“A gente escreve as cenas que gostaria de assistir”, dizem autores de Por Você sobre os desafios da novela das sete

Em entrevista ao Pittaplay, Juliana Peres e Dino Cantelli revelam bastidores de Por Você, explicam os conflitos dos personagens e antecipam novidades.

A morte de Juli (Lucy Ramos) no primeiro capítulo de Por Você estabeleceu o ponto de partida de uma história que continua encontrando maneiras de manter a personagem presente. A cada lembrança dos filhos ou de Bela (Sheron Menezzes), o público descobre episódios de uma vida que pouco acompanhou, mas cuja ausência determina os caminhos da novela das sete da Globo. Essa escolha narrativa, que faz da memória uma parte ativa da dramaturgia, nasceu de uma decisão considerada arriscada pelos autores Juliana Peres e Dino Cantelli.

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, os dois revelaram que chegaram a considerar a possibilidade de desenvolver a amizade entre Bela e Juli durante a primeira semana da novela, antes de provocar a morte da personagem. A decisão final foi concentrar essa convivência no capítulo de estreia e confiar nos flashbacks para aprofundar, gradualmente, o vínculo entre as duas mulheres e a relação de Juli com os quatro filhos.

“Apostamos muito na narrativa por flashback, que é sempre um risco, porque às vezes é rejeitada pelo público, às vezes o formato não encaixa na narrativa, às vezes o público não entende. Mas deu muito certo. Foi realmente uma aposta minha e do Dino. A gente bancou essa decisão de contar essa história no primeiro capítulo e, a partir daí, viver das memórias da Juli, contando para trás a história dela com os filhos e com a Bela”, explicou Juliana.

A autora reconheceu que a recepção do público superou suas expectativas, especialmente pela maneira como a presença de Juli passou a representar um elemento afetivo na história: “Toda vez que a Juli aparece, é um ponto de luz na história e o diferencial desses flashbacks é que eles contam a história também. Eles andam para frente, não são só uma ilustração do que está acontecendo. A gente faz o flashback de maneira que impulsiona a história. Tem sempre um dado novo da relação dela com os filhos, com a Bela ou da história dela com o Haroldo, que está por vir”, antecipou.

A conversa percorreu os diferentes modos de vivenciar a perda, a construção de personagens que provocam sentimentos contraditórios no público, a investigação de um possível diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) de Samuca (Kadu Spinola) e os desafios de escrever uma novela que privilegia diálogos extensos em um horário tradicionalmente associado à agilidade narrativa.

A memória de Juli e os diferentes caminhos do luto

Mesmo após sua morte no primeiro capítulo, Juli permanece presente em Por Você. Os autores explicam como os flashbacks revelam novas camadas da personagem e mantêm viva sua relação afetiva com os filhos e Bela.
Mesmo após sua morte no primeiro capítulo, Juli permanece presente em Por Você. Os autores explicam como os flashbacks revelam novas camadas da personagem e mantêm viva sua relação afetiva com os filhos e Bela. Foto: Fábio Rocha/Globo.

Para Dino, o trabalho com as lembranças de Juli também nasceu da preocupação em representar o luto a partir das experiências mais simples da vida. A intenção era reconhecer que a saudade frequentemente se manifesta de maneira inesperada, sem depender de datas ou acontecimentos extraordinários.

“A lembrança está nas coisas simples do dia a dia. É um jeito como a pessoa comia determinado alimento, um jeito de a pessoa se vestir. São esses detalhes que são maiores do que propriamente um grande acontecimento que leva àquela lembrança. Você não espera necessariamente o aniversário de morte de um ente querido para lembrar dele. Você lembra: ‘Meu Deus, isso aqui era do jeito que ele fazia, ele gostava do bolo desse jeito’. Eu falo muito de comida. Comida tem esse poder, ela te joga para as lembranças”, explicou o autor.

A permanência da personagem foi estabelecida desde a concepção da novela. Dino confirmou que as recordações continuarão fazendo parte da narrativa até o encerramento da história: “Desde a sinopse, ela ia fazer parte da história até o fim da novela. Essa é uma aposta nossa, de ela estar viva naquelas memórias, porque a gente precisa ver o quanto a nossa protagonista, a Bela, era interligada com essa mulher, o quanto elas eram uma com a outra, de forma espiritual, inclusive.”

Essa construção assume dimensão particular na trajetória de Samuca, o filho mais novo de Juli, que ainda está formando suas lembranças da mãe. O menino desenvolveu um vínculo cada vez mais profundo com Bela, chegando a chamá-la de mãe, situação que levou os autores a refletir sobre como preservar os dois afetos.

Juliana explicou que a protagonista terá uma função essencial nesse processo e antecipou uma situação futura em que Samuca recorrerá a uma lembrança materna para enfrentar um desafio pessoal: “Mais adiante, ele terá um desejo muito grande e se lembrará de que a mãe lhe disse que poderia conquistar tudo o que desejasse. A gente vai ter sempre a intenção de trazer esses elementos da Juli para a vida do Samuca, e os flashbacks ajudam muito nesse sentido. Ele vai ter, por exemplo, um desafio com a chegada do pai. A gente precisa fazer essa mãe continuar viva para um menino que é criança, que tem poucas memórias. Acho que o veículo disso é sempre a Bela. Ela vai ser realmente a guardiã dessa memória da Juli na vida dele.”

Dino acrescentou que as particularidades do comportamento de Samuca também influenciam a maneira como a novela apresenta sua relação com a ausência materna: “Atravessar o luto já seria algo muito difícil, mas temos essa composição do personagem. Como são essas manifestações de quem pode ou não estar no espectro? Como é isso no luto? A gente tenta sempre ilustrar de maneira lúdica, com a lembrança atravessando a fantasia, o realismo lúdico de que a gente gosta de falar. É uma maneira de ele se comunicar com a mãe, de certa forma.”

Samuca e a preocupação com a realidade das famílias

Juliana Peres e Dino Cantelli explicam como as lembranças de Juli permanecem vivas na trajetória de Samuca e detalham os cuidados na construção da investigação de um possível diagnóstico de TEA do menino.
Juliana Peres e Dino Cantelli explicam como as lembranças de Juli permanecem vivas na trajetória de Samuca e detalham os cuidados na construção da investigação de um possível diagnóstico de TEA do menino. Foto: Beatriz Damy/Globo.

A investigação sobre o possível diagnóstico de TEA de Samuca foi planejada para acompanhar as dificuldades de uma família que começa a identificar características do espectro. Na novela, Bela procura diferentes profissionais, enfrenta dúvidas sobre os encaminhamentos e descobre a importância das redes de apoio.

Juliana explicou que a equipe decidiu dedicar tempo a essa trajetória, respeitando a complexidade de um processo que, fora da ficção, pode envolver diferentes especialidades e etapas: “Dentro do tempo possível de uma novela, que tem dia para começar e terminar, a gente queria fazer o périplo de uma mãe real no processo de diagnóstico do TEA. É quase uma via-crúcis. É um processo muito difícil, lento, multidisciplinar. É preciso passar por muitas especialidades. A Bela já foi à pediatra, à neuropediatra. Tem um período de não compreensão, mesmo sendo médica, ela sabe do que está acontecendo, entende, vislumbra aquilo, mas não sabe por onde caminhar, porque não é mãe, nunca teve contato com aquilo”, explicou.

A autora ressaltou que a insegurança da protagonista faz parte de sua transformação, já que ela precisa aprender a cuidar das crianças em circunstâncias que jamais havia imaginado: “É demorado, é lento, é sofrido, é cheio de dúvidas. É um caminho tortuoso. Você escuta muitas pessoas. A gente fez até ela conversar com uma mãe atípica, porque existe uma rede de apoio para essas mulheres, que normalmente são as mães que dão ideias, conversam, mostram caminhos, pegam na mão. Inclusive, a atriz que interpretou essa personagem é uma mãe atípica na vida real.”

Dino observou que a abordagem também responde a uma questão recorrente entre famílias que procuram compreender o comportamento de seus filhos. Para ele, o conhecimento aparentemente difundido nas redes sociais não corresponde necessariamente às dificuldades enfrentadas por quem inicia essa investigação: “Nas redes sociais, as pessoas sabem de geopolítica e também dão diagnóstico. Todo mundo sabe dar um diagnóstico. Na vida real, fora da bolha da internet, a pergunta frequente de mães e parentes que têm crianças no espectro é: por onde a gente começa? Que médico eu procuro? Com quem eu falo? E é natural que, se estamos criando uma mulher que nunca foi mãe, aprendendo a ser mãe, ela aprenda também a ser mãe atípica, caso o diagnóstico se confirme. A gente sempre quis contar essa história do marco zero, desde o comecinho.”

A construção das cenas conta com o trabalho da pesquisadora Catherine Marques e da consultora médica Nathalia Barreto. Juliana destacou que a equipe procura discutir cuidadosamente os diferentes aspectos da representação: “A gente não dá um passo sem elas, temos a nossa pesquisadora, Catherine, que anda junto com a gente o tempo inteiro, e a doutora Nathalia, que está do nosso lado. Todas as cenas a gente discute com ela, o caminho, como faz, até o gestual do Samuca. Tudo isso é estudado, pensado, coordenado com as nossas médicas. A gente faz com muita responsabilidade para que realmente alcance mães atípicas reais e crianças também.”

Peixe: um antagonista marcado pelo abandono

Juliana Peres e Dino Cantelli explicam a construção de Peixe e Vanessa, os dois antagonistas de Bela, e revelam como o luto, o abandono, o racismo e o ressentimento alimentam os conflitos da novela.
Juliana Peres e Dino Cantelli explicam a construção de Peixe e Vanessa, os dois antagonistas de Bela, e revelam como o luto, o abandono, o racismo e o ressentimento alimentam os conflitos da novela. Foto: Angélica Goudinho/Globo.

Peixe (Cauê Campos) tornou-se um dos personagens que mais provocam reações contraditórias entre os telespectadores. Ao mesmo tempo que demonstra afeto pelos irmãos e insiste em assumir responsabilidades familiares, o jovem enfrenta Bela com atitudes impulsivas, ressentimento e uma convicção de maturidade que nem sempre corresponde às suas decisões.

Dino considera a construção do personagem um dos maiores desafios da novela, especialmente pela necessidade de equilibrar seus comportamentos agressivos com os sentimentos que procura esconder: “A gente sempre considerou o Peixe o segundo personagem mais difícil da novela. Primeiro, evidentemente, a Bela, que traz toda a carga, todo o centro dramático. Mas ele vem logo em seguida. É muito sutil, muito difícil. A gente precisa trazer sempre um menino amável com os irmãos. Ele faz de tudo por aqueles irmãos, só que aquilo esconde uma falta, um buraco gigantesco. Tem a ver não só com a falta evidente da mãe, mas também com o quanto ele se sentia menor diante daquele pai.”

O autor mencionou a sequência em que uma sombra cobre Peixe no campo de futebol como uma representação visual do conflito vivido pelo adolescente: “Isso resume o que é o Peixe encarando a vida: ‘Eu sou essa sombra, preciso sair dessa sombra e não consigo’. Ele interpreta sair dessa sombra sendo afrontoso. Às vezes, as pessoas precisam entender que, na dramaturgia, estamos escrevendo um rapaz de 17 anos. Ele não tem a vida formada ainda, nem todas as relações formadas.”

Dino também explicou que a resistência do jovem à presença de Bela cumpre função importante no desenvolvimento da protagonista. A convivência familiar precisa produzir conflitos capazes de provocar mudanças nos dois personagens: “Seria muito fácil se todo mundo concordasse com ela. Na dramaturgia, seria impensável. Para ter a catarse que a gente espera algum dia, aquele momento de virada que imaginamos como espectadores, precisamos criar esse personagem cheio de nuances, que não é preto no branco. É um desafio a todo momento. A gente se diverte, lê, absorve tudo o que as pessoas falam, mas aposta e segue na história do Peixe, porque achamos que o grande desafio da Bela como mãe é dobrar esse menino. Nos próximos capítulos, saberemos se isso será possível ou não.”

Juliana revelou que Peixe está entre seus personagens favoritos e aprofundou a explicação sobre os sentimentos que orientam sua relação com Bela. A autora também antecipou que a história ainda apresentará informações sobre o sofrimento provocado pelo pai do adolescente: “Sou encantada pelo Peixe, acho um personagem supercomplexo, denso, profundo, que se desdobra em muitas coisas. Acima de tudo, ele é um adolescente que sofreu um abandono trágico. Vocês vão ver que esse pai já tinha abandonado ele antes, porque é um homem que o fez sofrer muito. Então, tem o abandono do pai, a morte da mãe e, na cabeça do Peixe, a Bela ficou em detrimento da mãe. A mãe morreu e a Bela ficou. Raiva e tristeza andam juntas. Ele tem uma tristeza profunda que transparece em forma de raiva naquela relação com a Bela.”

A desigualdade social também integra esse ressentimento. Juliana explicou que o jovem não compreende por que as duas amigas seguiram trajetórias tão diferentes: “Ele nunca compreendeu a Bela ter ascendido socialmente e a mãe ter ficado numa vida mais difícil, continuado na comunidade cuidando de quatro filhos. Mas foram escolhas da vida de cada uma. A Bela foi para a vida profissional. Então, é um menino cheio de mágoas, rancores e que vai se transformando. Ele tem o caminho do herói dele e se transforma ao longo da novela e já está nesse processo.”

A autora confirmou ainda que o conflito familiar coloca Peixe em uma posição dramatúrgica semelhante à de Vanessa, embora os dois personagens tenham motivações distintas: “Está tudo certo ele ser detestado agora. Ele é nosso antagonista absoluto da Bela, que tem dois antagonistas hoje: a Vanessa e o Peixe. Depois a gente vai ver esse caminho nas próximas cenas.”

O esgotamento de Bela e o término com Lucas

Os autores de Por Você explicam a decisão de Bela de terminar seu relacionamento com Lucas e revelam como o esgotamento emocional da protagonista influenciou a construção de uma separação marcada pela maturidade e pelo afeto.
Os autores de Por Você explicam a decisão de Bela de terminar seu relacionamento com Lucas e revelam como o esgotamento emocional da protagonista influenciou a construção de uma separação marcada pela maturidade e pelo afeto. Foto: Angélica Goudinho/Globo.

A separação entre Bela e Lucas foi outro tema da entrevista. O relacionamento terminou por iniciativa da protagonista, em uma conversa marcada pelo reconhecimento de que suas responsabilidades e dificuldades emocionais estavam comprometendo a vida a dois.

Juliana considera que a decisão está diretamente relacionada ao esgotamento vivido por Bela desde que assumiu os cuidados dos quatro filhos de Juli: “Acho que ela já chegou nesse limite emocional. A Bela hoje é uma mulher esgotada. O término faz parte desse processo. Ela viu que naquela relação estava insuficiente, estava se achando insuficiente, não estava correspondendo. Porque o Lucas nem é um parceiro que cobra tanto, ele é um cara que chegou no dia mais difícil da vida dela, da morte da amiga, do luto. Foi a primeira pessoa que ela viu quando saiu daquele centro cirúrgico em que a amiga morreu, a primeira pessoa que deu colo para ela.”

A autora explicou que a natureza da relação exigia um rompimento coerente com a maturidade dos personagens: “É muito difícil fazer término de casais maduros. Você não pode colocá-los tendo uma picuinha, uma fofoquinha. Tem que ser um término maduro. Vejo isso o tempo inteiro nas nossas relações, que terminam por esgotamento, por ruídos, por dificuldades na convivência. Foi o que aconteceu com a Bela que terminou porque estava difícil e ela estava se sentindo insuficiente naquela relação. Já está insuficiente para ela mesma, para aqueles filhos, para aquela casa, para o trabalho. É muita coisa, muito pratinho para rodar ao mesmo tempo.”

Juliana acrescentou que a decisão de Bela também acompanha a transformação da personagem, que passou a concentrar suas energias na família formada após a morte da amiga: “Ela é a nossa personagem que está em transformação profunda e optou por tirar a relação para se dedicar integralmente à vida dela com aqueles filhos. É onde está colocando a energia dela agora, 100%.”

Dino aproveitou a discussão para explicar que os romances foram construídos em torno de uma história originalmente centrada na amizade entre duas mulheres: “A nossa novela não é fundamentada no romance. Ela nasce dos laços afetivos de uma amiga-irmã. As coisas acontecem à revelia da vida das duas, e aquilo vai transformando tudo. Os romances começam a aparecer. Lucas vem nesse momento de luto, eles integram um ao luto do outro. Do outro lado, tem o amor que ficou no passado, aquele amor do ‘e se?’. E se a gente continuasse? E se a gente tentasse? Acho que a Bela hoje tem problemas tão centrais na vida dela que precisa resolver primeiro, apaziguar aquele coraçãozinho.”

Vanessa: racismo, ressentimento e rivalidade

Juliana Peres e Dino Cantelli explicam como o racismo, o preconceito de classe e o ressentimento alimentam a rivalidade de Vanessa com Bela, um conflito que atravessa a vida pessoal e profissional das personagens.
Juliana Peres e Dino Cantelli explicam como o racismo, o preconceito de classe e o ressentimento alimentam a rivalidade de Vanessa com Bela, um conflito que atravessa a vida pessoal e profissional das personagens. Foto: Beatriz Damy/Globo.

Juliana foi categórica ao explicar a concepção de Vanessa (Alinne Moraes). A personagem foi construída desde a sinopse como uma mulher racista e classista, características que ajudam a compreender a origem de sua rivalidade com Bela: “Vanessa, para a gente, desde a sinopse, tudo tem nome mesmo. A Vanessa é racista, classista, preconceituosa em todos os níveis. É uma mulher ressentida, uma menina mimada e a história da Vanessa com a Bela vem de muito tempo.”

O antagonismo começou na infância, quando Bela, filha de Domingas, frequentava a mansão da família de Vanessa. A maneira como Pérola (Renata Sorrah) acolhia a menina despertava um ressentimento que se intensificaria ao longo dos anos: “Pérola é uma mulher humanista, progressista que pegava essa menina pela mão e a levava para dentro de casa, colocava a Bela sentada à mesa de jantar, fazia a Bela participar das coisas da casa. Ali já começou o primeiro conflito entre as duas. A Vanessa nunca suportou a menina preta, filha da doméstica, dentro da casa dela, sendo trazida pela mãe e pelo pai. Esse é o primeiro confronto, muito primitivo, entre Vanessa e Bela.”

A ascensão profissional da protagonista e seu envolvimento com Gabriel (Thiago Lacerda) aprofundaram essa rivalidade, que Juliana descreveu como um conflito antigo, alimentado por preconceitos e frustrações: “É um embate ancestral. Vem de muito tempo e esse ressentimento foi crescendo porque ela é uma mulher racista que não tolera uma mulher preta em pé de igualdade com ela, na competência profissional, no espaço que ocupa dentro do hospital, uma médica respeitada, querida por todos. E, para além de tudo, tem a questão amorosa, que atravessa essa disputa com o Gabriel.”

A autora ressaltou que Vanessa também alimenta a sensação de ter sido prejudicada pelas próprias relações familiares, embora tenha contribuído diretamente para os conflitos que enfrenta: “É uma mulher ferida, ressentida por algumas perdas da vida e perdas que ela criou, porque foi ela que fez essa rivalidade. Ela acha que é menos querida em detrimento da Bela, mas não seria. Ela criou alguns confrontos para ela mesma. A nossa Vanessa é calcada em tudo isso. Mas ela é, sim, racista, classista, péssima.”

Juliana também antecipou que os próximos capítulos continuarão explorando as convenções clássicas do folhetim, sem receio de aprofundar os embates entre os personagens: “A gente decidiu que nunca ia ter medo de fazer novela. A gente faz novela, então vem folhetim mesmo. A gente chafurda na lama do folhetim, sem medo, sem vergonha, sem nada. E vem coisa. Isso é a única coisa que a gente assegura.”

Sobre os rumos amorosos de Bela, Lucas e Gabriel, a autora explicou que os personagens ainda atravessam um período de experimentação narrativa: “Como a gente tem o benefício da obra aberta, estamos experimentando esses amores que estão em aberto ainda para eles e para nós.”

O preconceito de um filho contra o pai gay

Juliana Peres e Dino Cantelli explicam a construção da história de um pai gay que enfrenta a rejeição do próprio filho e revelam como a novela pretende abordar os conflitos familiares e as marcas do preconceito.
Juliana Peres e Dino Cantelli explicam a construção da história de um pai gay que enfrenta a rejeição do próprio filho e revelam como a novela pretende abordar os conflitos familiares e as marcas do preconceito. Foto: Angélica Goudinho/Globo.

Uma das revelações que surpreenderam o público foi a história do personagem de Reginaldo Faria, o Manoel. Sua aproximação com Pérola poderia indicar o desenvolvimento de um romance na terceira idade, mas os autores decidiram explorar um conflito familiar relacionado à orientação sexual do personagem.

Dino explicou que a proposta surgiu do desejo de surpreender os espectadores e apresentar uma situação menos frequente nas novelas brasileiras: “A gente tem um princípio: precisa também apresentar alguma coisa que o público não espera, até para saber se ele está a fim de ver aquilo ou não. Quando surgiu essa história, resolvemos fazer de uma maneira um pouco mais inusitada e contar uma história que não é muito normal nos folhetins, que é a rejeição do filho ao pai quanto à sua orientação sexual.”

O autor destacou que a escolha permite inverter uma configuração frequentemente apresentada nas histórias sobre preconceito dentro da família: “Geralmente, a gente fala do pai que é incompreensível, aquela coisa da homofobia. Então quisemos fazer o caminho contrário. Como é um filho diante desse pai? Aí tem todas essas cargas emocionais: ‘Você abandonou a minha mãe por conta de outro’. Tudo isso é o que vamos explorar daqui para frente, com a chegada do filho Francisco.”

O reencontro deverá trazer à tona ressentimentos antigos, enquanto Pérola tentará contribuir para uma reaproximação entre os dois: “Vai ser um reencontro depois de muito tempo, em que essas feridas que nunca foram cicatrizadas vão vir à tona. Vamos ver como eles vão se reconstruir enquanto relação. A gente apostou muito nisso, com a Pérola indo atrás desse filho, insistindo. O campo mais confortável seria fazer um amor maduro, eles se envolverem e aquilo se desenvolver ao longo da história. Mas resolvemos dar um cavalo de pau e trazer uma coisa diferente.”

Silvia e Hannah: os sonhos de uma mãe projetados na filha

Juliana Peres e Dino Cantelli explicam como os sonhos interrompidos de Silvia influenciam sua relação com Hannah e antecipam os conflitos que colocarão à prova os laços entre mãe e filha em Por Você.
Juliana Peres e Dino Cantelli explicam como os sonhos interrompidos de Silvia influenciam sua relação com Hannah e antecipam os conflitos que colocarão à prova os laços entre mãe e filha em Por Você. Foto: Angélica Goudinho/Globo.

A relação entre Silvia (Fernanda de Freitas) e Hannah (Pietra Quintela) também ganhará novos desdobramentos. A mãe, que interrompeu o sonho de se tornar uma bailarina profissional, passou a projetar na filha expectativas relacionadas à própria trajetória.

Juliana explicou que a personagem reúne qualidades e contradições, o que torna seu comportamento mais complexo do que o de uma antagonista convencional: “Silvia é uma mulher frustrada, que projeta na Hannah um sonho não realizado de ter sido uma super bailarina, uma bailarina de companhia de dança. Ela interrompeu esse sonho para ter a filha e projeta nela essa perfeição que tentou atingir e não conseguiu. Mas a Silvia é uma mulher contraditória, porque ela não é a Vanessa. É uma pessoa legal, íntegra, batalhadora, mas tem essas frustrações e deságua na filha essa dor não resolvida.”

A autora revelou que a equipe ainda discute os rumos dessa relação, especialmente a possibilidade de mãe e filha influenciarem uma à outra durante o desenvolvimento da história: “A gente está num processo de crescimento das duas juntas, do quanto essa mãe pode transformar essa filha e essa filha pode transformar essa mãe. Ainda não sabemos o que vai se sobrepor, se é essa coisa disciplinadora, controladora da Silvia ou se vai ser o frescor, a juventude e a leveza da filha. Esse é o conflito das duas: quem vai se sobrepor naquela relação? Quem vai contaminar quem?”

Dino antecipou que novos acontecimentos afetarão Silvia e terão consequências diretas na convivência com Hannah, embora tenha preferido preservar os detalhes: “Tem alguns acontecimentos que vão interferir na vida da Silvia e respingar exatamente na relação com a filha. É uma relação delicada, que tem a ver com projeções, com um sonho interrompido.”

A escrita a quatro mãos e a aposta em diálogos longos

Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, os autores de Por Você revelam os bastidores da criação da novela, explicam suas escolhas dramatúrgicas e comentam os desafios de construir personagens e histórias capazes de emocionar o público.
Em entrevista exclusiva ao Pittaplay, os autores de Por Você revelam os bastidores da criação da novela, explicam suas escolhas dramatúrgicas e comentam os desafios de construir personagens e histórias capazes de emocionar o público. Foto: Manoella Mello/Globo.

A parceria entre Juliana Peres e Dino Cantelli também ajuda a explicar a identidade de Por Você. Os autores trabalham juntos desde a elaboração das escaletas, discutem os diálogos e procuram atribuir uma função narrativa a cada sequência.

Juliana revelou que o processo exige uma dedicação intensa e que a dupla costuma desenvolver boa parte das cenas antes mesmo da redação final dos capítulos: “Aqui temos um encontro de dois obsessivos. Eu e Dino somos dois obsessivos. A gente trabalha junto o tempo inteiro, faz a escaleta, e a nossa escaleta é muito fechada. Começamos: capítulo, cena um, Bela encontra Lucas. Ali a gente já coloca todo o diálogo. Nós dois juntos vamos fazendo, o diálogo vai vindo e a gente já deságua muito daquela cena. É a nossa maneira de construir a história.”

A autora explicou que a preocupação com a função de cada sequência também procura evitar que a extensão da novela comprometa o desenvolvimento dos conflitos: “Às vezes, a gente discute fazendo a escaleta: para que serve essa cena? Essa cena tem que ter uma função. Se não tem, vai ser descartada. A novela é muito longa, tem mais de 180 capítulos, por volta disso. Às vezes, você chega à barriga da novela e coloca uma cena assim, outra assada. A gente não tem cena para jogar fora. Toda cena tem que empurrar a história um pouco para frente.”

O processo continua durante a redação definitiva, quando os autores voltam aos diálogos para aperfeiçoar o texto: “Depois que o capítulo vem para a gente fazer a redação final, ainda colocamos outra energia ali, bordando aquele diálogo. A gente borda muito. E aí resulta no capítulo como é.”

Dino comparou a sintonia criativa dos dois a uma apresentação musical, na qual cada integrante consegue antecipar os movimentos do outro: “Eu e Juliana subimos no palco, ela começa a tocar um acorde, eu já sei que música ela vai tocar e vamos seguindo. Na próxima música, faço um sinal para ela e ela já sabe qual é. É uma sintonia um pouco inexplicável. A gente se conhece há dez anos, começou trabalhando em Malhação e depois foi se encontrando em projetos. Entendemos que temos uma sintonia gigantesca nos textos e até no jeito de pensar a história.”

O autor também destacou que a equipe procura respeitar as características próprias da televisão e do folhetim: “A gente ama fazer novela. Não tenta fazer a novela virar um filme, uma série. Novela é novela. Quando formos fazer o roteiro de uma série ou de um filme, faremos de acordo com os ritos de cada processo. Mas aqui temos sempre o cuidado de não deixar a cena pela cena. O que estamos querendo com isso? Até quando plantamos determinadas coisas numa semana, já sabemos que vamos colher alguma coisa lá na frente.”

Essa preocupação está diretamente relacionada a uma das escolhas mais marcantes de Por Você: a presença de cenas longas, sustentadas por diálogos que exploram os sentimentos e as contradições dos personagens.

Juliana reconheceu que a decisão representava um risco, especialmente diante dos hábitos de consumo do público da faixa das sete: “A gente foi bem abusado, eu e Dino, porque tinha consciência de que estava correndo um risco. A gente sempre fala que a novela das sete é cada vez mais uma novela radiofônica. As pessoas estão vendo a novela fazendo tudo o que têm para fazer em casa e no celular o tempo todo. Diferentemente da novela das nove, quando você já está mais repousado para assistir. Então temos um desafio constante, disputamos muitos espaços.”

Apesar disso, os autores decidiram preservar uma característica da dramaturgia pela qual demonstram admiração como espectadores: “A gente realmente bancou essa coisa de fazer cenas longas. Gostamos de cenas longas. Sentíamos falta de cenas longas, diálogos caudalosos, aquele diálogo contemplativo para você sentar e ver. Sabíamos que estávamos tentando furar uma bolha. Mas a gente também é fã de novela, é noveleiro. Sentíamos falta de novelas com cenas assim. Para nossa surpresa e nosso agrado, deu certo. As pessoas gostam, a gente vê que sentem falta mesmo. Você coloca uma cena da Renata Sorrah e do Reginaldo Faria conversando e aquilo é um deleite.”

Dino ressaltou que a aposta não significa abandonar o ritmo característico do horário. Para ele, a ousadia precisa estar acompanhada da compreensão sobre a linguagem da obra e as expectativas do público: “A gente conhece todo o código do horário, entende o dinamismo e tenta fazer com que a história tenha o corpo da novela das sete. Mas estamos fazendo algo que gostaríamos de ver. Isso é primordial. A gente escreve as cenas que gostaria que fossem ao ar. Escreve capítulos que gostaria de assistir. Esse é o primeiro passo: acreditar na própria história.”

O autor também recordou a influência das novelas rurais de Benedito Ruy Barbosa em sua formação como espectador, especialmente por reconhecer naquelas histórias elementos próximos de sua infância no interior de Santa Catarina: “Sou criado numa era mais Benedito Ruy Barbosa, aquelas nossas novelas rurais. Era onde eu me identificava, onde via algo que conversava muito com a realidade que vivia. Depois que fui para o ambiente mais urbano, comecei a querer ver coisas urbanas. Quando eu e Juliana nos encontramos, percebemos que gostávamos das mesmas coisas. Gostamos de família grande, de problemas em família, dessas problemáticas todas.”

Juliana acrescentou que a presença de personagens jovens e núcleos de humor contribui para equilibrar a densidade dos conflitos: “A gente tem muita preocupação com o ritmo também. Apesar de gostar de cenas longas, estamos o tempo inteiro atentos ao ritmo. Temos muitos jovens na novela, nossos comerciantes divertidos. Vamos fazendo uma trança desses momentos de deleite com a agilidade que precisamos para o horário, construindo um capítulo dinâmico apesar das cenas longas que adoramos.”

A identificação dos autores com a história também se manifesta durante a escrita. Juliana revelou que algumas sequências provocam emoção antes mesmo de chegarem às telas: “A gente chora escrevendo e chora vendo. Várias vezes estamos aqui fazendo a escaleta e choramos, nos emocionamos.”

Entre os conflitos familiares, as lembranças de Juli e os caminhos ainda indefinidos de seus personagens, Por Você continua sendo construída a partir dessa relação entre o envolvimento emocional dos autores e o cuidado com a linguagem do folhetim. Para Juliana Peres e Dino Cantelli, cada capítulo representa uma oportunidade de desenvolver histórias que também gostariam de acompanhar como espectadores.

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