Há histórias que nascem prontas. Outras, no entanto, parecem surgir como quem escuta um sussurro distante, uma pergunta antiga que insiste em ser respondida. Com Um Caminho para as Hortênsias, Adriana Celi não apenas escreve um romance histórico: ela constrói uma travessia. E, como toda travessia verdadeira, ela começa com inquietação.
Antes de chegar à Revolução Pernambucana de 1817, foi um mistério que acendeu a faísca: “Comecei a traçar uma história a partir do sumiço da feiticeira de Ilhabela”, conta a autora em entrevista à coluna Por Trás das Páginas. A partir daí, a curiosidade fez o resto: olhar para o Brasil daquele mesmo ano, entender os movimentos que atravessavam o país e perceber que ali havia mais do que um contexto histórico, havia um território emocional a ser explorado.
É nesse encontro entre história e imaginação que nasce Luiza.
Uma protagonista em busca de si e de um lugar no mundo
Luiza não é uma heroína clássica. Não nasce pronta, nem protegida por certezas. É, antes de tudo, uma mulher em construção e, talvez por isso, tão reconhecível.
“Ela se considera muito sozinha, criada com o pai, vendo muitas mentiras contadas pelos homens… então passa a não confiar no romance e questiona esse mundo machista”, explica Adriana. Há, nessa construção, também um reflexo íntimo: “De mim, tem a curiosidade e momentos de muita solidão também”.
E é dessa solidão que nasce o movimento. Luiza parte, não apenas geograficamente, mas internamente, em jornada que a obriga a rever tudo o que acredita.
O significado de ser uma hortênsia

O título do livro não é apenas poético. É simbólico, quase um manifesto: “Eu amo hortênsias. Elas desabrocham para seduzir e ter um fim… e esse fim é como você lida com as flores que a vida te dá”, diz a autora. Há delicadeza na imagem, mas também um peso: escolhas, consequências, destinos que não podem ser evitados.
Para Adriana, ser uma hortênsia dentro da narrativa é justamente isso: “Que decisão será a melhor, ou a menos prejudicial, dentro de um contexto histórico do século XIX?”
E talvez seja aí que o livro encontra sua força: na recusa de respostas fáceis.
Mulheres que ensinam, lutam e resistem
Se há um eixo que sustenta a narrativa, ele está na construção das mulheres. Não apenas como personagens, mas como força coletiva: “Hortênsia, na verdade, faz parte de uma organização de mulheres… versão feminina da maçonaria, talvez”, revela Adriana. A autora constrói, assim, espaço onde o feminino não é coadjuvante, mas estratégia, comando, sobrevivência.
“Eu tento mostrar a fortaleza da mulher em vários aspectos”, afirma.
Amor, guerra e aprendizado
No centro da narrativa, um triângulo amoroso. Mas, ao contrário do que se espera, ele não é apenas sobre desejo: “Aqui o amor será uma ajuda mútua… os três vão lutar na revolução”, explica a autora.
O romance, portanto, não suaviza a história, ele a tensiona. Porque amar, nesse contexto, também é escolher. E escolher, como o livro deixa claro, tem um preço.
A decisão mais difícil de Luiza? “Se afastar de Diego e assumir ser uma nobre ao lado de Ceaser… para isso, pessoas terão que morrer”.
Não há romantização. Há consequência.
O mar como metáfora de tudo

Entre Ilhabela, Rio de Janeiro, Salvador e Pernambuco, há um elemento que atravessa toda a narrativa: o mar.
“O mar é tudo. É a incerteza, a reflexão, as brigas, os momentos de tesão e luxúria… porque é um mistério, instável e livre”, define Adriana.
E talvez não haja imagem mais precisa para descrever a própria história que ela escreve.
História sem filtro e sem conto de fadas
Ao inserir a maçonaria, os padres e os jogos de poder na trama, Adriana não cria tensão, mas a revela: “São fatos. Estão nos livros de história… não tem o que ter receio”, afirma.
O mesmo vale para o tom da narrativa. Aqui, não há espaço para finais idealizados: “Eu sempre amei contos de fadas… até entender que é melhor encarar os fatos. Isso de ‘felizes para sempre’ não existe”, diz.
O que existe, segundo ela, são relações construídas com tempo, escolhas difíceis e verdades que nem sempre são confortáveis.
Entre a escrita e a vida: a autora por trás da obra
Se o livro fala sobre enfrentamento, a trajetória de Adriana também carrega essa marca: “Escrevo desde menina… minha mãe jogou fora tudo que escrevi. Perdi uma grande produção ali”, relembra.
A escrita, então, seguiu em silêncio. Escondida. Até ganhar voz através de quem acreditou nela: “Minha irmã leu meus rascunhos e disse: ‘você tem que publicar isso’”.
E, mais tarde, veio outro ponto de virada, simples, mas definitivo: “Meu pai disse: ‘não escreva só pelo dinheiro’… ali foi um divisor de águas”.
Um caminho que ainda está sendo traçado

Um Caminho para as Hortênsias já revela uma autora que sabe exatamente o que quer contar. Há, inclusive, a promessa de continuidade: “Ela vai viver mais coisas… algumas serão consequências das escolhas”, antecipa Adriana sobre a protagonista Luiza.
E o que vem pela frente? Uma protagonista que precisará enfrentar não apenas o passado, mas a própria estrutura de poder da nobreza europeia.
Por que ler Adriana Celi agora
Ao final da entrevista, a resposta da autora não vem como estratégia, mas como urgência: “Vejo meninas muito jovens se submetendo a violências… queria que minhas alunas buscassem um futuro melhor”, diz.
E é nesse ponto que o livro deixa de ser apenas uma narrativa histórica. Ele se torna um convite. Um alerta. E, sobretudo, um espelho.Porque, no fim, como a própria história sugere, o verdadeiro perigo nunca esteve no mar.
Mas nas escolhas que fazemos quando já não há mais para onde voltar.




