Antes de Amor em Ruínas chegar ao público, Letícia Laranja já vive um tipo de travessia que não aparece no roteiro. Em conversa exclusiva ao Pittaplay, a atriz não fala de personagem pronta, fala de um processo em curso. Gomer, neste momento, ainda está sendo construída. E talvez esse seja o ponto mais honesto sobre esse trabalho: ele ainda está acontecendo.
A construção começa na ausência de julgamento

Fotos: Divulgação/Instagram Letícia Laranja e Univer Vídeo.
Interpretar uma mulher historicamente marcada por julgamentos exigiu, desde o início, ruptura com qualquer leitura superficial. Para Letícia, não existe personagem sem investigação: “A construção da personagem parte dos por ques. Por que ela age assim? Por que ela fez isso? Por que ela reage dessa forma?”, questionamentos que, segundo ela, não são apenas técnicos, mas humanos: “O processo de construção de uma personagem pra mim tem total a ver com a capacidade de compreender o que tem dela em mim e o que eu posso emprestar pra ela. Isso só pode acontecer a partir da humanização”.
Quando o controle deixa de ser ferramenta
Esse movimento de humanizar passa, inevitavelmente, por abandonar o controle. E aqui, o discurso da atriz ganha precisão prática. Não se trata de improviso desordenado, mas de um tipo de presença que só existe quando o estudo não vira prisão: “A atuação pra mim tem a ver com estudar muito e, na hora da cena, poder esquecer de tudo e estar pronto para o momento presente”. É nesse espaço que o inesperado acontece: “Se deixar ser surpreendido por você mesmo e por quem está contracenando com você”.
Uma personagem que ainda está chegando

Gomer, por isso, não chegou de uma vez. Não houve um instante de virada. Houve acúmulo de experiências, sensações e descobertas: “A personagem foi chegando aos poucos. Tudo foi sendo construído e sentido ao longo do processo de preparação”. E o mais interessante é que esse processo não se encerra com a gravação: “Ela segue chegando a cada cena interpretada e dia vivido. É um processo que não tem fim”, revela a atriz.
A força como eixo invisível da narrativa
Se o texto da novela apresenta temas como amor, queda e redenção, Letícia desloca o olhar para outro ponto, mais interno e silencioso. “Ao longo do processo tenho descoberto que a narrativa sobretudo fala sobre força”. E essa força não é abstrata. Ela precisa ser encontrada dentro da própria atriz. “Sobretudo por ter que identificar isso em mim para que essa força seja tão minha quanto da Gomer”.
Entre o teatro e o audiovisual, o mesmo ponto de partida

A construção dessa personagem também dialoga com a trajetória da própria Letícia, que transita entre teatro e audiovisual sem estabelecer fronteiras rígidas: “Minha pesquisa como atriz é constante, nunca para e é sempre sobre atuação. Sobre aquilo que é humano. Sobre a nossa psique”. Para ela, o que muda não é a essência, mas o acúmulo de experiência: “Quanto mais eu faço, mais ferramentas e bagagem tenho. Então, tanto o teatro quanto o audiovisual acrescentam coisas ao meu repertório. Mas, para mim, as duas coisas partem do mesmo ponto”.
Fé como estrutura, não como recurso
Dentro de uma narrativa bíblica, onde a fé atravessa a história, a atriz não trata essa dimensão como elemento externo. Ela parte de um lugar pessoal: “Sou uma pessoa muito espiritualizada. Tenho relação diária com minha fé e isso é algo que impacta não no meu trabalho, mas em toda a minha vida”. A espiritualidade, nesse contexto, não serve apenas à personagem. Ela estrutura a forma como a atriz se posiciona no mundo.
A música como ponte emocional

Essa construção interna encontra ainda um aliado direto. A música. Letícia não separa suas linguagens. “A cantora sempre está dentro da atriz, uma coisa não se separa da outra”. E esse recurso atravessa diretamente seu processo criativo: “No que diz respeito à música, posso afirmar que ela é minha aliada, tanto antes da gravação, quando estou me preparando e me concentrando, quanto em set. Através dela eu acesso muitas emoções”.
O encontro com o feminino
É nesse acesso emocional que surge uma das descobertas mais íntimas do trabalho. Ao falar sobre o impacto de Gomer, Letícia desloca a discussão para um território sensível e pouco explorado: “Dar vida a esta personagem me aproximou de parte minha que não acessava com tanta segurança. A minha sensualidade. O poder do meu feminino”.
Há, nessa fala, reconhecimento e tomada de posição: “A feminilidade é um poder que tem que ser usado, mas nós mulheres muitas vezes tememos usá-lo por conta das pressões sociais e do medo constante de invasão”. E completa: “Essa personagem tem me dado força e coragem pra tomar posse daquilo que já é meu. E sobretudo compreender a importância de saber se colocar e colocar limites. Juntas estamos descobrindo um lindo caminho”.
A necessidade de criar além da atuação

Foto: Univer Vídeo.Foto: Univer Vídeo.
Fora da televisão, Letícia também constrói seus próprios espaços de criação. O espetáculo autoral Escape! aparece como extensão natural dessa necessidade de expressão: “Nesse projeto pude colocar muitas coisas para fora, coisas que precisavam existir”.
E esse não é um movimento isolado: “Acredito muito no ator escritor. Acredito muito no que temos pra falar, na potência gerada quando resolvemos criar projetos autorais e independentes”.
Ao olhar para o momento atual da carreira, não há discurso calculado. Há direção clara: “O que me move é o amor pela minha profissão e a convicção de que este ofício é uma ferramenta real de transformação”.
Sobre a nova série
Amor em Ruínas ainda não estreou. Gomer ainda não terminou de chegar. E talvez seja exatamente isso que torne essa construção tão interessante. O público vai encontrar uma personagem que, mesmo pronta em cena, segue em processo fora dela.
A nova série bíblica da Record promete ser mais uma superprodução, com cenários de tirar o fôlego, figurinos caprichados e direção de fotografia marcante. A trama é assinada por Cristiane Cardoso e produzida em parceria com o Univer Vídeo e a Seriella Productions.
Ambientada na antiga Israel, em um período marcado por instabilidade espiritual e decadência moral, a história acompanha o profeta Oseias e seu relacionamento intenso e desafiador com Gomer. Uma narrativa já conhecida, mas que ganha nova força com a proposta da produção.




