Há histórias que nascem do silêncio. Não do vazio, mas daquele espaço onde tudo pulsa de forma mais sensível, mais íntima, mais verdadeira. É desse lugar que surge a escrita de Rachel Campos, autora que não apenas conta histórias, mas traduz sentimentos que muitas vezes escapam das palavras.
Nascida no Mato Grosso do Sul e privada da audição ainda nos primeiros meses de vida, Rachel aprendeu desde cedo que o mundo pode ser compreendido de outras formas. A leitura labial foi seu primeiro idioma. A arte, mais tarde, se tornaria sua voz mais potente.
“Descobri na arte de contar histórias uma poderosa forma de me comunicar com o mundo”, conta a autora em entrevista à coluna Por Trás das Páginas. E é justamente nessa descoberta que sua trajetória ganha contornos de propósito, não apenas escrever, mas tocar, provocar e transformar.
Quando escrever deixa de ser escolha e se torna necessidade
Antes da escrita, veio a tentativa de seguir caminhos mais tradicionais. Rachel se formou em Fisioterapia, dedicou anos de estudo e esforço, mas havia um incômodo silencioso que não se dissipava: “Após a formação, percebi que algo ainda faltava, não me sentia plena nem verdadeiramente feliz”, revela.
A virada veio com o audiovisual. Foi ali, entre projetos e experiências, que encontrou não apenas uma profissão, mas um sentido: “Foi ao conhecer o universo audiovisual que tudo começou a fazer sentido”, diz.
A partir desse encontro, nasce inquietação que move sua produção até hoje: a vontade de impactar vidas: “Espalhar amor desperta em mim, a cada dia, o desejo de produzir cada vez mais”, afirma. Uma motivação que, segundo ela, cresce de forma intensa, “quase viciante”.
Alice: a personagem que demorou uma vida para existir

Em O Som do Coração, Rachel apresenta Alice, jovem surda, cheia de energia, sonhos e coragem. Mas Alice não é apenas uma personagem. Ela é, de certa forma, um reencontro.
“Alice é a Rachel que levei muitos anos para finalmente trazer à vida”, diz.
Durante muito tempo, a autora se sentiu reprimida, contida, distante de sua própria expressão. Atualmente, encontra na escrita um espaço de liberdade: “Hoje, sou uma sonhadora que encontrou na escrita a sua forma de se expressar”.
Alice, então, nasce como esse reflexo, não do passado, mas da mulher que Rachel se tornou. Uma personagem que não pede licença para existir, que ocupa seu espaço com leveza e intensidade.
Representar também é reescrever o destino
A escolha de uma protagonista surda não é apenas pessoal, é também política, afetiva e necessária. Rachel revela que, ao longo da vida, sentiu falta de se reconhecer nas histórias que consumia: “Nunca me vi, de fato, representada em nenhuma obra”, afirma.
E quando a representatividade aparecia, vinha carregada de dor: “Quase sempre suas trajetórias eram marcadas pela dor e por finais infelizes”.
Foi dessa ausência que nasceu O Som do Coração. Um livro que propõe outro caminho: “Quis contar narrativa em que uma pessoa com deficiência pudesse viver história leve, cheia de afeto e, sim, com final feliz”.
Porque, como ela reforça, “nós também temos o direito de sonhar, de amar e de acreditar no nosso próprio felizes para sempre”.
Escrever com o coração, literalmente

Ao falar sobre seu processo criativo, Rachel não menciona métodos complexos ou estruturas rígidas. Sua resposta é direta e, ao mesmo tempo, profundamente simbólica: “Deixei meu coração me conduzir por completo”.
A escrita, para ela, foi também uma forma de viver o que não viveu: “Imaginei cada emoção que gostaria de ter vivido”, conta.
O resultado é uma narrativa que equilibra leveza, humor e emoção sem esforço aparente, porque nasce de um lugar genuíno. Um espaço onde fantasia e desejo caminham juntos.
Um livro que já nasceu cinema
Há algo de visual na forma como Rachel escreve e isso não é acaso. Desde o início, O Som do Coração foi pensado também como obra audiovisual: “Idealizei os capítulos como cenas de um filme”, explica.
Essa escolha não só influenciou a estrutura da narrativa, como também pavimentou o caminho para o próximo passo: a adaptação para o cinema, já em desenvolvimento: “Construí os capítulos imaginando aquilo que gostaria de ver projetado na tela”, diz.
Para ela, a diferença entre literatura e cinema está na forma de sentir: “Na escrita podemos descrever de forma mais poética as emoções. No cinema, haverá todo um trabalho da direção para transmitir exatamente essas sensações”.
O som que não se ouve, mas se sente
O título da obra carrega uma das camadas mais bonitas e mais íntimas do livro: “Para muita gente, o som está ligado ao que se ouve, mas, para mim, ele nunca foi só isso”, explica.
Rachel ressignifica o silêncio. Não como ausência, mas como outra forma de presença: “O silêncio também comunica”.
E talvez seja justamente aí que o livro encontra sua força: naquilo que não precisa ser dito em voz alta: “O Som do Coração fala sobre aquilo que é sentido antes de ser entendido”.
Uma experiência para além da leitura
Ao final da conversa, Rachel não fala apenas sobre o que escreveu, mas sobre o que espera provocar: “Espero que, ao fechar a última página, o leitor leve consigo experiência de escuta diferente. Não com os ouvidos, mas com o coração”.
Há, também, um desejo claro de acolhimento. De que outras pessoas surdas se reconheçam, se enxerguem, se sintam parte da história: “Pessoas surdas também merecem viver grandes histórias de amor, de superação e de felicidade”.
E talvez seja isso que torna O Som do Coração mais do que um romance. Ele não apenas conta uma história, ele abre espaço para que outras também possam existir.




