Eduardo Pelizzari e João Villa fazem da intimidade uma linguagem e criam o casal que muda o tom de Dona Beja

Eduardo Pelizzari e João Villa fazem da intimidade uma linguagem e criam o casal que muda o tom de Dona Beja

João Villa e Eduardo Pelizzari constroem, em Dona Beja, um dos encontros mais sensíveis e artisticamente refinados desta nova fase da teledramaturgia em streaming.

À frente do Delegado Maurício, Pelizzari entrega trabalho de composição que ultrapassa a função narrativa do personagem. Há rigor técnico evidente, mas o que se destaca é a forma como ele permite que as fissuras emocionais atravessem a figura de autoridade. Maurício investiga crimes brutais, mas é no embate com seus próprios desejos e conflitos que o ator encontra sua maior potência.

João Villa, como Fortunato, responde com atuação de extrema delicadeza. Seu trabalho é interno, contido, mas nunca inerte. Há sempre uma tensão latente, entre o que se sente e o que se reprime, e o ator sustenta essa dualidade com precisão.

Quando dividem cena, o que se vê é construção de afeto em estado bruto. As cenas íntimas entre Maurício e Fortunato são conduzidas com sensibilidade e rigor estético. Nada soa apelativo; ao contrário, há um cuidado quase coreográfico nos gestos, nos silêncios e na proximidade física. A direção geral da trama, nas mãos de Hugo de Souza transforma esses momentos em composições visuais que valorizam o tempo do encontro e a verdade dos corpos em cena.

O texto de Daniel Berlinsky e António Barreira acerta ao inserir, em narrativa de época, um romance que dialoga diretamente com o presente. Sem anacronismos forçados, os autores constroem uma relação que amplia discussões sobre liberdade, afeto e preconceito. O amor entre Maurício e Fortunato não pede licença para existir, ele se impõe.

Mais do que um romance, o que se estabelece é um gesto político e artístico. Em 2026, ver uma história assim tratada com tamanha dignidade não apenas emociona: reposiciona. E faz com que seja impossível não torcer por eles.

Foto: Acervo pessoal / Eduardo Pelizzari

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