira, 6 de outubro. Com 50 capítulos de aproximadamente dois a três minutos, a produção dos Estúdios Globo acompanha uma mulher que vê sua vida ser progressivamente desestabilizada pelo próprio marido, enquanto tenta compreender o que está acontecendo ao seu redor.
Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, a autora Ecila Pedroso e o diretor artístico Adriano Melo conversaram sobre a construção desse suspense psicológico, os cuidados necessários para abordar a violência contra a mulher e os desafios de desenvolver personagens em uma dramaturgia que exige acontecimentos rápidos e reviravoltas constantes. A conversa completa também integra o segundo episódio do podcast Crítica em Foco, do Pittaplay, que chega ao Spotify no qual os dois profissionais aprofundam suas experiências com as novelas verticais.
Uma mulher que começa a perder o controle da própria vida
Na história, Fernanda Rodrigues interpreta Beatriz, uma galerista bem-sucedida que acredita ter construído uma vida estável ao lado do marido, Vítor, personagem de Ricardo Pereira. A aparente segurança do casamento começa a desaparecer quando ela se torna vítima de uma armação planejada pelo próprio companheiro, interessado em fazê-la parecer mentalmente incapaz para assumir o controle de sua fortuna.
O processo envolve manipulação, isolamento e situações que levam Beatriz a questionar suas próprias percepções. A narrativa aborda o gaslighting, uma forma de violência psicológica em que a vítima é induzida a desconfiar de suas lembranças, sentimentos e capacidade de interpretar a realidade.
Para Ecila Pedroso, esse aspecto precisava ocupar o centro da história. A autora explicou ao Pittaplay que a violência doméstica costuma ser discutida a partir das agressões físicas, enquanto os danos psicológicos também precisam receber atenção. Durante a conversa, destacou como a manipulação pode comprometer a autoestima, produzir dependência emocional e afastar uma mulher de suas relações.
A escolha do tema também trouxe uma dificuldade dramatúrgica: apresentar um processo de violência que frequentemente se desenvolve de maneira gradual dentro de uma narrativa construída para avançar rapidamente.
Ecila explicou que o formato exige concisão, diálogos essenciais e acontecimentos capazes de manter o interesse do público. O desafio consiste em fazer com que as transformações dos personagens sejam compreensíveis mesmo diante da velocidade dos episódios.
A autora também ressaltou que a história preserva elementos tradicionais da telenovela, incluindo o romance, embora o principal conflito emocional esteja relacionado à violência psicológica e à trajetória da protagonista.
Adriano Melo revela como a direção trabalha o suspense no celular
Na direção artística, Adriano Melo precisou encontrar soluções visuais para traduzir a complexidade do roteiro em uma tela estreita e em episódios de poucos minutos.
Durante a entrevista, o diretor explicou que o trabalho começa pela identificação dos momentos que merecem maior atenção dentro de cada cena. Enquanto a escrita concentra acontecimentos e emoções, a direção precisa determinar onde posicionar a câmera, qual personagem acompanhar e quando permitir que uma reação permaneça em destaque.
Essa preocupação também considera as condições em que o público consome as novelas verticais. Diferentemente de uma sessão de cinema, os episódios podem ser assistidos no transporte público, durante pequenos intervalos ou até sem áudio, acompanhados apenas pelas legendas.
Por isso, Adriano desenvolve enquadramentos e escolhas de montagem que permitam compreender as relações entre os personagens com rapidez. Ele explicou, por exemplo, que costuma filmar os dois lados de uma conversa telefônica para deixar visualmente evidente quem está falando, mesmo quando o espectador acompanha a cena sem ouvir o diálogo.
A disposição dos cenários também precisa ser repensada. Elementos que funcionam em uma produção horizontal podem desaparecer no enquadramento vertical, enquanto detalhes antes pouco explorados passam a ocupar posições importantes na composição da imagem.
Para o diretor, a experiência acumulada na televisão ajuda a enfrentar essas exigências, mas cada nova produção também representa uma oportunidade de aperfeiçoar a linguagem.
A última cena foi a primeira a ser gravada
Uma das revelações da entrevista envolve a organização das gravações de Eu Não Era Louca, Era Casada. Adriano contou ao Pittaplay que decidiu começar o trabalho pela última cena da novela.
A escolha faz parte de método utilizado pelo diretor para preparar o elenco em produções com pouco tempo de execução. Antes das filmagens, ele realiza uma leitura ampla do roteiro, apresenta o percurso dos personagens e discute com os atores as intenções de cada situação.
Em vez de seguir obrigatoriamente a ordem dos capítulos, Adriano organiza as gravações principalmente por cenários e necessidades dramáticas. Em outros trabalhos, costuma iniciar por cenas intermediárias para permitir que os intérpretes encontrem o comportamento dos personagens antes de registrar momentos decisivos.
O processo exige uma relação próxima entre direção e elenco. Segundo ele, as equipes que trabalham diretamente no set são reduzidas, geralmente com seis a dez profissionais, o que favorece a comunicação durante as filmagens. Adriano também destacou a importância da escolha dos protagonistas. O diretor já havia trabalhado com Fernanda Rodrigues e Ricardo Pereira em outras produções e buscou reunir intérpretes capazes de transmitir emoções complexas em pouco tempo.
Ao comentar os antagonistas, elogiou a construção dos personagens de Ricardo Pereira e Barbara Reis, ressaltando a necessidade de apresentar figuras convincentes dentro de uma história marcada pela manipulação.
Como criar cinquenta capítulos sem perder o interesse do público?
Outro assunto aprofundado na entrevista foi a quantidade de reviravoltas exigida pelas novelas verticais. Para Ecila Pedroso, a possibilidade de desenvolver bons ganchos precisa existir desde a concepção da sinopse.
A autora explicou que, quando uma história não oferece situações capazes de surpreender o espectador com frequência, pode não ser adequada ao formato. Isso exige pensar antecipadamente nas revelações, nos conflitos e nas decisões que impulsionam cada capítulo.
Adriano comparou a intensidade desse processo à sensação de trabalhar continuamente nos momentos decisivos de uma novela tradicional. Como os episódios concentram acontecimentos importantes, as gravações também exigem grande disponibilidade emocional dos atores.
Apesar das diferenças de duração e linguagem, os dois entrevistados concordam que a experiência adquirida na dramaturgia televisiva continua fundamental. Ecila, que reúne quase quatro décadas de trabalho, observa que os princípios de construção narrativa permanecem presentes, embora precisem ser reorganizados para as novas condições de exibição.
O diretor também falou sobre a transformação na percepção dos profissionais em relação aos microdramas. Segundo ele, o desconhecimento inicial sobre o formato deu lugar a um interesse crescente de atores e equipes.
Quando estreia ‘Eu Não Era Louca, Era Casada’?
Além de Fernanda Rodrigues e Ricardo Pereira, o elenco reúne Barbara Reis, Daniel Rocha, Ilvio Amaral e Danielle Winits. Criada e escrita por Ecila Pedroso, a novela tem direção artística de Adriano Melo, produção de Juliana Castro e Renata Rossi, produção executiva de Lucas Zardo e direção de gênero de José Luiz Villamarim.
Eu Não Era Louca, Era Casada estreia em 6 de outubro no Globoplay, com 50 capítulos produzidos especialmente para exibição vertical. Os sete primeiros episódios estarão disponíveis também para quem não é assinante da plataforma.
Para Ecila, a expectativa é que o público acompanhe o sofrimento de Beatriz e desenvolva uma torcida por sua recuperação. Adriano aposta na identificação imediata com os personagens e na sucessão de acontecimentos para despertar a curiosidade a cada novo capítulo.
A entrevista exclusiva com os dois criadores pode ser acompanhada na íntegra em um episódio do podcast Crítica em Foco, do Pittaplay, que aprofunda a discussão sobre o roteiro, a direção, os bastidores e os caminhos da dramaturgia vertical brasileira.
Jornalista, produtor audiovisual, crítico de TV, cinema e literatura e autor de seis livros. Apaixonado por novelas desde a infância, dedica-se há mais de uma década a analisar narrativas, personagens e atuações. É fundador do Pittaplay.
