“A vitimização nos paralisa porque nos prende à dor”: Catharina Caiado fala sobre dor, desejo e liberdade em Dona Beja

Fora de cena, Catharina Caiado carrega a mesma intensidade que imprime em seus personagens. Atriz, criadora e agora também autora de novos caminhos, ela transforma sua estreia em novela em um ponto de virada na carreira. Foto: (Divulgação/Arquivo Pessoal - Catharina Caiado)

Há personagens que não se sustentam apenas pelo texto. Elas exigem corpo, escuta e coragem. Em Dona Beja, Carminha encontrou em Catharina Caiado não só uma intérprete, mas um território vivo de contradições, pulsões e delicadezas.

A novela da HBO Max chegou ao fim com seu último bloco de capítulos liberados nesta semana e a personagem se consolida como uma das construções mais sensíveis da trama, uma mulher atravessada por opressões, mas movida por desejo de vida que insiste em romper qualquer limite imposto.

Em entrevista à coluna Cena Aberta, do Pittaplay, Catharina revisita o processo de criação, fala sobre sua estreia nas novelas e revela os caminhos que se abrem após esse trabalho que, segundo ela mesma, marcou uma virada pessoal e artística.

Entre a dor e o desejo de viver

Carminha é leve, mas nunca superficial. Em cena, Catharina Caiado constrói uma mulher atravessada por dores, desejos e uma força silenciosa que insiste em existir, mesmo quando o mundo tenta reduzir quem ela é. Foto (Divulgação/Acervo pessoal de Catharina Caiado).
Carminha é leve, mas nunca superficial – Em cena, Catharina Caiado constrói uma mulher atravessada por dores, desejos e uma força silenciosa que insiste em existir, mesmo quando o mundo tenta reduzir quem ela é.
Foto (Divulgação/Acervo pessoal de Catharina Caiado).

Desde o início, a atriz percebeu que Carminha não poderia ser reduzida a um único tom. A personagem nasce da convivência entre forças opostas e é justamente nessa ambivalência que encontra sua potência: “Eu sou uma mulher tragicômica. Me identifico completamente com ela. Sou muito intensa e profunda, mas tenho vocação para a alegria. Assim como a Carminha, o meu desejo de viver é sempre maior que o medo”.

Para Catharina, essa construção não é apenas narrativa, mas existencial. Ela entende Carminha como alguém que escolhe o movimento mesmo quando tudo ao redor aponta para a estagnação: “Viver é muito ambivalente. O amor pode ser muito violento, como aquele que a sua mãe é capaz de dar. E o amor pode ser uma força linda como aquela que a Carminha vive com o Honorato”.

A leveza da personagem, portanto, não é ausência de dor, mas uma escolha diante dela.

Recusar a vitimização também é um gesto político

Entre a rigidez de um mundo que tenta moldá-la e o desejo de ser quem é, Carminha encontra na própria sensibilidade sua forma de resistência. Na interpretação de Catharina Caiado, a personagem não pede espaço, ela ocupa, transforma e deixa marcas. Foto: (Divulgação/Acervo Pessoal de Catharina Caiado).
Entre a rigidez de um mundo que tenta moldá-la e o desejo de ser quem é – Carminha encontra na sensibilidade sua forma de resistência e a interpretação de Caiado, não pede espaço, ela ocupa, transforma e deixa marcas.
Foto: (Divulgação/Acervo Pessoal de Catharina Caiado).

Um dos pontos mais marcantes da trajetória de Carminha é a forma como ela atravessa as opressões sem se fixar nelas. Para a atriz, esse foi um eixo central da construção: “A vitimização nos paralisa porque nos prende a dor”.

Catharina destaca que a personagem só se transforma quando encontra um espaço de afeto que a permite existir sem medo: “Quando ela deixa de precisar porque vive um grande amor com o Honorato, ela finalmente pode transbordar, e ser ela mesma sem medo”.

Esse movimento não apaga a violência vivida, mas desloca o foco da narrativa: da dor para a possibilidade.

Mãe e filha: o amor que também fere

A relação entre Carminha e Augusta está entre as mais complexas da novela. Longe de uma leitura simplista, a atriz constrói essa dinâmica a partir da compreensão: “A família pode ser muito cruel”.

Ao olhar para a personagem da mãe, Catharina encontra as raízes de violência que não nasce do desamor, mas de um amor distorcido: “O amor pode encontrar caminhos muito tortos”. 

Essa leitura permite que Carminha não apenas reaja, mas também compreenda e, a partir disso, se liberte.

O encontro com Honorato e a força da contracena

Entre humor, entrega e escuta, Catharina Caiado e Gabriel Godoy constroem um dos casais mais carismáticos de Dona Beja. Carminha e Honorato são encontro, risco e liberdade, daqueles que o público escolhe torcer até o fim. Foto: (Divulgação/Arquivo Pessoal de Catharina Caiado).
Entre humor, entrega e escuta – Catharina Caiado e Gabriel Godoy construiram um dos casais mais carismáticos de Dona Beja. Carminha e Honorato são encontro, risco e liberdade, daqueles que o público escolhe torcer até o fim.
Foto: (Divulgação/Arquivo Pessoal de Catharina Caiado).

Se Carminha é atravessada por conflitos internos, é no encontro com Honorato que ela encontra expansão. E essa relação ganhou força também nos bastidores: “Foi amizade à primeira vista”, descreve a atriz sobre o processo com Gabriel Godoy como espaço de confiança, escuta e liberdade criativa: “A magia aconteceu. Foi muito verdadeiro”.

A construção do casal se deu em ambiente de troca constante, onde o humor, o improviso e o respeito aos limites foram fundamentais: “Escolhemos juntos os caminhos, o tom, o ritmo, o calor”.

O resultado é uma relação que pulsa em cena, e que rapidamente conquistou o público.

Corpo, desejo e liberdade

Carminha se permite existir sem culpa, corpo presente, desejo vivo, liberdade em movimento. Na cena, não há julgamento, só a coragem de sentir. E Catharina Caiado traduz esse momento como quem entende que, às vezes, ser livre é simplesmente não pedir permissão para viver. Foto: (Divulgação/Arquivo Pessoal de Catharina Caiado).
Carminha se permite existir sem culpa – Na cena, não há julgamento, só a coragem de sentir E Caiado traduz esse momento como quem entende que, às vezes, ser livre é simplesmente não pedir permissão para viver.
Foto: (Divulgação/Arquivo Pessoal de Catharina Caiado).

Ambientada em outro tempo, Dona Beja atravessa discussões profundamente contemporâneas. Carminha, nesse sentido, se torna um espelho: “Acredito de verdade que o corpo é livre”.

A atriz entende que a personagem expõe um conflito que segue atual: a imposição de padrões e a dificuldade de pertencimento: “Vivemos uma padronização que, pra mim, é a antítese da autonomia”.

Ao longo da novela, Carminha não apenas questiona esses padrões, ela os atravessa, reinventando sua relação com o próprio corpo e desejo.

A estreia que virou virada

Apesar de ser sua primeira novela, Catharina chegou ao projeto com trajetória sólida no teatro e foi esse caminho que sustentou sua construção: “Foi um presente”.

A atriz revela que, por muito tempo, evitou o audiovisual, até encontrar momento de maturidade pessoal e artística que permitisse essa entrega: “Estava muito pronta para ela”.

O processo foi intenso, exigente e transformador, dentro e fora de cena.

O que fica depois de Carminha

Mais do que uma personagem, Carminha deixou marcas profundas na atriz: “Ela me fez lembrar do meu brilho, da minha força”. 

Catharina descreve o trabalho como um reencontro consigo mesma, especialmente em um momento pessoal delicado: “Ela foi um cometa de luz”.

O futuro já começou

Com o fim de Dona Beja, Catharina não desacelera. Pelo contrário: amplia: “Eu escrevo, eu crio, eu escrevo”. 

A atriz revela que já tem projetos em desenvolvimento, incluindo um longa autoral inspirado em sua experiência no puerpério: “É um longa sobre duas mulheres que se encontram no puerpério e se apaixonam loucamente”, revela, sem dar todos os detalhes, mas deixando claro que o próximo passo será ainda mais autoral: “Sou um furacão de ideias com força realizadora”.

No fim, talvez Carminha não tenha sido apenas um papel de estreia. Foi um atravessamento. E Catharina Caiado parece ter entendido algo essencial: há histórias que não se interpretam, se vivem.

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